segunda-feira, setembro 12, 2016

 

Autorregulação ou anda em roda livre?


Simpatizo com este governo, mas em matéria de conduta de cargos públicos fazer apelos à consciência profissional ou de desempenho, a que chama autorregulação, não me convence. A consciência só diz o que o próprio quer que se diga. Apelar à autorregulação é como andar em roda-livre. Preferia mais rigor!

Por exemplo, por que não colocam no articulado dos deveres de conduta, estas ideias simples do Padre António Vieira. Ele é tão citado, por que não o levam a sério?

Bastariam duas ideias que surgem no seu “Sermão do Bom Ladrão”! Ora reparem:

1ª – Como introdução: “Os particulares, se lhe roubarem a fazenda, podem perdoar o furto a quem os roubou; o Rei ou governante não administra a sua fazenda,  senão a da república e, por isso não é só responsável pelo que furta, mas também pelo que deixa furtar”

2ª-  A república é a “coisa de todos” e, por isso, os governantes não só não podem aceitar favores particulares, como devem zelar pelas contribuições que os cidadãos entregam para o bem de todos. Assim:

Preceito único:“(...) aquele que tem obrigação de impedir que se furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes (ou governantes) que por sua culpa deixaram crescer os ladrões, são obrigados à restituição do que eles roubaram; porquanto as rendas com que os povos os servem e assistem são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham com justiça”.

3ª Seguindo o princípio da ética da responsabilidade: responder pelas consequências de não exercer com espírito de serviço público um cargo da República (ao receber bens privados ou ao permitir que os ladrões de colarinho branco roubem), obriga: a demissão do cargo e a repor com os seus bens o que os ladrões roubaram à república.

Bastavam estes três princípios para acreditar na seriedade de um código de conduta. Assim, nunca há consequências penais e é só poeira para olhos incautos! E o PS deveria ser diferente.

 

Um almoço de caça.


Todos os anos convido alguns dos meus amigos para um almoço de caça. No sábado passado foi o dia desse repasto anual. Houve perdizes e veado para reconciliar um desporto muito ligado à natureza, que pratico desde muito novo, com a amizade.  Ortega e Gasset assegura, no seu livro, “Sobre a caça e os touros”, que a mais ilustre amizades, entre o grego Políbio e o Cipião Emiliano, foi ocasionada em torno da caça. Já o posso confirmar! E, se a amizade se guarda no mundo da memória, nada melhor do que fazer partilhar os amigos com o resultado de uma caçada. Só tive pena que a maioria do grupo de caçadores, a quem devo a caçada, não pudesse aparecer. Os que vieram, trouxeram as suas companheiras e, depois do almoço, houve fado, fado de Coimbra, naturalmente. Foram estes, nomeadamente as baladas do Zeca, que durante os melhores anos da nossa vida cimentaram os laços que, ainda hoje, nos prendem. Este manjar, quase divino, realizou-se, como no ano passado, no Restaurante Quinta do Beiral, na minha Terra,  e o delicioso vinho foi do nosso amigo Miranda, da sua produção “Quinta do Burgo”, também na minha Terra, a Folhada. No final, como não podia deixar de ser, cantamos o adeus à Folhada, mas é só até ao próximo ano!

quinta-feira, setembro 08, 2016

 

Entrevista do Juiz carlos Alexandre


Gostei da entrevista de Carlos Alexandre à SIC. Sempre admirei o espírito de missão e, detestando a guerra, tive sempre pelos militares grande admiração. Carlos Alexandre tem esse espirito de missão semelhante ao militar que cumpre o seu dever de servir a Pátria. Sei que, hoje, com as muitas situações dilemáticas com que nos debatemos, a ética Kantiana perdeu alguma força. Mas sem o imperativo categórico, de cumprir o dever, porque é o dever, desaparece todo o sentido da ética e da justiça. Hoje vivemos numa sociedade que fala muito nos direitos, mas esquece os deveres e, talvez, por isso, não faça dos valores, dos princípios e normas, que deveriam ser integrados pela educação, tradição e cultura, os orientadores do modo de agir.

Gostei da entrevista de Carlos Alexandre. Não sei se fez ou não sempre justiça, mas pareceu-me um homem justo, porque age por respeito a um dever. Não é, por isso, uma pessoa de quem se possa ter medo! https://www.noticiasaominuto.com/pais/650312/juiz-carlos-alexandre-nao-sou-pessoa-de-quem-se-deva-ter-medo

segunda-feira, setembro 05, 2016

 

Na Senhora da Lapa

Em meados de agosto de 1774, quando os primeiros raios de Sol secavam as últimas gotas de orvalho que humedeciam as flores colocadas nas campas das videntes da Senhora da Lapa, em S. João da Folhada, ( minha Terra) , a coberto da escuridão da noite pelos seus devotos, já o coveiro de S. João da Folhada cumpria as ordens do sr. Abade: retirar todos os sinais de veneração e levá-los para local mais escondido e longínquo possível. Receava que algum dos muitos milhares de informadores do Secretário do Reino, algum visitador da freguesia ou mesmo o Abade de Jazente, Paulino Cabral, fossem levados a pensar que na sua paróquia não se cumpriam as ordens que vinham em edital do Regimento do Santo Ofício da Inquisição, aprovado, em alvará, no dia 14 de agosto de 1774, assinado por Adriano José de Carvalho e Mello e de “próprio motu, certa Sciência, Poder Real, e Absoluto”, por D. José I, determinando:
“Todo aquelle que venerar a imagem de algum defunto não beatificado ou canonizado por autoridade da Igreja, posto que morresse em opinião de santidade será asperamente repreendido… e degradado para Castro Marim ou Cidade de Miranda por três anos…
Nas mesmas penas incorrerá aquelle que sem as precisas licenças pozer ou mandar pôr na sepultura do defunto alguma táboa, panno ou rotulo de milagres seus, ou imagens de qualquer cousa pintada ou pendurada, e lhe pozer alampada ou outro lume, ou lhe der outro algum culto ou veneração”.
O Abade, José Franco Bravo, levava muito a sério o que na altura se dizia: “Onde Sebastião de Carvalho e Mello pousar a mão para dar uma ordem ficam nódoas de sague.” E havia razões para isso: Nossa Senhora recomendara às três pastorinhas que “fizessem penitência dos pecados que na Corte eram cometidos, com jejum a pão-e-água nas primeiras sextas-feiras e sábados e que recomendassem isso mesmo a todas as pessoas que encontrassem”.
Este apelo trazia-lhe à memória o Padre Malagrida e o seu livro “As Verdadeiras Causas do Terramoto”, onde defendia a ideia de castigo divino como causa da tragédia que se abateu sobre Lisboa em 1755. Foi, por isso, enforcado, e deitado ao Tejo depois de ser queimado em auto-de-fé. Sebastião José de Carvalho e Mello não podia ouvir que o divino interviesse na sua vida, o que era o mesmo que dizer, na vida da corte.
Para que ninguém caísse na imprevidência de ignorar a vontade do Marquês, o Abade da Folhada, José, Franco Bravo, anunciava a advertência nas missas e colocou o edital no portão do cemitério e na porta da sacristia. Ninguém lhe arrancava palavras sobre as aparições. Quando sobre isso era interpelado, dizia que o que tinha para dizer sobre o assunto, já o tinha manifestado nas Inquirições que o Marquês do Pombal lhe fizera. Desconfiava que o edital, que recebera, resultasse de uma delação do Abade de Jazente.
Os tempos passaram-se, aconteceu ao Marquês o mesmo que aconteceu a Caligula e, de uma forma ou de outra, há-de acontecer a todos da mesma espécie, e a celebração da aparição de Nossa Senhora, no dia 13 de Maio de 1758 foi retomada com todo o entusiasmo que a fé dos seus devotos lhe dedica.
Ontem estive lá. Jantei nesses restaurantes de festas, fui muito bem servido por uma jovem muito bonita, e, além das febras em vinha de alho, bebi o vinho que só a Quinta do Burgo, do enólogo Miranda, ali bem perto, consegue produzir.

sexta-feira, agosto 19, 2016

 

Bem haja, videirinhas!


Estou hoje muito feliz!... Cheguei à Folhada e mal entrei na minha terrinha, logo me deparei com as uvas de mesa que as minhas  videirinhas (quer dizer videiras pequeninas!)  me ofereciam. Agradeci-lhes e expliquei-lhes o meu contentamento: as minhas netas na próxima semana vêm á Terra, que também já é delas. As minhas filhas habituaram-nas a ir ao  Pingo-Doce comprar uvas e, francamente, chateava-me que elas pensassem que as uvas nasciam do Soares dos Santos.  Sei que é um homem habituado a fazer milagres, mas, porra!!!... Gerar as uvas que a minha terra produz era de mais! Agora, vão perceber que não é no Pingo-Doce que nascem as uvas, mas na Terra do avô que também é delas… e dos amigos do avô e dos amigos delas!



 

Bem haja, videirinhas!


Estou hoje muito feliz!... Cheguei à Folhada e mal entrei na minha terrinha, logo me deparei com as uvas de mesa que as minhas  videirinhas (quer dizer videiras pequeninas!)  me ofereciam. Agradeci-lhes e expliquei-lhes o meu contentamento: as minhas netas na próxima semana vêm á Terra, que também já é delas. As minhas filhas habituaram-nas a ir ao  Pingo-Doce comprar uvas e, francamente, chateava-me que elas pensassem que as uvas nasciam do Soares dos Santos.  Sei que é um homem habituado a fazer milagres, mas, porra!!!... Gerar as uvas que a minha terra produz era de mais! Agora, vão perceber que não é no Pingo-Doce que nascem as uvas, mas na Terra do avô que também é delas… e dos amigos do avô e dos amigos delas!



 

Estamos entregues aos bichos

Estamos a atravessar um lento e corrosivo descrédito do sistema partidário e não se vê quem, de forma livre e responsável, critique esta situação para obrigar a dar à democracia a credibilidade que ela precisa. As autarquias que conheço melhor são as do Marco, Amarante, Porto e Baião.
Para se perceber como funcionam os partidos nestas autarquias, soube há pouco que, num destes concelhos, o presidente chama uma funcionária, diretora de um serviço, e diz-lhe: meta atestado médico, peça a demissão, porque eu tenho de colocar no seu lugar uma pessoa. Noutro concelho há um lugar que vai a concurso, mas já lá está um estagiário que preenche as condições do concurso (feito com esse sentido) e há uma comissão aparelhada para o escolher. Já não falo de entrega direta a elaboração de projetos a gabinetes que foram de vereadores ou a troca entre concelhos desses trabalhos. Os poderes autárquicos suprimem o direito, não estabelecem critérios universais, democráticos, e, na maioria dos casos, o poder exerce-se como no tempo do feudalismo: a oligarquia local partidária substituiu os títulos nobiliárquicos.
Estão-se a preparar listas de candidaturas às autárquicas por cunhas. Procura-se o apoio de figuras chamados notáveis do PS ou do PSD e nos endinheirados da terra para fazer parte das listas e ter um lugar elegível nas mesmas. Faz-se isso, como quem procura um emprego, o emprego do blá...blá... E quase toda essa gente não tem credibilidade nenhuma e nunca esteve ligada a nenhum estrutura ou rede de intervenção social, razão de ser da política. Nalguns casos, são empresários no risco da falência. Mas todos acreditam que os cidadãos-eleitores são marionetas e o que é preciso é puxar os cordelinhos. Mas os eleitores já começam a dar sinais de não suportarem esse papel.
Estou convencido que a esquerda, PC, BE e Verdes, que ganharam muito prestígio neste governo, se fossem mais abertos, se se libertassem de radicalismos extemporários e procurassem entre eles denominadores comuns, tinham, agora, uma boa oportunidade para apresentarem listas únicas de prestígio às autárquicas e varrerem com toda a mediocridade, caciquismo e prepotência que tomaram conta dos destinos do poder local.
Mas serão capaz de fazer isso, para bem da democracia e do prestígio da ação política?!...


quarta-feira, agosto 17, 2016

 
Fui convidado para escrever um texto nesta revista de grande prestígio. Foi para mim uma honra. Só uma pequeníssima correcção de um equívoco: dei aulas no ensino superior, mas foi como convidado e pago à tarefa. Não fui e muito menos sou professor universitário, porque não fiz carreira dentro da universidade. Sou apenas um professor reformado há 11 anos. Sinto-me muito lisonjeado com a publicação deste texto na 14ª edição da “Justiça com A”. Obrigado Lininha! E, já que não se importa, deixo a referência da sua Revista, com os meus parabéns pela qualidade gráfica e dos seus conteúdos, ressalvando naturalmente o que escrevi, muito favorecido pelo contexto gráfico.
http://www.justicacoma.com/

segunda-feira, agosto 15, 2016

 

Não pude ir á festa, pá!

Hoje estaria na festa da Senhora da Lapa, em S. João da Folhada. Gosto de lá ir e ficar sentado junto à Capelinha para sentir a espiritualidade que ali se respira. Bem perto da capela só há uma cabana, onde passa férias um amigo de velhos tempos. É um intelectual que dedicou toda a sua vida a questões do ambiente e é, por certo, uma das pessoas que mais sabe e mais publicações tem sobre ecologia.
Não pude aparecer à Festa. Os fumos dos incêndios, as suas pequeníssimas partículas, entraram-me nos pulmões, quando junto a minha casa, de repente, os montes ficaram a arder. Fiquei com uma irritação de tipo asmático, arrepios de frio e alguma febre. Já estou melhor, mas não me encontro em condições para subir à Serra da Aboboreira.
Espero que a Senhora da Lapa e as três pastorinhas, as duas Marias e a Teresa, compreendam a minha ausência.
Em troca, prometo-lhes acabar com um romance que estou a escrever sobre os episódios que se ligaram no tempo do Marquês de Pombal a estas aparições. E há tantas histórias bonitas, de profunda solidariedade, como, por exemplo, a de dar guarida ao foragido acusado de tentar matar D. José, um tal José Policarpo de Azevedo, ali bem perto, no senhorio da Teixeira. Foi o Padre António Castelo Branco, da Quinta do Burgo, que, já nesse tempo, tinha bons vinhos, que o terá ajudado a encontrar esse refúgio. Fê-lo, por obrigação cristã, embora soubesse bem do enorme risco que corria, pois o Marquês dava 10 mil cruzados (uma fortuna) a quem indicasse onde estava o foragido ou quem o tinha ajudado a escapar à morte pela fogueira. É que Sebastião José precisava de obrigar o José Policarpo a dizer que cometeu o crime de tentar matar o rei (que não cometeu) para justificar a armadilha que preparou para, barbaramente, liquidar a família dos Távoras.
E já ouvi de Nossa Senhora um outro pedido: escrever sobre a Associação dos Amigos do Marco no pós Ferreira Torres. Esta já será uma história de desilusão e muita ingratidão e desprezo pelo exercício da cidadania, razão de ser da própria democracia, de que vale também a pena deixar um testemunho. E sei que o bom amigo, Dr. Horácio Salgado, um dos fundadores desta Associação, lá no mundo das Videntes e de Nossa Senhora, ficará satisfeito, porque sente, como eu, que não há democracia sem cidadania.
As prepotências, as injustiças e as ingratidões não acabaram com a morte do Marquês de Pombal nem com a perda de mandato de Ferreira Torres, disse-me a Senhora da Lapa, quando junto à sua Capela meditava sobre tudo isso. E, de facto, assim é, mas só denunciando se pode corrigir os terríveis pecados do delírio do poder.
Nunca mais se aprende que o poder é um instrumento ao serviço dos cidadãos e não um báculo de glória e vaidade dos que se julgam acima da condição humana.

domingo, agosto 14, 2016

 

Nossa Senhora da Lapa



Amanhã é a festa da Senhora da Lapa, hoje conhecida por Senhora da Aparecida. Foi ali, junto a uma lapa (grande rochedo) das faldas da serra da Aboboreira que Nossa Senhora apareceu a três pastorinhas de S. João da Folhada no dia 13 de maio de 1757. Esquecida durante muitos anos, a festa é, agora, celebrada a 15 de agosto para satisfazer a devoção dos emigrantes.A aparição não é uma mera lenda. Nas Inquirições do Marquês de Pombal o, então, Abade de S. João da Folhada, José Franco Bravo, escreve:
Nos limites desta Freguesia, quase nos seus confins, do lado poente e sul a confinar com a Freguesia de Várzea de Ovelha, nas fraldas dos grossos e ásperos matos da serra da Aboboreira, na parte do Sul, num cabeço do dito monte, no dia 13 de Maio de 1757, quase uma hora antes do pôr do Sol, andando três criaturas de idade menor, de menos de 12 anos, apascentando umas ovelhas no tal sítio chamado o Outeiro do Preiro, sem que nada vissem, ouviram uma voz que as chamava, cada qual pelo seu nome. Duas chamavam-se Maria e uma Tereza. Ao virarem o rosto, viram sobre umas ásperas pedras uma mulher encostada às altas fragas, de mediana estatura, mas de tão brilhante e resplandecente rosto que ficaram admiradas e logo lhes pareceu não ser mulher desta terra. Aproximando-se dela, ainda que um tanto surpreendidas de verem tal mulher e em tal sítio, foram por ela acolhidas com afagos, convidando-as a aproximarem-se. Entretanto, advertiu-as que deveriam saudá-la. Pegou na mão de uma, a que tinha ar de mais inocente, e á outra, retirou-lhe um rosário que trazia ao pescoço e lançou-o ao céu, enquanto com elas falava. À terceira, que era mais adulta, repreendeu-a do vício de falar do demónio. A todas disse que, chegando aos locais onde residiam a todos pedissem que jejuassem a pão e água nas primeiras Sextas-Feiras e Sábados. E que o mesmo pedido fosse feito a toda a gente que encontrassem ou com elas falasse. Uma das crianças, a mais faladora, perguntou-lhe quem era. Respondeu-lhe que depois de cumprirem o que lhes pedira e de fazerem uma romaria durante nove dias contínuos ao redor daqueles penedos em louvor de Nossa Senhora lhes diria quem era. E as três meninas cumpriram o que lhes foi pedido. E mal deram a notícia, apareceu logo muitas pessoas, umas de perto, outras de longe, e todas consideraram que o acontecimento era um milagre.
E o Abade da Folhada, continuou: “ O que eu vi e observei, dei conhecimento ao mui Reverendíssimo Doutor Provisor deste bispado e pedi-lhe que mandasse averiguar o caso judicialmente. O referido senhor ordenou que fosse eu a observá-lo com prudência e que nada fosse desprezado. E empenhando-me a averiguar o melhor que pude e a colher o que os outros diziam, não encontrei, até ao presente, ninguém que contrariasse o que foi dito. Pelo contrário, encontrei pessoas muito fidedignas que me disseram ser um milagre, quando de noite, algum tempo atrás, se viu uma luz, no tal sítio, na véspera da Ascensão de Nossa Senhora de Agosto. Essa luz, que apareceu quase à meia-noite, era tão resplandecente que asseguram se podia ler uma carta à sua claridade à distância de quase meia légua. Nunca se tinha observado tanta luz. Além deste e outros testemunhos que recolhi, verifico que desde o ano passado ocorrem alguns milagres e o maior é a multidão de gente que continuamente ocorre para aquele sítio. Por consideração com o culto e devoção dessa gente, mandei colocar naquele sítio uma estampa de Nossa Senhora da Lapa e uma cruz de pau.”

O caso terá posto em sobressalto toda a gente da Folhada e das paróquias vizinhas. Só isso justifica a multidão de pessoas que para ali acorriam. E essa Aparição, a três inocentes pastorinhas, não poderia ter, para essa multidão de devotos, maior significado: eles sentiam que, no mundo em que viviam, depois do terramoto de lisboa, do cheiro a corpos queimados em autos-de-fé, das bárbaras execuções dos  Távoras e dos taberneiros do Portos, da decapitação do velho, honrado e bondoso jesuíta, padre Malagrida, da perseguição aos jesuítas, só Nossa Senhora os poderia salvar do abandono, aliviar do pavor e proteger da fúria das políticas do Marquês do Pombal.
É que o impulso das crenças harmoniza-se sempre com o mundo da vida, e Nossa Senhora da Lapa era, nessa altura, a única mão que encontravam para fugir do infortúnio!
Mas esta peregrinação de multidões só durou até à publicação do edital do Regimento do Santo Ofício da Inquisição, aprovado, em alvará, no dia 14 de agosto de 1774, assinado por Adriano José de Carvalho e Mello e de “próprio motu, certa Sciência, Poder Real, e Absoluto”, por D. José I, determinando:

 Todo aquelle que venerar a imagem de algum defunto não beatificado ou canonizado por autoridade da Igreja, posto que morresse em opinião de santidade será asperamente repreendido… e degradado para Castro Marim ou Cidade de Miranda por três anos…

Nas mesmas penas incorrerá aquelle que sem as precisas licenças pozer ou mandar pôr na sepultura do defunto alguma táboa, panno ou rotulo de milagres seus, ou imagens de qualquer cousa pintada ou pendurada, e lhe pozer alampada ou outro lume, ou lhe der outro algum culto ou veneração”.
Logo que esse edital foi colocado na Porta da Igreja e lido pelo Abade deixaram de se ver as multidões de devotos. A partir dessa altura, mal os primeiros raios de Sol secavam as últimas gotas de orvalho que humedeciam as flores colocadas nas campas das videntes, a coberto da escuridão da  noite pelos seus devotos, o coveiro tinha ordens para as retirar e levá-los para  o mais longínquo possível. O Abade da Folhada, José Franco Bravo, receava que o meirinho, os  muitos milhares de informadores do Secretário do Reino ou algum visitador da freguesia ou mesmo o Abade de Jazente, Paulino Cabral, amigo do Marquês e com um irmão juiz no Santo Ofício, desconfiasse que a ordem de Sebastião José não estava a ser cumprida.

O Abade levava muito a sério o que na altura se dizia: “Onde Sebastião de Carvalho e Mello pousar a mão para dar uma ordem ficam nódoas de sague.”
Foi, assim, que se perdeu no tempo esta devoção, só recuperada recentemente.

In: “As minhas Raízes”

 
 

quarta-feira, agosto 10, 2016

 

Avaliar consequências ...


Depois do terrível flagelo dos incêndios, depois da catástrofe da Madeira, o que irá acontecer? Os bombeiros serão dotados de melhores meios, os autarcas preocupar-se-ão  com a prevenção, os políticos promoverão a educação da cidadania na defesa do meio-ambiente, o eucaliptal passará a ter regras para a sua implantação não destruir os lençóis freáticos,  as casas das montanhas dos guardas das florestas e as escolas abandonadas serão entregues a quem  queira fixar-se no interior com a obrigação de defender o meio-ambiente? Os centros de saúde, as escolas, as finanças, os tribunais serão reabertos no interior para que as pessoas possam lá viver? Que planos de administração do território, sobretudo de zonas florestais,  serão criados? Serão estimuladas as freguesias, as associações e clubes locais a defender o meio-ambiente e distribuídos  meios para detecção e primeiros combates a incêndios ou deixa-se tudo para as agências que contratam aviões e helicópteros?

No meu entender, depois deste flagelo vai haver muitos elogios aos bombeiros,  medalhas dependuradas a granel em muitos incompetentes e, a seguir, quando tudo estiver mais calmo, a catástrofe é esquecida olimpicamente para regressar no próximo ano com a terrível e implacável destruição do que ainda resta da nossa riqueza fundamental: a vida das plantas e dos animais, o que resta de floresta.

O que mais me preocupa, me cria este pessimismo,  é o que é anterior às catástrofes ambientais: a falta de sentido de Estado dos políticos!

sexta-feira, agosto 05, 2016

 

O Governo tem atrás de si uma matilha que ao mínimo percalço lhe salta em cima. Quando governou a matilha fez o intolerável, mas está convencida que o povo não tem memória. E, se calhar, tem razão! Não creio que encerrem o assunto das viagens até aparecer outro que lhes convenha mais à necessidade de ruído contra o Governo. Naturalmente, ao País pouco interessam as investidas da matilha, mas, de qualquer forma, é bom, porque obriga a mais rigor na governação, ao PS a não dar tiros nos pés, nem a dar explicações que não explicam nada.

terça-feira, julho 26, 2016

 

Dia dos avós.


A vocação dos avós é afeiçoar os netos à imagem da sua ternura, do amor que lhes quer; é aprender com eles a soltar papagaios. Não sei se há um dia dos avós, mas há um crepúsculo da vida onde brilham raios de Sol. Diz a minha neta Inês que desenhou um árvore e que ela representa os avós e num galho está um passarinho que a representa. As minhas netas já sabem que as metáforas são o alimento da poesia e que sem poesia não soltamos papagaios  no tropel da vida.

 

Roubaram-nos a dignidade!


Roubam-nos a dignidade. Não sei que critério pode usar um autarca, uma assembleia municipal, para entregar uma medalha a quem é suspeito de crime. Que ideia terá esta gente da dignidade das suas funções? Que valor atribuem à distinção de uma medalha? Como cidadão, sinto isto obsceno! Dizem-me que numa autarquia, que conheço bem, para além de medalharem um suspeito de pedofilia, o presidente ao ser criticado por um medalhado respondeu-lhe mais ou menos nestes termos: “ O senhor é mal agradecido à medalha que lhe entreguei”.
São estes os autarcas que os partidos escolhem. Não haverá quem pense nas consequências deste abandalhamento para a ideia de dignidade, de cidadania, de respeito pelos valores, de coesão social?
Será que o poder local está entregue ao espírito das máfias?

sexta-feira, julho 22, 2016

 

Estamos em guerra. mas numa guerra de guerrilha.


Estou farto das análises dos politicólogos de serviço, estou farto da aceitação tácita do fatalismo terrorista, estou farto da ideia de que o terrorismo veio para ficar e que a humanidade está dividida em bons e maus. Também não vale a pena meter a cabeça na areia e ficarmos aterrorizados: estamos em guerra, uma guerra de guerrilha que deve ser tratada como tal. Não basta treinar polícias, equipar os Estados com a tecnologia mais sofisticada de controlo social, olhar para o que é diferente de nós como um terrorista, deixar que o medo seque a nossa respiração, etc. É preciso olhar para esta guerra, como ela é; precisamos de contar com a colaboração dos que têm uma religião, uma cultura, tradições, usos e costumes diferentes dos nossos para não sermos surpreendidos.  Só tendo do nosso lado a solidariedade dos que são diferentes de nós podemos vencer esta guerrilha.

O princípio da igualdade e da individualidade com que, após a Segunda Guerra Mundial, se procurou combater a xenofobia, o racismo e a exclusão social tem de ser recuperado. O multiculturalismo, com o reconhecimento de especificidades culturais, tem de acompanhar o interculturalismo, que abre as culturas diferentes ao diálogo e promove a abertura aos valores da dignidade humana.

Precisamos de confiar nas Instituições, porque a colocamos ao serviço do interesse público; precisamos de uma pedagogia do respeito pela dignidade humana, acima das diferenças de cultura, de raça ou de religião; precisamos de fazer compreender que a pobreza, a exclusão não é uma fatalidade. Mas isto não se faz, se os problemas socioeconómicos não forem resolvidos, se as instituições funcionarem em função de interesses privados, se os pobres forem esquecidos e cada vez mais pobres e em maior número, e se os ricos forem cada vez mais ricos e em menor número. Precisamos de combater a ostensiva exposição de riqueza, o darwinismo social e defender a solidariedade a todos os níveis para que, na luta contra a guerrilha terrorista, recuperemos os marginalizados para o nosso lado.

E esta luta faz-se na escola, na  universidade, nos locais de trabalho, na rua, nos transportes, no ministério dos assuntos sociais, com políticos competentes, com sentido de estado, valorizando o bem-comum, com a integração e promoção social. Sem políticos com espírito de serviço, sem políticas de integração social e sem o espírito de solidariedade, as armas dos polícias, o Estado Big Brother com suas tecnologias de controlo social, não serão capazes de nos defender.

terça-feira, julho 19, 2016

 

Uma releitura do que escrevi


Num livro “Horizontes da ética” que publiquei há mais de dez anos, a que o comentador Marcelo Rebelo de Sousa se referiu na altura (sem o ler, penso eu!) escrevi isto, que, ao reler, julgo actual e me apetece transcrever:

Perante o sofrimento, a “banalidade do mal”(como chamou Hannah Arendt ao holocausto judeu), nasce a consciência de que a vida humana não tem sentido sem o respeito pela dignidade humana e pelo direito a procurar a felicidade.
Já Aristóteles dizia há mais de dois mil anos: «todos os homens aspiram à felicidade». Mas, se perguntássemos «o que é a felicidade?», teríamos concepções completamente diferentes umas das outras. Para muitos, a felicidade está na posse de bens materiais, para outros, na saúde, na paz, etc. Não há um conceito único de felicidade, porque a felicidade e indefinível.
Segundo os romanos, são três os princípios de uma existência feliz: «honeste vivere; alterum non ladere e suum cuique tribuere». Ou seja, viver honestamente, não causar dano a ninguém e dar a cada um o que é seu. Poderíamos dizer que esses princípios são os princípios que tornam a moral necessária.
Kant considerou que o importante não é ter direito à felicidade nem ser capaz de a conquistar de algum modo, mas tentar resolver aquilo que em nós, no nosso eu, é um obstáculo à felicidade.
Isto é, o horizonte da felicidade está no saber querer. O excesso de generalização «os outros agiram dessa maneira, por que é que não posso agir de forma igual?» ou de particularismo (eu sou assim) não emergem de um saber pessoal que nos abre aos horizontes da felicidade.
A felicidade não está na ligeireza com que nos deixamos conduzir na vida, nem no «fechamento» do homem sobre si mesmo. O que o homem quer no mais fundo de si mesmo é não ser coisa, mas sujeito. Para isso, tem, no interior da sua própria consciência, de perguntar a si mesmo: “a minha acção confirma a minha «não-coiseidade»?”. Isto é, a minha acção abre-me à humanidade, tratando os outros como fins em si mesmos, tal como quero que me tratem, e não como um meio, um instrumento?!...Ora, a resposta a esta questão pressupõe a necessidade da ética.

Só a ética (ou a moral), como uma cultura de postura humana, nos abre a uma ideia universal de dignidade, bondade, justiça, solidariedade e cidadania.

Se a pergunta vier de fora, isto é, do que os outros pensam, perde-se aquilo que é específico na dimensão pessoal da ética e da moral e não nos torna dignos da felicidade.

sexta-feira, julho 15, 2016

 

Uma pequena reflexão!

Uma pequena reflexão:
Muitas explicações podem ser dadas para o que aconteceu em França. Tenho pensado muito na frase de Jacques Maritain, no seu livro” Noite de Agonia em França”. Não é um filósofo de esquerda, como toda a gente sabe! Interrogava-se sobre as razões que terão levado as democracias saídas da Grande Guerra não evitarem a segunda e dava uma explicação: a democracia perdeu as suas virtudes. É isso que está a acontecer hoje! As virtudes fundamentais da democracia são essencialmente duas: é o regime onde imperam as regras e o que tem como finalidade promover a coesão social pela justiça social, diminuindo o sofrimento dos que mais sofres. Perderam-se estas virtudes. Os governos, como o de França, procuram retirar aos que mais precisam direitos conquistados com muita luta e eram considerados conquistas civilizacionias. Um autarca toma o orçamento da sua autarquia como se fosse o seu e quer que lhe agradeçam tudo o que é seu dever fazer pelo concelho ou freguesia que o elegeu; os governos fazem o mesmo. Um caso, bem pacóvio e ridículo está a acontecer com as festas dos concelhos: nesta ocasião, distribuem-se medalhas não em obediência a critérios de relevância, mas de “promoção” da vaidade de amigos que ao autarca ficam agradecidos. Não se prestigia os que souberam servir o País! Sempre que há um concurso público arranja-se um regulamento medido pelos interesses privados e uma comissão que vergará o concurso de forma a colocar um apaniguado. A democracia está desacreditada e a lógica do “homem lobo do outro homem” impera. A coesão social, que permitia ver no vizinho um amigo e avisá-lo de tudo o que fosse suspeito, perdeu-se e cada um é “um órfão numa ilha deserta entregue aos seus próprios recursos”. Vivemos de costas uns para os outros, não acreditamos nos partidos, esvaziou-se o interesse público, desapareceu o bem-comum.
Nestas circunstância, os mais marginalizados ( e são sempre os diferentes “os que não pertencem “à mesma raça”) estão em condições de lhe passar pela cabeça a vontade de se vingar contra o rolo compressor que os oprime. Aparecem, enão, os lobos solitários do terrorismo. E não lhes é difícil conseguir os apoios monetários e logísticos para poderem espalhar o terror em nome de uma religião que julgam lhes dará a recompensa.
Em vez de derramar lágrimas de crocodilo, seria melhor dignificar a democracia; em vez de criar uma sociedade com um polícia atrás de cada um de nós, seria melhor meter na cadeia os corruptos que se vão assenhoreando do bem público, que funcionam na política como as máfias (consideram há os nossos e os outros), não respeitam as regras que defime a democracia e pensam que ganhando uma eleição podem transformar aquilo que é de todos num bem pessoal, administrado segundo os humores ou interesses pessoais.

quarta-feira, julho 13, 2016

 

Carmem Miranda


O novo riquismo, manifesta-se sempre da mesma maneira: na vida cívica despreza a família pobre e na política os que são de esquerda. Ele não quer que o associem a estes, porque são “porcos e sujos”, mesmo que a eles deva o estatuto que  obteve.

Carmem Miranda partiu para o Brasil com quase dois anos de idade. Porque se tornou cidadã brasileira (e por ser uma mulher bonita) conseguiu aos 30 anos (com a significativa canção “Para você gostar de mim!” de um grande compositor, Joubert de Carvalho)  ganhar  a fama que teve.

Só falta agora dizer, que veio ao Marco (ela dizia que era da Légua, Várzea de Ovelha e não do Marco) tirar o passaporte, dado “generosamente”, para poder abraçar a sua carreira em Los Angeles e se fixar nas telas do cinema de Hollywood

Deve tudo ao facto da sua família, pobre, ter, como muitas outras, emigrado para o Brasil, porque em Portugal os pobres ficavam sempre pobres, como acontece ainda hoje!

Esquecendo esse facto, cavalga-se a sua fama com  desfile de samba, que terá levado Carmem Miranda, lá no seu túmulo, a esconder a cara.
https://www.youtube.com/watch?v=V6v7HFVjObk 


segunda-feira, julho 11, 2016

 

Uma certa perversão!


Quando, há já bastantes anos, apresentamos o primeiro plano de actividades da Associação dos Amigos do Concelho do Marco de Canaveses, indicávamos, como uma das iniciativas, a criação da confraria do anho assado com arroz no forno. Explicávamos, na altura, que essa iniciativa teria os seguintes objectivos: difundir a gastronomia que fazia a identidade do Concelho, promover os restaurantes que mantinham a tradição de seguir a receita do anho com arroz no forno, desenvolver o turismo gastronómico e estimular a preservação de uma receita que vinha dos nossos avós e foi por eles recebida dos seus antepassados.

Para nós, a Confraria só tinha sentido se recuperasse o significado que lhe foi dado em tempos medievais: ser uma associação de gente generosa, solidária e só interessada em defender a causa dos que mais precisam: neste caso, a restauração tradicional. Naturalmente, aceitávamos “fardarmo-nos” com os velhos adereços dos confrades, ícones da tradição, mas o mais importante era manter a memória do gosto que o anho assado com arroz no forno deixava sempre que íamos a um dos restaurantes tradicionais: ao Ferrador, à Pensão Magalhães ou outros. Estávamos longe de imaginar que a confraria se tornasse numa feira de vaidades, num cerimonial longo, chato e cansativo, com discursos intermináveis que se sucedem a outros discursos tão intermináveis como os primeiros, com protocolo (o que contraria o espírito confrade)  e desligada dos próprios restaurantes que são a razão de ser da manutenção do património gastronómico.

Dizem-me que não é assim noutras terras, onde as confrarias são expressão de um exercício de cidadania e convívio desensarilhado da vida mundana, como aliás, é já o estilo do actual presidente da República. A perversão parece vir da sofreguidão dos homens do poder político que querem estar em bicos de pé e investir na visibilidade da sua gente para colher frutos na faina eleitoral.  Talvez, por isso, os partidos anti-sistema, os que são contra uma democracia que vai perdendo as suas virtudes (o que não quer dizer antidemocráticos) ganhem cada vez mais força.
Fico triste que assim aconteça e percebo por que é que a Associação (cultural e cívica) dos Amigos do Marco lhe faltam os melhor estímulos.

 

Um gesto lindo!


Parece que o Presidente da República convidou para a recepção à Selecção Nacional o menino que consolou o adepto francês que chorava. O convite do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, a ser verdade, revela uma magnanimidade que tem da minha arte a maior admiração. É um gesto muito rico de sensibilidade humana, que prestigia um presidente da República e honra  o sentido universal de um povo afectuoso e humano, como é a maioria dos portugueses. Parabéns, Marcelo amigo! O povo, de facto está contigo, mesmo os que não votaram em ti, como é o meu caso! https://www.youtube.com/watch?v=8BjrHuUfCFU 


sexta-feira, julho 08, 2016

 

Preciso de um poema!


Preciso de um poema. Sinto-me como a andorina deixada pelo bando que emigrou, numa altura em que até as andorinhas não tiveram a primavera.


Só Sophia me ajuda, me compreende, com este seu poema:


Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa
E de um tempo justo

Sophia de Mello Breyner Andresen, in "Geografia"


quarta-feira, julho 06, 2016

 

e lá vamos desta vez contra os burlões
contra as mekeles e outros da treta
esmerando-nos em magros calções
e ganha força a feliz cotonette

sai empate e mais empate
só falta a Merkel ir de vela
a bola traz-nos mais sustento
dobrar a cerviz só para velhos.



Ficamos pasmando espapaçados
crivados por bolas e taticismos
futeboleiros e outros comentadeiros
fazem da selecção o nosso catecismo.

segunda-feira, junho 27, 2016

 

Sábias palavras


Os responsáveis pelas instituições da U.E têm de reflectir sobre estas sábias palavras: "Temos de encontrar um novo tipo de União(…) Há alguma coisa que não está a funcionar nesta maciça, pesada União. Mas não vamos deitar fora o bebé com a água do banho", disse Francisco.

O 'Brexit' se não causar o sobressalto necessário para uma reforma da U.E. pode impulsionar a independência de países, como a Escócia, e regiões, como a Catalunha (Espanha), o que poderia levar à "balcanização" da Europa.

sábado, junho 25, 2016

 

Aconteceria noutro país.

Não percebo a gente que, não sendo banqueiro nem grande empresário, nem funcionário de Bruxelas, entrou em pânico com o brexit.
Então aceitam uma comunidade que usa de critérios diferentes para os seus membros, que trata uns como mais iguais do que outros, que desprezou o povo grego, o português, que castiga com multas por não cumprir as suas ordens, que, com as suas ideias neoliberais, provocou um darwinismo social e pretendeu fazer um retorno ao tempo do trabalho sem direitos., etc.? Se isto é uma comunidade, o que chamam à colonização? Esta comunidade desapareceu, quando tratou o povo grego como escravos.
Não vale a pena pensar que é o fim do mundo. Nem sequer é o princípio do fim. É só uma etapa, porque os mercados, a Alemanha, a França precisam de Inglaterra e vão encontrar meios para resolver este assunto. Quando ameaçam a Inglaterra fazem como aquele que de noite assobia alto para espantar o medo. Esta gente não tem princípio e trata a política como um negócio, ainda não perceberam?!... Se estão preocupados com os movimentos populistas, nazis, etc., então façam tudo para acabar com esta ideia de comunidade, porque é ela que gera esses movimentos. Têm dúvidas?!...


segunda-feira, junho 20, 2016

 

Uma marco no Marco


Ontem, integrada nas comemorações da Grande Guerra, foi feita uma grande homenagem ao Coronel-Médico Fernando de Miranda Monterroso, herói nas campanhas de África e na Grande Guerra, e grande benemérito do Concelho. Criou a expensas suas o asilo do Marco, um fundo financeiro para bolsas de estudo destinadas a alunos carenciados e deixou a maior parte da sua fortuna à Misericórdia do Porto. Para além de uma missa, celebrada pelo Prof. Dr. Arnaldo de Pinho, da colocação na sua sepultura de uma coroa de flores e na sua casa(onde foi servido um copo de água), em Tabuado, uma placa da sua memória, houve uma conferência, infelizmente, pouco participada, no Auditório Municipal. A comunicação do Prof. Dr. Jorge Alves, talvez o maior especialista da história moderna, merecia a casa cheia. Mas a História, onde se reconstrói as nossas raízes e os valores da nossa civilização tem sido substituída pela febre da novidade, pelo “império do efémero”, como disse Lipovetski. Hoje despreza-se a Historia, desvaloriza-se a memória e, com ela, a gratidão que dá aos valores de referência o mérito social necessário à nossa coesão e a um mundo mais justo e humano.

A homenagem foi promovida pelo núcleo do Marco de Canaveses da Liga dos Combatentes, pela Câmara Municipal e, como não poderia deixar de ser, pela Associação dos Amigos do Marco. Esta Associação viu nesta homenagem um exercício de cidadania. Pois, apelar à memória das referências exemplares, as que apontam os valores da generosidade, honra e heroísmo, ajudam a perceber que a vida não é um jogo de azar ou sorte e que a sociedade será melhor se seguir exemplos como aquele que foi dado pelo Dr. Fernando de Miranda Monterroso.

sexta-feira, junho 10, 2016

 

Amanhã vou estar em Baião, no auditório Municipal, pelas 17h na apresentação do meu livro “Raízes”. Se algum dos meus amigos de Baião me quiser dar a honra da sua presença, ficarei agradecido

quarta-feira, junho 08, 2016

 

Amanhã regresso ao melhor tempo da minha vida

Amanhã vou estar com amigos, amigos que me ajudaram a compreender e a viver o significado da amizade, da solidariedade, da liberdade, da justiça e da luta por um mundo melhor. Muito deles já cá não estão para viver o fraterno sorriso do reencontro, mas trago-os na minha alma: nunca os esqueci. Lembro-me de Daniel de Sousa Teixeira, das suas crises de asma e ainda sinto uma revolta profunda, quando recordo o dia em que a notícia triste chegou: Daniel morreu no Forte de Caxias: não resistiu a uma crise de asma. Eu era para Daniel o primo, mas sentia-o como um irmão. Também já não encontrarei o Pedro Lobo Antunes, mas parece-me que ainda ouço o poema das flores que brotavam da sua alma e ele gostava de o cantar a dedilhar os sons das cordas da sua viola:
“FLORES
Nascem flores onde quiseres
Nascem flores na tua mão
Crescem flores onde estiveres
Nascem flores também no chão
Há fome de flores no teu país
Há falta de flores na tua cidade
Precisa de flores o teu amigo
Precisa de flores a nossa paisagem
Atrás da orelha uma flor
Pendurada da boca uma flor
Todo o teu peso passa-o à flor
Mais flores menos dores mais flores
Nos teus olhos vê-se a flor
Vê-se a flor que trazes dentro
Nascem flores onde quiseres
Não deixes que as leve o vento
Pedro Lobo Antunes
Amanhã vai ser para mim o regresso a um tempo vivido há mais, mas muito mais, de meio século. Desde essa altura, nunca mais vi a maioria deles. Levo-lhes o melhor que tenho desde esses longínquos tempos: um abraço fraterno e uma vontade imensa de a cada um poder dizer: estás na mesma!

sexta-feira, junho 03, 2016

 

critica dos criticos.


Nunca percebi os críticos de António Costa! Dizem que o “ PS está esvaziado de militância política, refém do aparelho e apresenta fortes sinais de falta de democracia interna”. Isso é verdade, mas não aconteceu com António Costa. Muito antes, com outros secretários gerais do partido foi o aparelhismo que fez notáveis os que hoje são críticos de António Costa.  Se não é verdade, perguntem aos militantes, que não moram no mesmo prédio dos críticos, se alguma vez os viram? Por que não fazem política nas suas secções? São eles os responsáveis por um partido de “pseudo-notáveis”.
Estes críticos não se questionam sobre os fins da política. São contra António Costa por fazer um acordo com o BE e o PC, mas não querem saber se isso tem funcionado para que a  política ganhasse um rosto humano, de preocupação com os que mais sofrem. Ainda não perceberam que uma aliança com o PSD era o descrédito de qualquer ideia humanista e a negação de qualquer ideia socialista, representando a transmutação da bandeira do socialismo numa do neoliberalismo bárbaro!


Os críticos, se não querem o aparelhismo, como eu não quero, lutem pelas directas para autarcas, presidentes de secções, de comissões políticas, federativas, etc. Ponham a funcionar o mérito, as instituições de controlo jurídico, imponham regras e sejam os primeiros a recusar um lugar na mesa do orçamento, como fazem os boys!

O mal é o mesmo de sempre: a crítica nos partidos não é um instrumento de “purificação”, de criação de boas práticas e  bons princípios,  mas de catapultação a um tacho.

 

Não sei que nome dar a esta gente!


Uma pessoa fica perplexa, mas não deveria ficar tão espantado, de tantas provas de cinismo que a direita nos dá.

Ontem na “Quadratura do circulo” Lobo Xavier revelou mais uma vez a sua tempera patriótica. Não lhe impressiona a penalização da Comunidade Europeia – “isso até é o menos, ficar sem os milhões de subsídios”. O que o preocupa sãos os indicadores péssimos do crescimento económico.

Estes indicadores a Lobo Xavier dizem que este governo andou mal, quando “reverteu” as medidas de austeridade do outro (o que era das suas paixões), ao entregar aos trabalhadores o que indevidamente lhes foi roubado, ao diminuir as horas de trabalho, em suma em repor direitos, pois nesta matéria Lobo Xavier só reconhece o das escolas privadas. Tudo aquilo que foi abusivo para quem vive do seu trabalho e fez disparar os ricos que se tornaram mais ricos e pobres que se tornaram mais pobres, é coisa  de somenos importância.

Nesse tempo tudo corria bem para Lobo Xavier. Agora como os indicadores estão mal por causa das tais medidas de “reverter” salários, pensões, horas de trabalho, etc., o  melhor é acrescentar á situação de falta de crescimento económico o castigo do sr.Wolfgang Schäuble: nem mais um tostão para portugal! E assim, somar ao que está mal mais mal, como deitar gasolina no fogo, era o ideal.

O sr Lobo Xavier, é uma espécie de Schauble sem cadeira de rodas: está-se nas tintas para os portugueses que ficariam sem emprego, para as famílias que ficariam sem pão para dar aos filhos, que mais jovens emigrassem, que houvesse mais suicídios, mais miséria, mais desemprego. O que é bom para o Schauble de cá é que este governo caia e seja substituído pela senhora Cristas, o sr Passos Coelho e talvez o sr. Assis mais os outros nove do almoço da conspiração.

O sr Lobo Xavier afirma-se católico, apostólico romana e beija a mão a D. Clemente. É assim o coração cristão desta criatura! Não sei que nome dar a esta gente, mas o f.d.p. já não serve para a classificar.

segunda-feira, maio 16, 2016

 
Gosto muito da minha flor. Não sei o seu nome, mas isso pouco interessa. Veio à vida sem ser chamada.Serviu-lhe de berço uma friesta que separava a mica do feldspato. Talvez tenha sido por vergonha ou por se sentir protegida pelo granumgrão que limita o sitio das minhas flores. Sofreu as dores do crescimento no bruto granito e em silêncio, só com a ternura dos fios de água que desciam do telhado, cresceu e fez-se flor. No seu pudor nem as ervas daninhas tocaram e resigna-se às investidas das abelhinhas que lhe roubam o perfume. Gosto de a acariciar com um olhar de proximidade , como acontece quando se ama. E descubro no seu acanhamento mais poemas dos que encontro, ao anoitecer, nas estrelas que brilham no azul que as sustentam.
Bendita seja a minha flor!

domingo, maio 08, 2016

 

Não se apagam as nódoas de sangue!

Foi na tarde de 16 de Março de 2003. Quatro dias depois, na madrugada de 20 do mesmo mês, deu-se o início da trágica intervenção militar no Iraque. Durão Barroso pretende, agora,limpar-se do seu emporcalhamento, arrastando para a cumplicidade Jorge Sampaio.
Barroso saiu-se mal. Sampaio desmentiu-o e fez muito bem.
As nódoas de sangue que Barroso trouxe daquele aperto de mão a George Bush, Tony Blair e Aznar durante a Cimeira da Guerra nunca mais desaparecerão.
O sangue da tragédia continua a correr, com muitos inocentes atirados para a valeta da morte, e essa gente porca, que se vendeu por uns litros de petróleo, já está a ser julgada pela História. Infelizmente, deveriam ser julgados em Nuremberg, como foram outros da mesma laia!

terça-feira, abril 26, 2016

 

Camões e o 25 de Abril


Lembro-me tanto de ti, amigo Luís de Camões!... Não sei onde te poderia encontrar, mas gostava desabafar contigo o seguinte: admiro o teu patriotismo, gosto de espevitar a minha velhinha alma com as delicias vividas entre ninfas no canto nono, o tal que Cavaco desconhecia! Tu lutaste por Portugal até perderes um olho, andaste perdido no mar infinito, sentiste as tormenta da natureza e da vida entre os homens  e mesmo assim foste tu quem melhor soube interpretar a epopeia dos descobrimentos, melhor soube exprimir o dom de amar mulheres bonitas; tu que muito aprendestes com os gregos e os latinos, deixaste uma obra de valor incomensurável, mas aconteceu-te o  mesmo que hoje acontece ao 25 de Abril: a falar de ti muitos e muitos vão enchendo os bolsos, enquanto tu morreste na miséria; a falar de Abril muitos e muitos papers de governantes, políticos de renome, advogados e outros mixordeiros foram para o Panamã, muito aldrabão ficou rico e  Portugal de Abril pagou com uma austeridade imerecida a miséria, o suicídio, a emigrações, a falta de proteção na doença, no emprego e na escola para os seus filhos o que foi desviado, ou melhor, roubado nos bancos. Tudo aconteceu como se declarasse guerra aos mais pobres, aos que apenas têm o trabalho para sobreviver.
Luís de Camões sinto o mesmo que tu sentes lá no Olimpo entre as ninfas. Por cá, onde não há ninfas, proliferam os filhos da puta que enchem o bolso a falar de ti ou de Abril, mas atiraram-nos para o sofrimento e a miséria.
Será que o povo, que arde na mesma volúpia dos filhos da puta, vai perceber que é preciso retomar o caminho de Abril?

sábado, abril 09, 2016

 

Um bom amigo!

Fui visitar ontem a Canelas o Coronel Tomás Ferreira com dois seus camaradas do 25 de Abril, O coronel Martins Rodrigues e o Coronel Boaventura. Não sou capaz de descrever o que senti (sentimos, por certo!) naquele rosto triste cabisbaixo numa cadeira de rodas que ao erguer a cabeça para ver quem ali estava soltou um sorriso que era uma madrugada de Abril, a evocação da história de uma amizade amassada na luta e na generosidade. Custa ver assim um amigo, um capitão de Abril, um homem que ficará na memória da nossa história pelas esperanças que abriu ao povo a que pertencemos.
O Coronel Tomás Ferreira é a imagem do que se tornou Abril! Que tristeza, que ingratidão do destino!...
Pôs-se uma noite pesada no interior de cada um de nós.


sexta-feira, abril 01, 2016

 

Não há convicções sem referências!



É hoje lugar-comum falar-se em crise de valores e de convicções. Mas como se pode resolver esta crise, se, por exemplo, na Assembleia da República, vale mais o poder do dinheiro nas relações entre estados do que o valor da dignidade humana?
O que dizem os deputados que votaram contra a moção de repúdio pela condenação dos activistas angolanos é que o dinheiro e as relações de influência entre estados, valem mais que um ser humano. Como poderemos acreditar que esta gente está na Assembleia para nos representar? Farão connosco o que fazem aos angolanos, porque as suas referências não são os direitos humanos. Se não há boas referências em democracia para que serve este sistema? Uma democracia que só tem como referência o deficit é uma democracia frívola, um embuste!

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