terça-feira, maio 16, 2017

 

Forum por um futuro solidário


 

Treze de Maio, uma aparição abandonada em S. João da Folhada



Em tempos chamavam-lhe Senhora da Lapa, mas, agora, chamam-lhe Senhora da Aparecida. A lapa era um grande penedo no vocabulário da gente da Folhada. Mas também pode significar um enorme pesadelo que faz do dia-a-dia um tormento, ameaçando pelo medo o sentido da existência.

As aparições têm sempre a ver com respostas a dramas existenciais. São visões que incorporam a realização de um desejo gerado pelo imaginário colectivo. Precisamos de uma divindade, quando os demónios andam à solta.

Foi isso que aconteceu em S. João da Folhada no dia 13 de Maio de 1757. Nas fraldas da Serra da Aboboreira, nos limites da freguesia de S. João da Folhada com Várzea de Ovelha, apareceu Nossa Senhora a três pastorinhas.
A  memória colectiva nunca esqueceu esta aparição, como testemunha a muito antiga capela  construída sobre o bojo do penedo, onde Nossa Senhora apareceu. Foi só preciso que um manuscrito esquecido na Torre do Tombo viesse dar vida a um abandonado santuário. 

Nesse manuscrito, conforme é divulgado na obra “As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758”, afirma o, então, Abade de S. João da Folhada, José Franco Bravo:

 Nos limites desta Freguesia, quase nos seus confins, do lado poente e sul a confinar com a Freguesia de Várzea de Ovelha, nas fraldas dos grossos e ásperos matos da serra da Aboboreira, na parte do Sul, num cabeço do dito monte, no dia 13 de Maio de 1757, quase uma hora antes do pôr do Sol, andando três criaturas de idade menor, de menos de 12 anos, apascentando umas ovelhas no tal sítio chamado o Outeiro do Preiro, sem que nada vissem, ouviram uma voz que as chamava, cada qual pelo seu nome. Duas chamavam-se Maria e uma Tereza. Ao virarem o rosto, viram sobre umas ásperas pedras uma mulher encostada às altas fragas, de mediana estatura, mas de tão brilhante e resplandecente rosto que ficaram admiradas e logo lhes pareceu não ser mulher desta terra. Aproximando-se dela, ainda que um tanto surpreendidas de verem tal mulher e em tal sítio, foram por ela acolhidas com afagos, convidando-as a aproximarem-se. Entretanto, advertiu-as que deveriam saudá-la. Pegou na mão de uma, a que tinha ar de mais inocente, e á outra, retirou-lhe um rosário que trazia ao pescoço e lançou-o ao céu, enquanto com elas falava. À terceira, que era mais adulta, repreendeu-a do vício de falar do demónio. A todas disse que, chegando aos locais onde residiam a todos pedissem que jejuassem a pão e água nas primeiras Sextas-Feiras e Sábados. E que o mesmo pedido fosse feito a toda a gente que encontrassem ou com elas falasse. Uma das crianças, a mais faladora, perguntou-lhe quem era. Respondeu-lhe que depois de cumprirem o que lhes pedira e de fazerem uma romaria durante nove dias contínuos ao redor daqueles penedos em louvor de Nossa Senhora lhes diria quem era. E as três meninas cumpriram o que lhes foi pedido. E mal deram a notícia, apareceu logo muitas pessoas, umas de perto, outras de longe, e todas consideraram que o acontecimento era um milagre.”

E o Abade da Folhada, continuou: O que eu vi e observei, dei conhecimento ao mui Reverendíssimo Doutor Provisor deste bispado e pedi-lhe que mandasse averiguar o caso judicialmente. O referido senhor ordenou que fosse eu a observá-lo com prudência e que nada fosse desprezado. E empenhando-me a averiguar o melhor que pude e a colher o que os outros diziam, não encontrei, até ao presente, ninguém que contrariasse o que foi dito. Pelo contrário, encontrei pessoas muito fidedignas que me disseram ser um milagre, quando de noite, algum tempo atrás, se viu uma luz, no tal sítio, na véspera da Ascensão de Nossa Senhora de Agosto. Essa luz, que apareceu quase à meia-noite, era tão resplandecente que asseguram se podia ler uma carta à sua claridade à distância de quase meia légua. Nunca se tinha observado tanta luz. Além deste e outros testemunhos que recolhi, verifico que desde o ano passado ocorrem alguns milagres e o maior é a multidão de gente que continuamente ocorre para aquele sítio. Por consideração com o culto e devoção dessa gente, mandei colocar naquele sítio uma estampa de Nossa Senhora da Lapa e uma cruz de pau.”
O caso terá posto em sobressalto toda a gente da Folhada e das paróquias vizinhas. A partir de 13 de Maio de 1757, sob a inclemência do tempo, multidões acorriam à lapa do Outeiro do Preiro, vindos de diferentes partes da região, orando e fazendo penitência.  Acreditavam que aquelas três meninas da Folhada, filhas de gente muito pobre,  souberam acolher a mensagem que só do Céu, de Nossa Senhora, podia aliviar o pesadelo que afligia as suas vidas e abrir horizontes de um mundo melhor.

Para essa multidão de devotos, as circunstâncias dessa Aparição não poderiam ter maior significado: eram pobres e sentiam que, no mundo em que viviam, só Nossa Senhora os poderia salvar do abandono a que estavam votados, aliviar do pavor a sua vida e protegê-la da fúria das políticas do Marquês do Pombal.
No íntimo de cada peregrino, talvez existisse a convicção de que Nossa Senhora havia escolhido aquela enorme lapa para aparecer às três pastorinhas por ser a metáfora perfeita da dimensão do pesadelo que lhes esmagava o coração.

Por isso, cada peregrino regressava mais feliz a sua casa e nas terras por onde passava, ao descrever a felicidade que trazia, atraía mais peregrinações ao Outeiro do Preiro. Todos confiavam que Nossa Senhora lhes abrisse um rumo de vida diferente e essa crença alimentava as vantagens do sacrifício que faziam.
É nesta circunstância que o sagrado (Nossa Senhora) irrompe no profano para desobstruir o absurdo do mundo sem sentido e criar esperança num mundo melhor.

Mas esta hierofania não pode acontecer em mentes complicadas, que não são capazes de ”re-ligar”, unir pelo interior de si mesmo, o humano ao divino, o sagrado ao profano. Precisa de almas descontaminadas pelos preconceitos mundanos, almas puras que não complicam o que há de mais belo na vida do espírito: a contemplação do próprio espírito configurado numa divindade, seja  Nossa Senhora ou outra.

Há muitos pontos de encontro entre a aparição de Nossa Senhora da Lapa, em 1757, e a aparição de Nossa Senhora, em 1917, na Cova da Iria.


A Senhora da Lapa apareceu dois anos depois de catástrofe provocada pelo Terramoto de Lisboa que destruiu grande parte da Cidade,  deu origem a um devastador incêndio causado pelas velas que nesse dia, dia de todos os santos, estavam acesas nas igrejas de Lisboa, provocou milhares de mortos, criou o pânico e gerou medos na vida do povo. Em S. João da Folhada a torre-solar da Quinta do Vinhal desmoronou-se.

A dimensão dessa catástrofe foi tanta que dela houve notícia em toda a Europa, causando perplexidades e provocando um grande debate filosófico, científico e religioso sobre as suas causas e as suas repercussões. Até o Filósofo Kant escreveu sobre o assunto. E foi, nessa altura, que apareceu a sismologia.

Para a gente amedrontada da Folhada o Terramoto só poderia ser um castigo divino. E isso não poderia ser dito, porque contrariava a vontade do Marquês do Pombal. Todos os que assim julgassem eram atirados para as prisões e ficavam aí esquecidos até que a morte os levasse.

Mas, a verdade é que, depois da Restauração de Portugal, à luz dos ensinamentos cristãos, nunca teria havido tantos pecados como os cometidos pela luxúria de D. João V, pela vida depravada do seu filho, D. José, e, agora, pela húbris do seu secretário, Sebastião José de Carvalho e Mello, que não olhava a meios para assegurar as suas desmedidas ambições.

E vinha à memória da gente da Folhada o que contara o recoveiro a quem se confiava as mercadorias que iam ou vinham do Porto. Dera notícia de acontecimentos horrorosos que, logo a seguir, eram confirmados por familiares de taberneiros da cidade do Porto. O que tinha acontecido era terrível!... Quando, no Porto, em 23 de Fevereiro de 1757, os taberneiros e pequenos agricultores fizeram repenicar os sinos da Sé e da Misericórdia para anunciar a sua revolta contra o monopólio dos vinhos, José de Carvalho e Mello esmagou o motim com a ocupação militar da Cidade, a decapitação dos revoltosos, açoites, galés e confiscação de bens a outros envolvidos.  Diabolizou os jesuítas e os Távoras, acusando-os de serem os instigadores do tumulto. E não lhe bastando toda esta crueldade, criou um imposto só para os portuenses para serem eles a pagar os custos com as tropas que vieram de Aveiro para esmagar no Porto o motim.
Em 1917 também se vivia um contexto de pavor semelhante. Depois de oito séculos em que a Igreja católica era a religião oficial do Estado, a República não se limitava a ser laica como parecia hostilizar a religião católica. Apareceu a Carbonária que, perseguindo e enxovalhando padres, freiras e frades, criava o terror nas manifestações religiosas.
A separação radical entre o poder civil e o poder religioso dividia ao meio a gente simples do povo.

Somava-se a tudo isto os dramas que, desde 1914, a Primeira Grande Guerra causava em todas as famílias e os receios que iam surgindo de que uma Revolução na Rússia pudesse soltar ainda mais demónios.
O mundo da vida dos crentes estava dominado pelo pavor. Precisavam que o mundo do espírito lhes abrisse um sentido para a existência.

É neste contexto, muito semelhante ao vivido no séc. XVIII, que Nossa Senhora aparece na Cova da Iria, em Fátima, também a três pastorinhos.

Nas imanências mais dolorosas há sempre a procura da transcendência. Mas não é esse “re-ligare” que constitui a própria natureza da religião?

E sendo, assim, perguntamos: Por que Fátima ganhou o esplendor que falta à capelinha da Senhora da Lapa, sendo as circunstâncias semelhantes?!...
Talvez à Igreja do tempo de Salazar conviesse o que não convinha à do tempo do Marquês do Pombal. Mas não é a conveniência dos governantes, das ideologias ou mesmo das instituições que podem desvalorizar o que um dia terá dito Dostoiévski: “Precisamos de Deus, quando a vida está submetida aos impulsos dos demónios.”

É do transcendente que se trata e não da instituição que o representa. Parece que é isto que o Papa Francisco quer dizer, quando diz que vem a Fátima como peregrino e não como Chefe da Igreja.
Ainda bem que temos um Papa que vem de um outro mundo!!!

Maio 2017

João Baptista Magalhães

Obs: no próximo texto escreverei sobre a Quinta do Burgo no caminho de José Policarpo de Azevedo, acusado pelo Marquês de tentativa de regicídio.

terça-feira, maio 02, 2017

 

O abade de Jazente e a Senhora da Lapa

 .
Contexto da aparição de Nossa Senhora, no dia 13 de maio de 1758, em S. João da folhada

Por essa altura, segunda metade do séc. XVIII, era abade de Jazente, uma freguesia vizinha de S. João da Folhada, Paulino António Cabral de Vasconcelos. O Abade de Jazente, nome pelo qual ficou conhecido, fartava-se de percorrer a encosta do cabeço do Outeiro do Preiro, na Serra da Aboboreira, onde se dizia que Nossa Senhora tinha aparecido, em 13 de Maio de 1758, num enorme penedo, a três pastorinhas que ali guardavam umas ovelhas.

Por ali, o Abade costumava esquecer-se das horas no afã venatório que tanto gozo lhe dava. Gostava, sobretudo, de ver os seus cães a farejar nos trilhos que, entre o denso mato, os coelhos e as perdizes usavam para passar. Era na caça e na pesca que sentia o forte apego por esta terra, enquanto esperava pelos fins-de-semana para ir até ao Porto. Aqui tinha lugar cativo nos salões da aristocracia e da alta burguesia. O Pai, que exercia no Porto a medicina cirúrgica, e o irmão, Manuel, um temido magistrado do Santo Ofício, tinham-lhe, desde muito novo, aberto as portas dessa vida mundana. A partir das quintas-feiras, depois das suas funções sacerdotais, em Jazente ou na Lomba, onde nascera a 6 de maio de 1719, na Quinta do Reguengo, já estava de malas aviadas para tomar a diligência que, de Amarante, o levaria à Rua Chã, no Porto, onde residiam os seus pais.

Mas não era a casa paterna que levava na mente: tinha um programa à sua espera nesses salões de amplas dimensões, faustosamente decorados e mobilados, que davam dignidade aos palácios e às instituições culturais, como as arcádias. Aí ficava o centro da vida social, cultural e artística frequentada por fidalgos e burguesia endinheirada. Conheceu aí o negociante e influente político biscainho Bartolomeu de Pancorvo (um dos fundadores da Companhia de Agricultura e Vinhos do Alto Douro). 

Participava nas atividades da Arcádia Portuense, onde era apreciado pela sua veia poética (que, por vezes, se antecipava no erotismo à de Bocage) e nos convívios dançantes promovidos pela alta aristocracia. Gostava de trocar sorrisos e galanteios com as muitas damas que por ali se esmeravam nas gentilezas femininas, sempre prontas para com ele dançar ou jogar as cartas, o que era moda naquele tempo.

Isso carregava a sua imaginação, delineando estratégias que satisfizessem respostas para as espectativas luxuriantes que de convívio em convívio ia alimentando e que acabava sempre por concretizar. O ambiente era propício aos calores das paixões: os desenhos dos passos de dança matizados pelos reflexos das luzes dos grandes espelhos, rivalizavam com os quadros a óleo, cheios de sensualidade, dos discípulos de Fragonard, que ornamentavam as paredes dos salões que frequentava; os sorrisos sedutores que as damas decotadas e de cintilantes joias lhe devolviam; o murmúrio aprovativo que, no último baile, ouvira de uma das mais belas damas:


- “Que bem que o Padre Paulino dança! Que passos perfeitos! Que elegância e leveza!”

O Abade de Jazente sabia cultivar a sedução e aproveitava sabiamente os privilégios com que a natureza o favoreceu: era alto, bem constituído, de lábios grossos, um lascivo olhar e um insinuante sorriso que prendia num mundo de ansiosos desejos as damas e as donzelas. Depois, aperaltava-se sempre com o rigor da moda que vinha de França: usava peruca com cachos cobertos de pó de arroz, vestia batina à francesa, sem capa e com um pequeno cabeção de finíssima lila, meias de seda, lustrosas e bordadas, sapatos de salto alto adornados por enormes fivelas de puro oiro. Usava uma larga e comprida faixa de seda preta que lhe cingia elegantemente a batina em volta da cintura, deixando nas suas extremidades pender duas grandes borlas. Na mão, levava sempre um chapéu de pêlo de castor e deixava, ao passar, um agradável perfume, que as damas, de vestidos amplos e volumosos, com corpetes justos que realçavam os seios, gostavam de, discretamente, inspirar. Era o rasto afrodisíaco que criava ciúmes nos cavalheiros e acendia clarões de volúpia nas donzelas, sempre disfarçados com manifestações de agradável surpresa por o encontrar. Havia competição na audácia de lhe beijar a mão e, em troca das saudações de boas-vindas, ouviam galanteios.

Percebia-se que a sua presença acendia nas damas e donzelas desejos secretos que já não disfarçavam. Mas o Abade de Jazente gostava de se fazer rogado. Sabia, melhor que ninguém, que a aparente reserva acicatava o poder de sedução daquelas damas. E exercê-lo era, para elas, uma paixão e para o Abade a volúpia de as possuir.

Descrevia essas sensações em versos, como estes:

“Vinde cá doces musas, que somente
Divertir-me convosco agora intento,
Pois neste solitário apartamento
Não é fácil sem vós viver contente”.

Ou, então, neste soneto à sua predileta Nize:

“Tu queres, Nize, oh quanto podes, quanto
Sobre o sacro poder da liberdade!
Tu queres, que a chorada falsidade
Se desdiga outra vez em novo canto.

Que o mundo torne a ouvir, com mudo espanto,
Chamar-te em vez de falsa, Divindade:
E em lugar de culpar-te a variedade,
Dizer que sempre foste o meu encanto.

Assim será, se ficas bem comigo:
A vergonha, o dever rompe, e atropela;
Que eu me sujeito a tudo por castigo.

Oh vós , que já me ouvistes sem cautela

Contra Nize gritar; eu me desdigo:
Se faço mal, não sei; só sei, que é bela.


(In: Abade de Jazente, Poesias. Imprensa Nacional Casa da Moeda).

Nos salões da aristocracia portuense a sua presença despertava sempre nas damas mais afoitas uma ávida impaciência de o conseguir no passo de minuete ou tê-lo a seu lado no jogo de cartas. E o Padre Paulino, astuciosamente, como quem não quer a coisa, fazia que lhe calhasse na dança ou nas cartas a mais bela e loura, que denotasse fresca idade e servida das rotundidades e curvas que, ao tempo, preenchiam o ideal de beleza do mais exigente amante. Era só esperar por vê-la caprichar trocar com ele um olhar lânguido e logo tinha por mercê um convite para dançar ou ficar a seu lado num jogo de cartas.


E tratando-se de um jogo de cartas, mal os primeiros lances se davam, logo os mais distraídos compreendiam a razão de tão escaldante capricho: o melhor do jogo desenvolvia-se escondido pela toalha de seda bordada que cobria a mesa. Só se denunciava, quando uma dama soltava um gritinho e todos os olhares, com sorrisos de uma ironia mal disfarçada, iam na direcção do Padre Paulino. Era certo que, debaixo da mesa, as suas pernas tinham ido longe de mais, enfiando as enormes fivelas do seu sapato nas meias de seda da dama e ferindo-a no jogo de pernas que alimentava aquela tempestade de volúpia. Não resistindo à dor, a dama, que de olhos lascivos, se tinha esquecia do jogo, abria repentinamente as pálpebras e de olhar arregalado soltava um inoportuno “ai!!!...” E um fingido alvoroço punha intervalo abrupto naquele escondido jogo de sensualidade de que era exímio o Abade de Jazente.

Esta era a vida social do Abade de Jazente. Quando lhe falavam das aparições, respondia que eram fantasias de crianças e que não deviam ser levadas a sério. Mas, lá no fundo de si mesmo, perturbava-o a gente que passava à sua porta de diferentes condições sociais, mulheres e homens, a pé ou a cavalo, peregrinando em direcção ao sopé da lapa do cabeço do Outeiro do Preiro, onde Nossa Senhora aparecera a 13 de maio de 1757 a três meninas, pedindo-lhes que “fizessem penitência dos pecados, com jejum a pão-e-água nas primeiras sextas-feiras e sábados e que recomendassem isso mesmo a todas as pessoas que encontrassem”.

Por vezes, mas só no princípio da semana, este apelo, de que ouvia falar, trazia-lhe à memória o Padre Malagrida, a sua fama de santo e sábio. Sabia que era uma das mais importantes figuras da Ordem dos Jesuítas, com um trabalho de muitos anos de missionário no Brasil, fundador dos colégios mais prestigiados nessa colónia do Reino; que fora escolhido para confessor de D. João V e do Marquês de Lorna. E sempre que Malagrida lhe vinha à mente, fazia-lhe recordar a profecia de Soror Maria Joana do Louriçal, religiosa que tomou o hábito do Convento do Santíssimo Sacramento do Louriçal, a 16 de Julho de 1732, e falecera um ano antes do Terramoto, em 1754. Falava-se que tinha assegurado ao Padre Malagrida que Jesus Cristo lhe aparecera com uma cruz, em sinal da necessidade de se fazer penitência pela vida depravada que levava o Reino, prenunciando que não havendo reparação desses pecados, abater-se-ia sobre Lisboa uma tragédia. Seria o castigo divino para que se percebesse que a dissolução dos costumes contrariava os ensinamentos dos Evangelhos. (in: Manuel Coelho Amado, “Breve relação da vida, morte prodigiosa da Madre Soror Maria Joana, nossa irmã que faleceu a 25 de Março do presente ano (1754)”.

Nesses momentos, Paulino Cabral sentia um aperto na alma, mas desviava logo o pensamento para as expectativas do fim-de-semana próximo nos convívios dos salões do palácio do biscainho Bartolomeu e para as tertúlias da Arcádia Portuense.

Nesse tempo, última metade do séc. XVIII, a vida da gente de S. João da Folhada não se passava em salões, como acontecia entre a nobreza e a alta burguesia da Cidade do Porto, mas no trabalho duro a arrancar da terra o que precisavam para matar a fome dos filhos e no desespero de quem vive sem horizontes de esperança.

A miséria e a fome juntavam-se ao pavor que sentiam de Sebastião José, dos esbirros dos familiares do Santo Ofício, do meirinho de S. Simão de Gouveia Ribatâmega e dos visitadores da paróquia. O vinho já não podia ser vendido a retalho e receavam que o mesmo acontecesse aos cereais e a outros produtos.


O horror com que foram castigados todos os que participaram no protesto dos tanoeiros convertia-se num imenso medo que lhes tolhia o raciocínio e os reduzia a uma insuperável impotência e, sempre que passavam junto à Quinta do Vinhal, lembravam-se de que o terramoto tinha provocado a queda da torre-solar que enobrecia a casa e imaginavam o montão de ruínas e de mortos em que Lisboa se tinha transformado.

Não encontravam palavras que explicasse tanto horror e isso fazia-os virar para dentro de si mesmos, onde pediam a Nossa Senhora que não os abandonasse e que afastasse das suas vidas o diabo que banalizava tanto mal.

O pânico incrustara-se na alma dos folhadenses com um edital que, entretanto, o Marquês de Pombal tinha feito publicar, pelo qual “manda inquirir sobre as pessoas que tiveram práticas de dizer mal do governo, dando 220 mil cruzados a quem os denunciasse.”

Era mais uma acha para incendiar o pavor que sentiam. E ele era tão grande que, quando iam à missa ou ao cemitério velar familiares sepultados, baixavam a cabeça e alongavam o passo só para não deixar que o olhar se fixasse naquela ordem que continuava fixada à porta do cemitério e da igreja. Não era por indiferença ou desprezo, mas porque os olhos ao caírem no edital parecia que lhes abria no coração uma ferida que os fazia sofrer por lhes abafar o que Nossa Senhora terá dito às três pastorinhas que, entretanto, já haviam sido levadas para a sua companhia. 

Até aquela altura, só os santuários e as ermidas eram os únicos lugares consagrados à devoção dos santos. As aparições de Nossa Senhora não tinham para o poder eclesial ou do reino qualquer relevância, com exceção do Marquês do  Pombal, mas não era isto que sentia a gente que vivia na região que ficava em torno de S. João da Folhada, como veremos no próximo capítulo.

01 de Maio de 2017

João Baptista Magalhães

segunda-feira, maio 01, 2017

 

Um mundo às avessas e premiar às avessas

Pensemos no exemplo que vem dos E.U. e de França! De quem será a culpa de o mundo andar às avessas e premiar às avessas? Despreza a honestidade, pune o trabalho, recompensa o oportunista, o chico-esperto, o corrupto e pune quem defende a solidariedade, luta pela justiça e quer a transparência..
Será que uma lanterna mágica faz, como sendo natural, ver o mundo de pernas para o ar, como Eduardo Galeano coloca nos pregões da lanterna Mágica?

“Que se alce a lanterna mágica!
Imagem e som! A ilusão da vida!
Em prol do comum estamos oferecendo!
Para ilustração do público presente
o bom exemplo das gerações vindouras!
Venham ver o rio que cospe fogo!
O Senhor Sol iluminando a noite!
A Senhora Lua em pleno dia!
As Senhoritas Estrelas expulsas do céu!
O bufão sentado no trono do rei!
O bafo de Lúcifer toldando o universo!
Os mortos passeando com um espelho na mão!
Bruxos! Saltimbancos!
Dragões e vampiros!
A varinha mágica que transforma
um menino numa moeda!
O mundo perdido num jogo de dados!
Não confundir com grosserias e imitações!
Deus bendiga quem vir!
Deus perdoe quem não!
Pessoas sensíveis e menores, abster-se”.

Pregões da lanterna mágica do século XVIII


sexta-feira, abril 07, 2017

 

Nossa Senhora da Peneda

Por vezes não damos conta do que já vimos. Isso aconteceu comigo neste passeio de convivo que, no passado dia 6, me levou ao Santuário de Nossa Senhora da Peneda, numa das encostas do Gerês, área do Parque Nacional de Peneda e Gerês, a cerda de 51 km de Arco de Valdevez.
É um dos mais importantes santuários do País. Foi construído em 1875, em honra de Nossa Senhora que aí terá aparecido em 5 de Agosto de 1220. Disseram-me que a maioria dos seus devotos vem da Galiza, que está ali, bem perto. Talvez esta devoção dos nossos vizinhos venha do tempo da formação da nacionalidade. A celebração da sua romaria dá-se na primeira semana de Setembro.
Dispõe de um hotel, nos antigos dormitórios dos peregrinos e o santuário impõe-se numa alameda de velhas e frondosas árvores com que nos deparamos depois de subirmos uma enorme escadaria com cerca de 20 capelas, invocadoras da vida de Cristo.
Vale a pena visitá-lo. É mesmo monumental!



 
A guerra é, como dizia o Padre António Vieira, “aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e, quanto mais come e consome, tanto menos se farta”. O objetivo da guerra, de uma intervenção militar, nunca é o declarado! Quando é em nome da “legítima defesa” nunca poupa as populações civis; quando invoca o “direito de proteger” alarga o número dos desprotegidos e quando tem por lema a defesa dos “direitos humanos” ou impõe o regime democrático utiliza a hipocrisia para submeter povos e aproveitar-se das suas riquezas naturais.
A guerra é um monstro, quando é feita por Assad, quando é feita pelos terroristas e quando é feita por um qualquer idiota como Trump. Tem de haver forma de resolver conflitos sem ser pela guerra. “A guerra é aquela calamidade composta de todas as calamidades” como bem sublinhou o grande Pregador.
É preciso parar com esta brutalidade!


sexta-feira, março 31, 2017

 

Tratam-nos como carneiros e deipois queixam-se da abstenção!

 https://www.youtube.com/watch?v=XBEx6XP0pXE&feature=share


A faina da constituição das listas para as candidaturas autárquicas faz-nos lembrar esta sublime canção de Zeca Afonso.


Na verdade, o critério de escolha de candidatos é, por quase todos os partidos, orientado pela única ideia de que os eleitores são um rebanho, onde carneiros são o que mais há! Vem logo, ao de cima, a sofreguidão de agarrar uma oportunidade para cada partido contabilizar mais uma autarquia na sua esgrima do poder.
Os critérios utilizados nada têm a ver com o perfil de quem saiba melhor representar os eleitores e mais se identifique com a ideologia do partido. Apenas se procura quem seja mais popular ou dê mais nas vistas pela importância da sua profissão ou do seu dinheiro. Chamam-lhe poder local, mas vão buscar os que só conhecem a terra pelos almoços.
As candidaturas autárquicas estão a ser organizadas como se organiza um ramo de flores. Nenhuma preocupação há em apresentar um programa que os eleitores compreendam, que sirva os seus interesses e os da sua terra; e menos preocupação há de escolher as pessoas da terra que melhor saibam sentir as suas raízes e representar os interesses dos eleitores da sua comunidade autárquica.
Ainda não se percebeu que a democracia é um regime de representação e não a possibilidade de dar um estatuto social ou um emprego. Depois, os eleitores acabam por votar sempre na mesma maneira: ou votam contra o partido que dominava a autarquia, por saturação; ou, como são todos iguais, o melhor (dizem!) é votar nos mesmos. E outros, ainda: “para que é que vou votar? O meu voto não conta para nada!”
E o ramo de flores lá vai para o caixote de lixo.
Como estamos bem longe do 25 de Abril!...


segunda-feira, março 27, 2017

 

Segundo encontro


Na antiga China, havia a tradição do Imperador, no primeiro dia da Primavera, abrir o primeiro sulco da terra. Essa cerimónia simbolizava a reconciliação do mundo profano com as forças do espírito. Assim acontece com a amizade. Não há a possibilidade de encontrar um sentido para a amizade, sem reconciliarmos os sulcos que o mundo da vida da adolescência cavou com a vida do espírito que alimentou esse mundo.

A nossa amizade está presa a essas raízes. Podemos ter mudado de convicções, podemo-nos ter separado pelos modos de ver o mundo e a vida, mas o que nos liga emerge do mais profundo, dessa âncora onde ficam os sulcos que prenderam as nossas raízes.

Dizia  Wittgenstein, um filósofo do século passado:  “Os aspectos para nós mais importantes das coisas estão ocultos, devido à sua simplicidade e familiaridade. (…)”. Precisamos destes encontros para desocultar o mais importante, o que na saudade esconde “esse sonho que vive de trás da vidraça” como diria Pessoa. Um sonho, vivido na adolescência, que faz da memória a sua âncora.

Por alguma razão na antiguidade clássica, a memória era personificada por uma deusa: a Mnemosyne, mãe das musas e responsável pela inspiração dos poetas.

Não há melhor poesia do que o sol que cresce num encontro de amigos, recuperando o nome num abraço, partilhando sorrisos, fazendo de nós os outros que éramos.

Este encontro foi na planície alentejana. Por aí andamos dois dias, passamos pela Vidigueira, ouvimos os cantares alentejanos, fomos a Moura, onde a saudade do meu amigo José Cunha me perseguiu (por onde andará ele?) e regressamos a Alcochete.
 


quarta-feira, março 22, 2017

 
Beato Gonçalo Dias II (cont.)



BEATO CONÇALO DIAS
Gonçalo Dias tinha 50 anos quando, no dia 16 de Outubro, entrou no Convento da Cidade de Lima, uma cidade colada à portuária de Callao. Recebeu o hábito de frade e entrou no noviciado. Um ano depois, fez a sua profissão de fé e logo foi nomeado para gerir a herdade que dava o sustento ao Convento. Isso deu-lhe a oportunidade para regressar às actividades que tinha desempenhado com os seus pais na casa do Barral, em S. João da Folhada. Pela competência que revelou, o Abade Superior chamou-o ao Convento e entregou-lhe as chaves do mesmo, como sinal de confiança, consideração e estima.
Note-se que, nesta altura, a corte espanhola ainda tentava limpar a imagem de crueldade que deixou Francisco Pizarro, quando, em 16 de Novembro de 1532, conquistou o Perú e fundou a Cidade de Callao, também chamada Cidade dos Reis. A história desta conquista está associada a  execuções, extorções e genocídios que destruiram tribos indígenas, como os Incas e os Astecas. A imagem do conquistador  que dominava pelas execuções e perfídias ficava associada à imagem de Espanha.

 PIZARRO E OS INDÍGENAS
Diz-se  que Pizarro sabia que os indígenas não jurariam sobre a Biblia e armadilhou um encontro: convidou o imperador Inca Atahualpa para uma reunião diplomática e, nessa altura, obrigou-o a jurar fidelidade sobre uma Bíblia. O imperador recusou e Pizarro ordenou a sua prisão e a execução dos homens que o acompanhavam. Depois, exigiu ouro e prata para o libertar. Após receber o metal precioso que, segundo descrição da época,  encheu uma sala e um quarto, mandou executar Atahualpa. E numa outra cidade, a de Cajamarca, às suas ordens 168 soldados espanhóis, bem armados, executaram mais de sete mil indígenas.


FRANCISCO PIZARRO
O próprio Pizarro acabou por morrer com os mesmos ferros com que executava os indígenas. A sua gente revoltou-se contra ele e, em 1541, foi assassinado.

Para além deste ambiente de crueldade, os espanhóis eram acusados de responsabilidade pela pobreza extrema em que ficaram a viver os povos do Peru.

Naturalmente, os indígenas ainda sentiam essa herança e olhavam para os espanhóis como inimigos perigosos e cruéis. Mas Gonçalo Dias depressa conseguiu ultrapassar todas as hostilidades que, de início, sentiu e foi surgindo aos olhos dos habitantes da Cidade dos Reis como um santo. Dedicava a sua vida aos que mais sofriam, fossem mendigos ou doentes, brancos, negros ou mestiços. A todos, em nome de Deus, ajudava e, junto de Deus, por todos intercedia. A sua fama de bondade e santidade cresceu e o seu passado de marinheiro virtuoso foi juntar-se à sua fama de santidade. Pouco a pouco, conseguiu usufruir muito prestígio e estima junto de todos os que habitavam aquela portuária Cidade dos Reis, que tão mal havia sido tratada pelos colonizadores.

Numa das ocasiões em que estava de porteiro do Convento, ouviu alguém a saudá-lo em português; logo, estabeleceu com ele conversa. Soube, então, que o seu conterrâneo, que se apresentou como António Correia, estava ali, porque tinha conseguido fugir de Portugal. Era natural de Celorico da Beira e os seus pais eram judeus. Depois de D. Manuel, em 1497, trocar a mão da princesa D. Isabel pela instauração da Inquisição e perseguição aos judeus foragidos de Castela, a maioria dos seus antepassados foram desterrados, obrigados a entregar os seus filhos ao Rei, que os mandava submeter à água do baptismo que, segundo a Inquisição, era o leite da mãe igreja para os purificar das heresias.

 GALEÃO
António Correia por conselho de seu Pai, “convertera-se” ao cristianismo, mas, mesmo assim, foi sabendo que por Lisboa, Évora e Coimbra os convertidos, cristãos-novos, eram suspeitos de continuarem a praticar o judaísmo. Depois de presos, sofriam horríveis torturas, tinham os seus bens confiscados e acabavam, quase sempre, por ser condenados à morte pelo fogo. O espectro do desterro apavorava-o, mas ainda mais o aterrorizava o receio de ser denunciado como praticante do judaísmo na clandestinidade pelos familiares do Santo Ofício. De início, pensou em fugir numa das caravelas que iam para o Brasil, mas receou que nas terras de Santa Cruz fosse apanhado pelos esbirros da Inquisição. Sabendo que no Peru não havia o Tribunal do Santo Ofício, decidiu caminhar em direcção a Espanha para aí comprar uma passagem como marinheiro de um galeão que fosse para o Peru. Foi isso que aconteceu e as amarguras que passou na viagem foram muito semelhantes às que tinha sofrido Gonçalo Dias. 
 INQUISIÇÃO

Convidado a entrar no Convento, a conversa entre conterrâneos foi longa. António Correia sentiu-se acolhido sem suspeitas. Gonçalo Dias considerava que a perseguição aos judeus teve origem num mal-entendido dos primeiros tempos do cristianismo: nessa altura, os judeus foram acusados de se considerarem acima dos cristãos, mas esse erro foi logo combatido, ao ser afirmado por Jesus que a caridade fraterna era a única lei da relação entre os humanos. À luz dos ensinamentos do Evangelho não se deveria insistir numa divisão de raças e muito menos perseguir os judeus com a pena de fogo, contrária à bondade dos ensinamentos de Deus. No seu entender, Cristo morreu numa cruz para chamar toda a humanidade ao entendimento fraterno, sem diferenças de cor ou de sangue.

O apoio e testemunho de vida que Frei Gonçalo Dias lhe dedicou, tocou-o e António Correia quis receber o hábito de mercedário. Tomou o nome de Frei António de S. Pedro e, estimulado pelas virtudes do seu patrono, acabou por também angariar fama de santo.
Se vivesse em Portugal e não tivesse encontrado Gonçalo Dias, certamente, por ser de família judia, nunca teria desenvolvido as virtudes do cristianismo, que lhe foram reconhecidas.
Só este facto já nos ajuda a compreender por que Gonçalo Dias merece o reconhecimento dos folhadenses e ser uma referência da história do nosso Concelho.
Nos seus últimos tempos da sua vida já só desempenhava as funções de sacristão do Convento e poucas vezes era visto a cirandar no bulício de Callao.
Em 24 de Janeiro de 1618, Gonçalo Dias faleceu cansado da idade. A sua fama de santo já, nessa altura, se estendia a Portugal. Nesse mesmo ano, no dia 4 de Maio, o seu processo de beatificação foi aberto pelo arcebispo de Lima, D. Bartolomeu Lobo e Guerreiro e o seu corpo foi exumado. Segundo o seu biógrafo, todos os que presenciaram o acto não se cansaram em publicitar a incorruptibilidade do cadáver e o perfume que do mesmo se desprendia.
Foram recolhidos testemunhos das suas virtudes e milagres. Vieram emissários da Santa Sé e da Ordem dos Mercedários a S. João da Folhada para se inteirarem do seu passado e do passado da sua família, tal como nos relata o abade José Franco Bravo nas inquirições do Marquês do Pombal. Diz: “O milagroso Sam Gonçallo Dias nasceu entre as asperezas destas serras, como roza dentre os espinhos, em o lugar de Barral, de pais humildes, em o ano de mil e quinhentos e cincoenta e seis e florescendo com muntos actos de virtude e evidentes sinnaes da sua santidade. Foi celebrado o seu Gloriozo transito (falecimento) em o Porto de Callas, na cidade de Lima, em as Indias Orientaes de Espanha, no convento e hábito de Nossa Senhora das Mercês, da Redempção de Cativos, em o dia vinte e sete de janeiro do ano mil e seiscentos e dezoito. Depois foi beatificado pelo Santissimo Padre Benedicto XIII” (in: Memórias Paroquiais, pag 372)
No Lugar do Barral foi colocado um cruzeiro, que ainda hoje existe, para, segundo as referidas Inquirições, indicar “onde foram em outro tempo as cazas donde nasceo o venerável Sam Gonçalo Dias, as quoaes foram demolidas pelo padre Frei Joam Sanches de Lhanos, comendador de Monte Rei, que veio a esta freguesia por ordem e comissão do generalíssimo da mesma ordem frei Sebastiam de Velasco, o quoal padre assim adicto juncto com o abbade que antam era Melchior de Azevedo e mais povo desta freguesia demolio as ditas cazas por as acharem servindo de coraes de gado”. E para se dar veneração in perpectum às ditas cazas, em este Cruzeiro e sitio naqueles anos que foi pelos de mil e seiscentos e setenta e sete em diante, houve muita ocorrência de gente e muitos e variados milagres.”  (in: Memórias paroquiais, pag 373)
IMPÉRIOS COLONIAIS PORTUGUÊS E ESPANHOL
Como se vê, a devoção a S. Gonçalo Dias atraía, na altura, àquele lugar muita gente, mas como não ficava bem terem feito da casa onde nasceu uma corte de animais, preferiram derrubá-la e da memória da vida do Santo só ficou um Cruzeiro.

Aparentemente, tal decisão parece estranha: para além da velha casa se harmonizar com a simplicidade e pobreza da vida de S. Gonçalo Dias, a sua demolição desvalorizou o que constituía o ideal de santidade enaltecido no tempo e que inspirou, por exemplo, a criação das ordens mendicantes, que, na época, viviam de esmolas, numa pobreza radical e numa humildade extrema.
Pergunta-se, então, que argumentos terão sido invocados para a destruição da casa onde habitou Gonçalo Dias? E, já agora, por que será que, sendo S. Gonçalo Dias venerado em toda a América Latina, considerado o pai dos pobres de Porto Callao (cidade do Peru), só dele conheçamos o que dele diz o Abade da Folhada nas Inquirições do Marquês de Pombal, o Cruzeiro que sinaliza a casa onde nasceu e as referências que dele faz no “Mensageiro de Santo António”, em Maio de 2002, o padre Arlindo Magalhães, professor da Universidade Católica? Mesmo a imagem que existe de S. Gonçalo Dias na igreja da Folhada não foi ali colocada pelos seus conterrâneos, mas, como já referimos, pelos padres da Ordem a que pertenceu.
Muitas são as razões, mas só contextualizando podemos alinhar respostas. Em 1517, Martin Lutero publicou as 95 teses que, entre outras doutrinas, contestava o culto dos santos, que para ele era um sinal de paganismo, o poder e o comércio das indulgências. Foi excomungado e isso provocou um cisma na Igreja Católica, originando o protestantismo.
Aos olhos de muitos cristãos o empreendimento colonizador (a que chamavam descobertas) dos Estados Católicos, como Espanha e Portugal, feito com a Cruz de Cristo e a espada, nada tinha a ver com os valores cristãos, mas com a cobiça do ouro e da prata e, quase sempre, de forma sanguinária.
 CONCÍLIO DE TRENTO
Naturalmente, estas criticas abalavam a credibilidade da Igreja, o que obrigou  á convocação do Concílio de Trento (1545-1563). Dessa demorada reflexão saiu a necessidade de  maior rigor por parte da Santa Sé no reconhecimento da santidade. Os bispos locais passaram a ser impedidos de canonizar e esta atribuição tornou-se num dos poderes do Papa. E só o podia fazer, depois de inquéritos rigorosos, audição de testemunhas credíveis, registo dos milagres num livro próprio, o “Liber Miraculorum”, onde também deveria constar a biografia da personalidade em causa e a avaliação das suas virtudes  por uma comissão de sábios escolhida pela Santa Sé.
Sabe-se que entre 1676 e 1680 intercederam pela beatificação do nosso Servo de Deus o Rei de Espanha, o Vice-rei de Nápoles, os bispos de toda a Espanha e três universidades (Valladolid, Salamanca e Complutense), para além de uma autêntica avalanche de cartas que do Peru foram enviadas ao Sumo Pontífice, testemunhando as virtudes de Gonçalo Dias, descrevendo os seus milagres, e pedindo a sua santificação.
Em 1687, a diocese de Lima procedeu a novas inquirições, ouvindo 71 testemunhas, para convencer o Papa a decidir-se pela beatificação do nosso Conterrâneo, o que só veio a acontecer muito mais tarde, por volta de 1731, quando foi dado por concluído todo o processo.
Uma questão fica, entretanto, por responder: Por que será que aqui, bem perto da Folhada, na cidade de Amarante, com uma história de vida muito semelhante à do venerável Gonçalo Dias, ninguém desconhece um outro venerável, nascido cerca de três séculos antes, também de nome Gonçalo, mas filho de uma família nobre, (viria a ser seu parente o Condestável D. Nuno Álvares Pereira),  honrando-o com grandiosas festas e com uma devoção que arrasta multidões de fiéis?
Ambos foram beatificados, mas um é de família nobre e o outro de família pobre. Muitas hipóteses podem ser colocadas para explicar o esquecimento de Gonçalo Dias, que nem na toponímia da sua freguesia natal ou do Concelho consta o seu nome. 
Será que os cristãos de hoje ainda continuam com o preconceito da Idade Média, de que só os nobres abraçam as virtudes da defesa da fé, da coragem e da abnegação?
Na verdade, Gonçalo Dias exerceu a mais modesta de todas as actividades: a de pastor na Serra da Aboboreira e de embarcadiço. Será que o pobre, para além de ter a cruel sorte do desamparo, carregar na palavra uma construção simbólica depreciativa para as classes mais favorecidas (é a pessoa que não se sabe cuidar nem portar-se), continuará a nem sequer poder ser santo?
Mas, se é assim, por que enchem a boca com os pobres para colher esmolas, esperar votos e mostrarem-se piedosos?
No próximo post falaremos sobre as aparições de Nossa Senhora no dia13 de maio de 1757, na terra de Gonçalo Dias, em S. João da Folhada.
 João Baptista Magalhães

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