sexta-feira, agosto 18, 2017

 

Democracia orgânica

A maior perversão da democracia é o seu desvio para uma “democracia orgânica”, tão querida de muitos partidos. Nesse falseamento da democracia, o que conta é o amiguismo: só quem está com o presidente é que tem benefícios, as associações recreativas, culturais ou desportivas dominadas por gente de confiança do presidente são privilegiadas, um “verdadeiro intelectual” é o que nos jornais, nas redes sociais sabe tornar virtude os desvarios e erros do presidente e é isso que justifica a recompensa do presidente.
A política na "democracia orgânica" é um jogo de ilusões que se faz pelo espetáculo. O que é preciso é fazer do mandato um festival que promova o presidente, que o torne homem sábio, sendo ele um ignorante, e exalte a vaidade como esplendor de sua proficiência.
Sou contra isto e considero mesmo que isto não é democracia. Foi a política de um passado não muito longínquo que levou o meu Concelho à falência, o meu País à falência. Defendo o valor da critica, penso, como Descartes, que a crítica é o ácido que corrói o erro. Lutarei sempre contra a democracia orgânica que ainda faz escola entre muitos autarcas.
A democracia exerceu-se pelo uso livre da palavra e só com a Revolução Francesa apareceram os partidos, como hoje os consideramos. O maior teórico da democracia é, no meu entender, Karl Popper. Foi um filósofo da ciência e também da liberdade e da democracia. Escreveu "Sociedade aberta e os seus inimigos" Ora vejam o que ele diz nesta entrevista:

"Inicialmente, em Atenas, a democracia foi uma tentativa de não deixar chegar ao poder déspotas, ditadores, tiranos. Esse aspecto é essencial. Não se tratava, pois, de poder popular, mas de controlo popular.
(…)
Desde o início que o problema da democracia foi o de encontrar uma via que não permitisse a ninguém tornar-se demasiado poderoso. E esse continua a ser o problema da democracia.
(…)
Numa democracia, é essencial a consciência da responsabilidade, a responsabilização daqueles que detêm o poder e o exercem. Tudo gira à volta disso. Responsabilidade significa responder a uma acusação. É nisso que consiste, fundamentalmente, o ser responsável. Dar respostas às criticas e afastar-se quando essas respostas não forem suficientemente convincentes. Trata-se, por consequência, não de conduzir o povo, mas de dar satisfação ao povo.
(…)
Teríamos de ser democratas, ainda que se viesse a provar ser a ditadura economicamente mais eficaz. Não devemos trocar a nossa liberdade por um prato de lentilhas! Todavia, é evidente que a democracia é mais bem sucedida, e por uma razão puramente humana. Ela é mais bem sucedida porque a iniciativa humana e a força criativa do Homem estão natural e intimamente associadas à liberdade. Só se for possível falar livremente, poderemos desenvolver as nossas ideias. Sempre que numa sociedade moderna a criatividade e a iniciativa são reprimidas, as coisas correm pior para esses países do ponto de vista económico.
(…)
A riqueza é uma consequência da liberdade, da iniciativa e, sobretudo, da liberdade de expressão.

(Excertos de uma entrevista de Manfred Schell a Karl Popper)

sexta-feira, agosto 04, 2017

 

Habemus net!

Foi com o tema “A Cidadania como factor do aprofundamento da democracia e do desenvolvimento ” que terminou o ciclo de debates promovido, neste Verão, pela Associação dos Amigos do Marco.

Carla Queirós, representante do Movimento do Comércio Tradicional, trouxe para a reflexão duas questões: a multiplicação de centralidades dispersou os clientes, enfraqueceu o comércio e esvaziou as ruas tradicionais. Situação que se agravou com uma requalificação que, copiando o estilo pós-moderno aplicado a centros históricos (onde não há trânsito), desenhou sentidos únicos, com passeios altos e um pavimento trepidante que afasta os veículos, empurra os ciclistas para os passeios, dificulta o estacionamento e, em eventuais casos de emergência, agrava a necessidade de imediato socorro, criando problemas que podem ser trágicos, cuja responsabilidade não deixará de recair sobre a Câmara.

Carla Queirós referiu-se, depois, ao sentimento que existe entre os comerciantes de que as mais-valias do investimento autárquico beneficiam as grandes superfícies, com as infra-estruturas que lhes são disponibilizadas, e não trazem retorno para o comércio tradicional que contribui com uma significativa fatia dos impostos que são cobrados pela autarquia.

O sociólogo da U.M., Carlos Silva, fez a distinção entre discriminação e exclusão e, utilizando o pointer-point, evidenciou com números o darwinismo social da exclusão, levando os ricos a se tornarem cada vez menos numerosos e mais ricos; e os pobres, cada vez mais e mais pobres. Tomou a exclusão como conceito orientador da sua exposição e falou dos diferentes patamares em que ela se evidencia. Referiu, inclusivamente, a captação da discussão política pelo poder político que centrifuga o debate nos partidos, com exclusão dos cidadãos, independentemente das suas cores ideológicas ou partidárias.

Finalmente, o antropólogo Fernando Matos Rodrigues referiu-se ao espaço público, como espaço dos afectos e da memória e, por isso, complexo. Recusou o minimalismo pós-moderno (evidenciado na requalificação da Cidade), que vê nas comunidades uma soma de indivíduos, valorizando apenas o conhecimento tecnocrático, sem consideração pelos saberes espontâneos, emoções e outros laços que fazem a vida em grupo e constroem a coesão social.

Gerou-se, depois, um interessante e caloroso debate. Um participante sublinhou que a falta de discussão pública (privilégio apenas de alguns ungidos) da requalificação da Cidade foi patente, inclusivamente no facto de só depois de realizado o projecto de requalificação se dar conta que um dos munícipes tinha ficado sem entrada para a garagem da sua residência. Um outro interveniente lembrou que a natural expansão da Cidade seria para o rio, donde provem a história do Concelho, e que foram os interesses imobiliários ligados à anterior autarquia que perverteram este rumo e multiplicaram as centralidades. Seguiram-se outras intervenções e, mesmo depois de ter terminado o debate e fechado o auditório, cá fora, o debate continuou aceso, parecendo não querer terminar.

Manifestou-se  o apreço e a importância da presença de muitos candidatos à autarquia e lamentou-se que outros tenham faltado, o que denuncia a hipocrisia das preocupações que proclamam, quando se desinteressam pelos debates que sobre a nossa terra são feitos. Parecem continuar a acreditar que, na romaria eleitoral, lhes basta a cartilha das promessas avulsas. Pensam que os eleitores gostam de seguir a cenoura que lhes apontam, sem precisar de sentir os problemas que localmente são vividos e carecem de resposta. Talvez por procederem como os “mercenários” que nas guerras só estão disponíveis para os proventos da batalha!

Também houve quem referisse a incomodidade que os responsáveis pela autarquia demonstram, quando alguma crítica é feita à sua “obra”, e, na sua insensibilidade democrática, se alargam em cansativas justificações que nunca convencem ninguém. É, de facto, um estilo que, numa tonalidade mais doce, provem de outros tempos, lembra Trump à escala mínima, e não deixa de ser reflexo da tentativa de monopolizar a discussão política, não saber aprender com os cidadãos e exclui-los do uso livre da palavra - o que acaba por evidenciar a actualidade da importância da AACMC, como fórum do uso livre da palavra, sem a intimidação do poder e com a recusa de ser correia de transmissão da propaganda dos interesses dos directórios locais dos partidos.

Sem o debate livre, o levar à prática o princípio de que “o que é destinado aos munícipes não deve ser feito sem os ouvir”,  não há exercício da cidadania; e sem cidadania não há democracia. É incontroverso que a democracia emergiu do uso livre da palavra na Grécia Antiga  e os partidos só apareceram com a Revolução Francesa. A doutorice funciona, hoje, como um vírus da democracia que leva a satisfazer-se com uma representação dos munícipes só por doutores e engenheiros. Depois, os outros cidadãos ficam sem quem os represente nas assembleias municipais, que se vão transformando num fórum fechado, entregue a interesses de grupos e à irrelevância das questiúnculas, imitando, no seu pior, o ruído que acontece na Assembleia da República.

A democracia que se fecha sobre os profissionais da política ou na cegueira do elitismo, promove o dramático crescimento da abstenção, torna os políticos numa classe arrogante, retira-lhes o prestígio, desenvolve pulsões autoritárias e dominadoras.

A profissionalização da política é responsável pela necessidade de eternizar a ocupação de cargos políticos e muitos autarcas, impedidos de se recandidatarem, recorrem ao estratagema de passarem de candidatos à presidência da autarquia para candidatos à presidência da assembleia, com vista a retomarem a presidência da autarquia em próximas eleições. É-lhes indiferente o risco de estilhaçarem o partido com divisões internas, como já acontece em muitas autarquias. O que lhes interessa é manter a carreira. Talvez, por isso, já se ouve os mais avisados a confessarem que sabem em quem não votam, mas não sabem em quem vão votar.

Uma outra consequência desta perversão da democracia é o sentimento subjectivo que se gera nos eleitores: o de que, sendo todos os políticos iguais, todos fazendo da política um espectáculo das suas prosápias e das ilusões, o melhor é apostar em quem sabe ouvir, porque é do saber ouvir que sempre se esperou a melhor resposta.

O elevado índice de abstenções, superior já aos votantes, reflecte a descrença nos políticos. E a desilusão dos eleitores vai-se tornando terreno fértil para os demagogos, seja a nível de uma autarquia ou de uma nação. Ficam a votar neles, os menos cultos, os que acreditam na cenoura que lhes colocam à frente!

A política-espectáculo formatou o pior defeito dos autarcas ou de outro qualquer líder: o de pensarem que entre a ficção que impingem e a realidade vivida, os eleitores correm atrás da ficção e esquecem a realidade do dia-a-dia.


Não se pense, por isso, que transformar a Baiana (que acidentalmente nasceu no Marco - só foi para evitar o risco de sua mãe abortar no navio que levou o seu pai para o Brasil) numa bandeira eleitoral faz o triunfo de uma candidatura! Não é, nem podia ser!... A Baiana não é fundante da história do Concelho e privilegiá-la em relação aos que, no passado, mais serviram a nossa Terra é uma injustiça. Logo, o busto que a fará lembrar é efabulador, não gera significado, não passa de uma mistificação, consumida mais por forasteiros do que pelos conterrâneos, e, mal as luzes do espectáculo se apaguem, será esquecido pelos mais esclarecidos ou olhado com troça!

João Baptista Magalhães

quarta-feira, julho 26, 2017

 

Ultimo debate da AACMC

No próximo dia 29, sábado, pelas 17 h, no auditório municipal do Concelho do Marco de Canaveses, realiza-se o último debate, promovido pela Associação dos Amigos do Concelho, subordinado, ao tema: “Cidadania como factor de aprofundamento da democracia e de desenvolvimento”.
São convidados para intervir a nossa conterrânea Carla Queirós sobre os problemas do comércio local e a pulverização de centralidades; sobre organização dos cidadãos,Manuel Carlos da Silva, sociólogo, professor catedrático da Universidade do Minho. Investigador do CICS. Nova Universidade do Minh. Coordenador do projecto de Investigação, “Modos de vida e formas de habitar nas ilhas do Porto e bairros de Braga financiado pelo F.C.T. Membro da direcção do laboratório de Habitação Básica. Ex- Presidente da Associação Nacional de Sociologia. Director do ICS/CICS. Ganhou o prémio Nacional Sedas Nunes com a obra “Resistir e Adaptar”. Publicou vários livros sobre as temáticas da sociologia do género, das lutas sociais, exclusão social e cidadania.E sobre espaço público,Fernando Matos Rodrigues. Antropólogo. Investigador do CICS. Nova- Universidade do Minho. Director do laboratório de Habitação Básica. Coordenador do Programa da reabilitação da Ilha da Bela Vista/ Porto. Curso de Doutoramento em Teoria de Arquitectura e Projecto Arquitectónico (Univ. Valladolid/Espanha). Doutorando em sociologia e antropologia do habitar. Prof de antropologia do espaço no Mestrado Integrado no curso de Arquitectura da ESAP (1991-2015) . Director da Revista Ruralia (1987-1994) e Cadernos ESAP (1995-1999). Autor de vários livros na área da habitação, cidade e espaço público.


terça-feira, julho 25, 2017

 

Voltando ao assunto

Franz Kafka escreveu um dia: “A verdade é aquilo que todo o homem precisa para viver e que ele não pode obter nem adquirir de ninguém. Todo o homem deve extraí-la sempre nova do seu próprio íntimo, caso contrário ele arruína-se. Viver sem verdade é provável, mas não é viver. A verdade é talvez a própria vida”.
Para mim, esta concepção de verdade é um lema de vida. Há uma diferença entre verdade, opinião e critica. A verdade é o que faz luz na nossa maneira de ver a vida, os outros e o mundo. Não há uma verdade que seja uma cópia da realidade. Vemos o mundo pelos “óculos” que constituem o nosso paradigma ou sistema de crenças. Os factos, os acontecimentos, a realidade não fala por si, precisa que a interpretemos. E, in-ter-pre-tar, é ver por dentro (com a nossa maneira de ver), fornecer o significado de algo; explicar, elucidar, segundo o nosso modo de ver. Por isso, existem conflitos de interpretações: vemos as mesmas coisas, mas damos significados diferentes, porque os nossos “óculos”, a nossa maneira de ver é diferente.
A opinião é a nossa perspetiva, o nosso ponto de vista. A crítica é o nosso desacordo, com a nossa verdade. Ela é o resultado do nosso compromisso com a verdade. É mesmo indispensável e, talvez, por isso, Descartes dizia que ela corrói o erro. Sem ela não há o exercício da cidadania. A crítica deveria começar por ser autocritica, é inerente à responsabilidade pessoal e política. E ser responsável é responder a uma acusação a uma crítica. Por isso, a crítica exige confronto, direito ao contraditório, põe-nos em diálogo e ajuda a corrigir erros que podem derivar de quem faz a crítica ou a ela se sujeita.
Tudo isto é muito diferente de atirar com pedras e esconder a mão, com a cobardia e a falta de carácter das cartas ou comunicados anónimos.


segunda-feira, julho 24, 2017

 

Os crápulas escondem o nome!

É triste, faz-nos estrangeiros na nossa própria terra, na terra onde Siza Vieira construiu uma igreja, símbolo da concórdia, da paz, da transparência e da fraternidade, mas é verdade.
Em alturas de eleições no Marco de Canaveses aparece, desde há muito tempo, um crápula (ou quem com ele aprendeu a ser canalha) que utiliza a escuridão do anonimato para dar andamento à sua tara anti-social. Surge quase sempre com uma “carta aberta”, uma espécie de tiro na escuridão da desonra. Quem não se lembra da “carta anónima” a um deputado? O estilo é o mesmo: constrói um inimigo, fazendo-se amigo a quem dirige a carta, mas o seu objetivo é servir um terceiro: o candidato do partido que lhe fará os jeitos que lhe interessam. É o estilo fascista utilizado nas campanhas negras das guerras frias.
Basta ler, com atenção, essa pseudo-carta para se perceber que o crápula conhece bem as funções da polícia municipal, da multa das motorizadas, das obras públicas feitas no Concelho e mostra (como convém!) a sua hipócrita preocupação com a queda de receitas camarárias.
Espantoso, sabendo-se do estado de bancarrota em que estava a Câmara numa outra legislatura!
Não será difícil encontrar o seu autor e entrega-lo à Justiça. Mas este problema das asquerosas cartas anónimas não pode ser só o do partido visado: tem de ser repudiado por todos os partidos que querem que a política tenha ética e que o Marco de Canaveses não seja terra onde os energúmenos podem andar à solta.
Como seria um gesto de elevado sentido político, se os partidos com candidatos honestos censurassem esta nojenta forma de fazer política? Todos temos de ser solidários contra a política do nojo, da campanha negra! Não se esqueçam do poema de Brecht:
Primeiro levaram os comunistas,
Mas eu não me importei
Porque não era nada comigo.

Em seguida levaram alguns operários,
Mas a mim não me afectou
Porque eu não sou operário.

Depois prenderam os sindicalistas,
Mas eu não me incomodei
Porque nunca fui sindicalista.

Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres, mas como
Nunca fui religioso, também não liguei.

Agora levaram-me a mim
E quando percebi,
Já era tarde".


domingo, julho 16, 2017

 

Um enriquecedor debate!


A comunicação do Eng Rui Sá, Sábado, no auditório municipal, a convite da Associação dos Amigos do Marco, proporcionou um debate intenso e enriquecedor sobre as questões autárquicas. A presença de três candidatos à autarquia (PS, PSD e CDU) foi a demonstração de que esta Associação Cívica tem razões para se orgulhar de servir a sua Terra, promovendo debates para se encontrar as melhores ideias que sirvam a orientação de um melhor futuro do seu Concelho.

A política antes de ser uma questão dos partidos é, desde o tempo dos gregos, um problema do exercício da cidadania. E, em tempos de grande desilusão dos partidos, o exercício da cidadania é a grande âncora onde se pode segurar a democracia. Foi agradável ver os candidatos à presidência do município presentes e participaram no debate. É significativo que os candidatos que apareceram e participaram no debate sejam, todos eles, naturais e residentes no Marco de Canaveses. De facto, só quem sente como sua a Terra onde nasceu, cresceu e fez amigos pode estar interessado em encontrar as melhores ideias para orientar a gestão da autarquia para onde se candidata. E isso marca a diferença entre um candidato e o que procura, através das eleições, um emprego político

No próximo dia 29 teremos o último debate deste ciclo, donde esperamos que saia uma carta cívica de compromisso para apresentar aos candidatos à Autarquia interessados.

sexta-feira, julho 14, 2017

 

Debate, amanhã, Sábado

Apareça!
in: JN
Foto de Antonio Ferreira.

segunda-feira, julho 10, 2017

 

Convite


Como seria gratificante, se os marcoenses que fazem parte ou não das listas dos diferentes partidos à Autarquia do Marco, aparecessem neste debate O Eng. Rui Sá foi vereador da Câmara do Porto e é professor universitário. Por toda a gente, mesmo entre aqueles que nada têm a ver com o seu partido, consideram-no um académico sabedor,  um político de convicções e um homem de diálogo.

Apareçam!

A democracia é, por excelência, uma forma de agir pela palavra.

Enriqueçam este debate!

sexta-feira, julho 07, 2017

 
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quarta-feira, junho 28, 2017

 

Debate na AACMC


Em democracia não há outra forma de lutar por uma sociedade melhor, senão pelo uso da palavra. Usar a palavra significa expressar ideias que reflectem convicções que configuram uma forma de ver a vida, o homem, a sua relação com os outros e o mundo. As melhores convicções são as que se sujeitaram ao confronto com outras ideias e receberam as contribuições da melhor reflexão. Uma palavra que não é a cópia de uma convicção, que não leva consigo uma ideia, que não traduz o que foi reflectido, é uma palavra vazia. Costuma-se até dizer: “fala muito, mas é vazio de ideias, é um papagaio, um parlapatão, um palavroso”. Os debates servem para promover confronto de ideias, apurar as melhores. E as melhores são sempre as que contribuem para um mundo mais justo.

Este debate com o Dr. Pedro Soares é mais uma oportunidade oferecida a todos os marcoenses pela AACMC, independentemente do partido a que pertencerem, para uma reflexão e confronto de ideias.

No dia 21 teremos o terceiro debate, no mesmo local, pelas 15h, com o Eng Rui Sá do PCP e, para terminar, no dia 29 do mesmo mês, teremos uma reflexão sobre espaço público, centralidade e comércio vivo com o Prof. Dr. Carlos Silva da U.M e o Antropólogo Dr. Fernando Matos Rodrigues, entre outros.

Apareça e traga um amigo, também!

segunda-feira, junho 26, 2017

 

Não digam que não Vos avisamos!


Estou preocupado, como muita mais gente que é marcoense e gosta da sua Terra! Sabemos que  isso pouco interessará aos do politicamente correto. Mas, porque o Marco de Canaveses é a nossa terra, a terra onde nascemos, crescemos e fizemos amigos, temos razões de coração, as que brotam dos caminhos, ruas e  locais que contam estórias da nossa vida, para tomarmos posição cívica nesta hora de proximidade de eleições.

Pessoalmente, sinto que talvez ainda haja quem se lembre de como a minha vida, desde muito novo, se prendeu á minha Terra, dos retiros que promovi no Convento de Avessadas, numa altura em que era fervoroso cristão; dos piqueniques que organizava nas margens do Rio Tâmega, onde aparecia o saudoso Dr. Aires Querubim; das récitas nos bombeiros, do tempo em que presidi à sua direcção, das actividades culturais e recreativas que promovi, desde a primeira descida em canoa do Rio Tâmega aos debates com Dr. Daniel Bessa e o saudoso Dr. Salgado Zenha; da colaboração com o saudoso Dr. Horácio na Promarco e ultimamente, há cerca de 19 anos, da luta que a Associação dos Amigos do Marco travou contra a prepotência, o arbítrio e o buraco negro da democracia em que se tinha tornado o nosso Concelho. Poucos saberão dos telefonemas  anónimos, ameaças e outro género de perseguições que muitos dos que estavam nessa Associação sofreram. Mas conseguimos abrir a porta para o actual presidente da Câmara, embora pareça que não o tenha notado! É certo que depois de muita insistência, conseguimos que a autarquia cedesse um espaço para sede da nossa Associação Cívica e fizemos do presidente da autarquia nosso sócio.

Tudo isto nos dá alguma moral para fazermos esta reflexão.

O lema da Associação dos Amigos do Marco foi sempre este: “Sem cidadania não há democracia”. E só há uma maneira em democracia de exercer a cidadania: é tomar a palavra para dizer o que está certo ou errado. Em democracia há o contraditório e nada do que se diga pode ser declarado intolerável. E quando isso acontece, a democracia está perdida.

Recentemente foi publicado “Os inimigos íntimos da democracia”  de Tzevetan Todorov, discípulo de Roland Barthes. É um livro que vale a pena ler.  Acusa como principal inimigo da democracia a ideia de que só a economia deve dominar a vida social. 

Quem assim pensa esquece que o cidadão tem uma vida psicológica e afectiva que faz parte da vida democrática. É por ela que sente pertencer a uma comunidade e ganha a dimensão de político. Tratar os cidadãos como meros instrumentos da produção de riqueza é não perceber o que é a democracia.

Os inimigos íntimos da democracia desprezam a representatividade como essência da democracia. Sem nos sentirmos representados em quem escolhemos, não podemos confiar em quem escolhemos. Representar os eleitores é ser capaz de compreender os profundos anseios das populações e dar-lhes resposta. É o povo o real titular do poder político que o delega em quem o possa representar. Os “políticos de aviário” não percebem isto e, por isso, o descrédito da partidocracia!

Hoje, reduziu-se a política a um mero espectáculo, centralizado numa só pessoa, egocêntrico. Até nas medalhas que, a granel, são distribuídas nos aniversários das autarquias não há a preocupação de interpretar um reconhecimento social de virtudes democráticas. O que parece imperar nesse gesto é o ego de quem as coloca no pescoço dos medalhados, parecendo querer-lhes dizer: “vejam como “eu” vos dou importância! Não se esqueçam de retribuir com a admiração que me devem!”

Talvez por isso, já ninguém se lembra dos medalhados do ano anterior e, assim, se vai banalizando uma cerimónia que antigamente tinha sentido e hoje se perdeu!

Tudo isto tem a ver com a profissionalização da política, com a completa desvinculação dos que são eleitos à comunidade que os elege. Alguns até nem são da terra, são atirados para um concelho como os mercenários eram atirados para uma guerra.

Autarquia significa o governo dos próprios pelos próprio e a perversão da democracia aconteceu logo que foi alterada a necessidade dos candidatos terem nascido ou serem recenseados nas autarquias a que concorrem.

Estamos à beira de mais um ato eleitoral: as autárquicas! A desilusão tem crescido e as divisões internas de alguns  partidos que concorrem no Marco tornam previsível uma enorme abstenção. Dizem-nos que as sondagens já o confirmam.

A abstenção não se combate com apelos ao voto, mas com a credibilidade dos candidatos, a capacidade dos partidos apresentarem listas que formem uma equipa reconhecida pelas suas virtudes políticas de honra, fieldade e ligação à sua terra. Mas para isso é preciso que o candidato seja capaz de resistir à pressão dos jogos de interesse que o obrigam a colocar ao seu lado quem lhe vai retirar a credibilidade que tem.

No meu entender, só a candidatura do PCP e a do BE, (se houver!), não sofrem essa pressão. Geralmente estas candidaturas são formadas por personalidades generosas, que fazem um sacrifício em serem candidatas. Personalidades geralmente de grande prestígio profissional (não são políticos de aviário), mas que o eleitorado, por preconceitos, não vota nelas. Falta-lhes a base social de apoio que lhes permita ganhar as eleições. E é pena, porque nas autarquias que gerem, têm sabido corresponder às expectativas dos seus eleitores.

Quem se disponibilize para servir como autarca uma terra, não pode aceitar que empurrem para a sua equipa os videirinhos, os chico-espertos, os que não dão garantias de espírito de serviço, que andam sempre á procura dos ventos de feição e só querem os primeiros lugares de uma lista pelos proventos que isso possa dar a si e à sua família. O candidato que não contrariar a pressão destes arrivistas cria a incredibilidade que favorece a abstenção e, com esta, pode acabar por dar a vitória ao paraquedista, ao candidato que cai numa terra para colher os votos dos desiludidos, dos que dizem: “vamos dar oportunidade a este que é diferente”.

Pertenço a um grupo de marcoenses que gosta da sua Terra e, por isso, fiz, em nome deles, esta reflexão. Espero que tenha valido a pena! De qualquer forma, não digam que não Vos avisamos!

João Baptista Magalhães

Sócio nº 1 da AAMC

terça-feira, junho 20, 2017

 

Pedrógão do sofrimento!

Já chegaram os vampiros, sentam-se à mesa da desgraça, fazem-se passar por aquilo que não são. E logo chegarão mais, virão para fazer contas á tragédia! Precisa-se de ar, mas os abutres vão fechando as janelas.
Que se pode dizer a quem perdeu os filhos, toda a família? O que foi de errado já nada conserta! Que lhe interessa uma ministra que fala sem olhar para quem a interroga, que lhe interessa que António Costa diga o que lhe convém dizer sem deixar que a pergunta incómoda possa aparecer? Que importa as edições especiais dos telejornais, chamando os mórbidos dos papalvos para o espectáculo da morte e do sofrimento, se o pesadelo se colou à vida de quem sobreviveu?
Amanhã será para muitos um outro dia, mas o silêncio dos mortos ficará para sempre nos soluços da grande noite, a que sucedeu para sempre à tragédia daquele dia.
Muitas promessas serão feitas, muitas coisas garantem serem corrigidas, muitos se cobrirão de glória sem que a mereçam, haverá quem enriqueça sentado na tragédia, mas tudo isto e muito mais que irá acontecer vai resvalar na indiferença de quem já não consegue desprender-se da noite, pesada noite, que nunca mais se transfigurará em esperança: uma imensa incredibilidade será a mortalha da vida dos que sobreviveram à estrada da morte.
Para quê dizer-lhes que estou solidário, que sofro com eles, se nada disto pode secar as lágrimas dum sofrimento horrível?

segunda-feira, junho 19, 2017

 

Os problemas ambientais não são só os da poluição. Sinto que é maior o da depressão para onde nos atiram. Esta ideia de transformar o sofrimento, a morte, o absurdo da vida num espectáculo televisivo atinge os mais sensíveis, os mais solidários, os melhores entre nós. Deveria haver regras para controlar esta obscenidade do reality Show que, sem pedir licença, entra dentro das nossas casas. Isso constrói e faz crescer as depressões. Soube há pouco que se matou um filho de um bom amigo. Sinto-me atirado para o silêncio do coração. Espero lá conseguir ouvir as asas dos anjos

sexta-feira, junho 16, 2017

 
Rui Rio encheu o auditório Municipal do Marco de Canaveses. Falou, a convite da Associação dos Amigos do Concelho, sobre “Economia e desenvolvimento regional”.
Pode-se discordar do seu ponto de vista, do seu paradigma de análise, mas é inquestionável o seu rigor, a sua coerência, a limpidez do seu discurso e da sua postura política. Pôs o dedo na ferida da democracia: os poderes fátuos, os lóbis que desprezam o interesse-comum. E chamou a atenção para a necessidade de profundas reformas, que permitam uma melhor representatividade dos cidadãos. Defende a regionalização, não apenas como descentralização de poderes, mas como forma de uma melhor representatividade política, que torne possível resolver a uma escala local o que continua a depender desnecessariamente do poder central. Muitas perguntas lhe foram feitas, o que revela o interesse da sua comunicação e significa que abriu portas para o confronto de ideias. A democracia é isso: debater ideias para encontrar as que melhor poderão servir o País e, sobretudo, diminuir o sofrimento dos que mais sofrem. Não há outra forma para a luta política em democracia.
A democracia tem os seus próprios inimigos: os que fazem dela um mero espectáculo, as figuras queirosianas, espécie de conselheiros acácios, que enchem a boca com os seus “notáveis” feitos de uma mão cheia de nada. E ainda, os fundamentalistas, os que acham que o único pensamento de “ciência certa” é a dos ocasionais directórios dos seus partidos.
No auditório via-se gente de todos os partidos, mas com a exceção do Eng. Mota, partido do Dr. Rui Rio, mais nenhuma candidato ao Concelho do Marco se encontrou. É pena que ainda se pense que nada se tem a aprender com o pensamento divergente! O pensamento único ou de conveniência continua a perverter a democracia.
Esta conferência foi a iniciação de um ciclo, onde contamos dia 8 de Julho com o Dr. Pedro Soares do BE, no dia 15 do mesmo mês, com o eng. Rui Sá do PCP e terminará com o FASE (Forum ambiente, sociedade e economia) Prof Dr. Manuel Carlos Silva da U.M.e Dr, Fernando Matos. A Associação dos Amigos do Marco já subscreveu o manifesto do Forum e estará representada pelo seu Presidente amanhã no seminário que A FASE promove no Porto.



terça-feira, junho 13, 2017

 

Ciclo de Conferências

A Associação dos Amigos do Concelho do Marco promove no Auditória Municipal o seguinte ciclo de conferências, sobre o tema: “A economia, o desenvolvimento regional e as autarquias”

Dia 15 de Junho 21 h. Rui Rio (PSD)“A Economia e o Desenvolvimento Regional

Dia 08 de Julho 16 h. Pedro Soares (BE) “O Desenvolvimento Regional e as Autarquias

Dia 15 de Julho, 16 horas (Rui Sá (PCP) “O desenvolvimento Regional e as Autarquias”

Está-se a fazer diligências para encontrar personalidades ligadas aos partidos com representação parlamentar que faltam.
Terminará o ciclo, em dia e hora a combinar, o Presidente do FASE (Forum Ambiente, Economia e Sociedade). A Associação dos Amigos do Concelho do Marco subscreveu o seu manifesto.

segunda-feira, junho 12, 2017

 
Não há outra forma! Em democracia só pelo debate de ideias podemos encontrar as melhores soluções para os problemas da nossa vida colectiva. E debater ideias não é ouvir o que já pensamos, mas confrontar as nossas razões com as razões dos outros. Este papel coube, desde a sua fundação, há 19 anos, a Associação dos Amigos do Concelho do Marco de Canaveses.
Na próxima quinta-feira, dia 15 de Junho, pelas 21 horas, no Auditório Municipal, teremos o primeiro de um ciclo de debates sobre o tema: "Economia e desenvolvimento regional".
Será palestrante o Dr. Rui Rio, ex-Presidente da Câmara Municipal do Porto e figura de relevo do PSD - Partido Social Democrata.
Seguir-se-ão outros debates, estando já marcado para dia 08 de Julho, um outro, com Pedro Soares do BE. Oportunamente anunciaremos os restantes.
Não perca! Apareça! Um cidadão marcoense bem informado, defende melhor os seus interesses e os interesses da nossa vida colectiva.


terça-feira, maio 16, 2017

 

Forum por um futuro solidário


 

Treze de Maio, uma aparição abandonada em S. João da Folhada



Em tempos chamavam-lhe Senhora da Lapa, mas, agora, chamam-lhe Senhora da Aparecida. A lapa era um grande penedo no vocabulário da gente da Folhada. Mas também pode significar um enorme pesadelo que faz do dia-a-dia um tormento, ameaçando pelo medo o sentido da existência.

As aparições têm sempre a ver com respostas a dramas existenciais. São visões que incorporam a realização de um desejo gerado pelo imaginário colectivo. Precisamos de uma divindade, quando os demónios andam à solta.

Foi isso que aconteceu em S. João da Folhada no dia 13 de Maio de 1757. Nas fraldas da Serra da Aboboreira, nos limites da freguesia de S. João da Folhada com Várzea de Ovelha, apareceu Nossa Senhora a três pastorinhas.
A  memória colectiva nunca esqueceu esta aparição, como testemunha a muito antiga capela  construída sobre o bojo do penedo, onde Nossa Senhora apareceu. Foi só preciso que um manuscrito esquecido na Torre do Tombo viesse dar vida a um abandonado santuário. 

Nesse manuscrito, conforme é divulgado na obra “As Freguesias do Distrito do Porto nas Memórias Paroquiais de 1758”, afirma o, então, Abade de S. João da Folhada, José Franco Bravo:

 Nos limites desta Freguesia, quase nos seus confins, do lado poente e sul a confinar com a Freguesia de Várzea de Ovelha, nas fraldas dos grossos e ásperos matos da serra da Aboboreira, na parte do Sul, num cabeço do dito monte, no dia 13 de Maio de 1757, quase uma hora antes do pôr do Sol, andando três criaturas de idade menor, de menos de 12 anos, apascentando umas ovelhas no tal sítio chamado o Outeiro do Preiro, sem que nada vissem, ouviram uma voz que as chamava, cada qual pelo seu nome. Duas chamavam-se Maria e uma Tereza. Ao virarem o rosto, viram sobre umas ásperas pedras uma mulher encostada às altas fragas, de mediana estatura, mas de tão brilhante e resplandecente rosto que ficaram admiradas e logo lhes pareceu não ser mulher desta terra. Aproximando-se dela, ainda que um tanto surpreendidas de verem tal mulher e em tal sítio, foram por ela acolhidas com afagos, convidando-as a aproximarem-se. Entretanto, advertiu-as que deveriam saudá-la. Pegou na mão de uma, a que tinha ar de mais inocente, e á outra, retirou-lhe um rosário que trazia ao pescoço e lançou-o ao céu, enquanto com elas falava. À terceira, que era mais adulta, repreendeu-a do vício de falar do demónio. A todas disse que, chegando aos locais onde residiam a todos pedissem que jejuassem a pão e água nas primeiras Sextas-Feiras e Sábados. E que o mesmo pedido fosse feito a toda a gente que encontrassem ou com elas falasse. Uma das crianças, a mais faladora, perguntou-lhe quem era. Respondeu-lhe que depois de cumprirem o que lhes pedira e de fazerem uma romaria durante nove dias contínuos ao redor daqueles penedos em louvor de Nossa Senhora lhes diria quem era. E as três meninas cumpriram o que lhes foi pedido. E mal deram a notícia, apareceu logo muitas pessoas, umas de perto, outras de longe, e todas consideraram que o acontecimento era um milagre.”

E o Abade da Folhada, continuou: O que eu vi e observei, dei conhecimento ao mui Reverendíssimo Doutor Provisor deste bispado e pedi-lhe que mandasse averiguar o caso judicialmente. O referido senhor ordenou que fosse eu a observá-lo com prudência e que nada fosse desprezado. E empenhando-me a averiguar o melhor que pude e a colher o que os outros diziam, não encontrei, até ao presente, ninguém que contrariasse o que foi dito. Pelo contrário, encontrei pessoas muito fidedignas que me disseram ser um milagre, quando de noite, algum tempo atrás, se viu uma luz, no tal sítio, na véspera da Ascensão de Nossa Senhora de Agosto. Essa luz, que apareceu quase à meia-noite, era tão resplandecente que asseguram se podia ler uma carta à sua claridade à distância de quase meia légua. Nunca se tinha observado tanta luz. Além deste e outros testemunhos que recolhi, verifico que desde o ano passado ocorrem alguns milagres e o maior é a multidão de gente que continuamente ocorre para aquele sítio. Por consideração com o culto e devoção dessa gente, mandei colocar naquele sítio uma estampa de Nossa Senhora da Lapa e uma cruz de pau.”
O caso terá posto em sobressalto toda a gente da Folhada e das paróquias vizinhas. A partir de 13 de Maio de 1757, sob a inclemência do tempo, multidões acorriam à lapa do Outeiro do Preiro, vindos de diferentes partes da região, orando e fazendo penitência.  Acreditavam que aquelas três meninas da Folhada, filhas de gente muito pobre,  souberam acolher a mensagem que só do Céu, de Nossa Senhora, podia aliviar o pesadelo que afligia as suas vidas e abrir horizontes de um mundo melhor.

Para essa multidão de devotos, as circunstâncias dessa Aparição não poderiam ter maior significado: eram pobres e sentiam que, no mundo em que viviam, só Nossa Senhora os poderia salvar do abandono a que estavam votados, aliviar do pavor a sua vida e protegê-la da fúria das políticas do Marquês do Pombal.
No íntimo de cada peregrino, talvez existisse a convicção de que Nossa Senhora havia escolhido aquela enorme lapa para aparecer às três pastorinhas por ser a metáfora perfeita da dimensão do pesadelo que lhes esmagava o coração.

Por isso, cada peregrino regressava mais feliz a sua casa e nas terras por onde passava, ao descrever a felicidade que trazia, atraía mais peregrinações ao Outeiro do Preiro. Todos confiavam que Nossa Senhora lhes abrisse um rumo de vida diferente e essa crença alimentava as vantagens do sacrifício que faziam.
É nesta circunstância que o sagrado (Nossa Senhora) irrompe no profano para desobstruir o absurdo do mundo sem sentido e criar esperança num mundo melhor.

Mas esta hierofania não pode acontecer em mentes complicadas, que não são capazes de ”re-ligar”, unir pelo interior de si mesmo, o humano ao divino, o sagrado ao profano. Precisa de almas descontaminadas pelos preconceitos mundanos, almas puras que não complicam o que há de mais belo na vida do espírito: a contemplação do próprio espírito configurado numa divindade, seja  Nossa Senhora ou outra.

Há muitos pontos de encontro entre a aparição de Nossa Senhora da Lapa, em 1757, e a aparição de Nossa Senhora, em 1917, na Cova da Iria.


A Senhora da Lapa apareceu dois anos depois de catástrofe provocada pelo Terramoto de Lisboa que destruiu grande parte da Cidade,  deu origem a um devastador incêndio causado pelas velas que nesse dia, dia de todos os santos, estavam acesas nas igrejas de Lisboa, provocou milhares de mortos, criou o pânico e gerou medos na vida do povo. Em S. João da Folhada a torre-solar da Quinta do Vinhal desmoronou-se.

A dimensão dessa catástrofe foi tanta que dela houve notícia em toda a Europa, causando perplexidades e provocando um grande debate filosófico, científico e religioso sobre as suas causas e as suas repercussões. Até o Filósofo Kant escreveu sobre o assunto. E foi, nessa altura, que apareceu a sismologia.

Para a gente amedrontada da Folhada o Terramoto só poderia ser um castigo divino. E isso não poderia ser dito, porque contrariava a vontade do Marquês do Pombal. Todos os que assim julgassem eram atirados para as prisões e ficavam aí esquecidos até que a morte os levasse.

Mas, a verdade é que, depois da Restauração de Portugal, à luz dos ensinamentos cristãos, nunca teria havido tantos pecados como os cometidos pela luxúria de D. João V, pela vida depravada do seu filho, D. José, e, agora, pela húbris do seu secretário, Sebastião José de Carvalho e Mello, que não olhava a meios para assegurar as suas desmedidas ambições.

E vinha à memória da gente da Folhada o que contara o recoveiro a quem se confiava as mercadorias que iam ou vinham do Porto. Dera notícia de acontecimentos horrorosos que, logo a seguir, eram confirmados por familiares de taberneiros da cidade do Porto. O que tinha acontecido era terrível!... Quando, no Porto, em 23 de Fevereiro de 1757, os taberneiros e pequenos agricultores fizeram repenicar os sinos da Sé e da Misericórdia para anunciar a sua revolta contra o monopólio dos vinhos, José de Carvalho e Mello esmagou o motim com a ocupação militar da Cidade, a decapitação dos revoltosos, açoites, galés e confiscação de bens a outros envolvidos.  Diabolizou os jesuítas e os Távoras, acusando-os de serem os instigadores do tumulto. E não lhe bastando toda esta crueldade, criou um imposto só para os portuenses para serem eles a pagar os custos com as tropas que vieram de Aveiro para esmagar no Porto o motim.
Em 1917 também se vivia um contexto de pavor semelhante. Depois de oito séculos em que a Igreja católica era a religião oficial do Estado, a República não se limitava a ser laica como parecia hostilizar a religião católica. Apareceu a Carbonária que, perseguindo e enxovalhando padres, freiras e frades, criava o terror nas manifestações religiosas.
A separação radical entre o poder civil e o poder religioso dividia ao meio a gente simples do povo.

Somava-se a tudo isto os dramas que, desde 1914, a Primeira Grande Guerra causava em todas as famílias e os receios que iam surgindo de que uma Revolução na Rússia pudesse soltar ainda mais demónios.
O mundo da vida dos crentes estava dominado pelo pavor. Precisavam que o mundo do espírito lhes abrisse um sentido para a existência.

É neste contexto, muito semelhante ao vivido no séc. XVIII, que Nossa Senhora aparece na Cova da Iria, em Fátima, também a três pastorinhos.

Nas imanências mais dolorosas há sempre a procura da transcendência. Mas não é esse “re-ligare” que constitui a própria natureza da religião?

E sendo, assim, perguntamos: Por que Fátima ganhou o esplendor que falta à capelinha da Senhora da Lapa, sendo as circunstâncias semelhantes?!...
Talvez à Igreja do tempo de Salazar conviesse o que não convinha à do tempo do Marquês do Pombal. Mas não é a conveniência dos governantes, das ideologias ou mesmo das instituições que podem desvalorizar o que um dia terá dito Dostoiévski: “Precisamos de Deus, quando a vida está submetida aos impulsos dos demónios.”

É do transcendente que se trata e não da instituição que o representa. Parece que é isto que o Papa Francisco quer dizer, quando diz que vem a Fátima como peregrino e não como Chefe da Igreja.
Ainda bem que temos um Papa que vem de um outro mundo!!!

Maio 2017

João Baptista Magalhães

Obs: no próximo texto escreverei sobre a Quinta do Burgo no caminho de José Policarpo de Azevedo, acusado pelo Marquês de tentativa de regicídio.

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