terça-feira, setembro 11, 2018

 
 Apareça e traga consigo mais um amigo!

segunda-feira, setembro 03, 2018

 

Seguir os bons exemplos como forma de os dignificar!



Estou de acordo com D. António Marto, que admiro e de quem sou amigo. Mas o ataque ao Papa Francisco não é só feito pela carta ignóbil de um ex-núncio ou por outras difamações, mas também por práticas que nas dioceses contradizem a postura do Papa, com a falta de diálogo e até de avaliação humana do trabalho de alguns sacerdotes. Estou-me a lembrar da forma como foram corridos alguns padres na diocese do Porto das direções de colégios, nomeadamente o Padre Clemente do Colégio de Amarante. A Igreja do Papa Francisco deveria seguir o seu exemplo e ser una no modo de ver a vida, os homens e o papel da formação intelectual e humana dos seus colégios. É, de fato, perturbante que se possa pensar que um colégio diocesano tem de dar lucro e que uma administração que não os apresente seja demitida de forma pior do que há quem demita uma funcionária de limpeza. O padre Clemente parece estar com residência fixa, não podendo passear no colégio nem falar com professores ou alunos! E estranho que, sendo Amarante, uma terra de gente solidária e de ideias liberais, ainda não tenha levado a cabo uma manifestação de solidariedade para com o diretor do seu Colégio, sabendo-se que foi sempre muito admirado e estimado entre os amarantinos! Sabe-se que ele não quer, mas isso não tira que se faça um almoço da sua despedida do Colégio - e isso já era um sinal de apoio, numa altura que se sabe que o padre Clemente tem sofrido com esta situação!

sexta-feira, agosto 10, 2018

 

Dia do Concelho do Marco de Canaveses-Dia de Nossa Senhora do Castelinho

Poucos concelhos terão na sua origem uma história tão próxima da natureza humana, tão configuradora da ideia de segurança, de transcendência e bem-estar, como o Marco de Canaveses.

No dia 3 de janeiro de 1852 faleceu o sargento-mor das milícias do julgado de Bem-Viver, José Joaquim de Abreu e Lemos, fidalgo do solar de Carrapatelo. Era dia de feira no lugar do “Marco”, assim chamado pela pedra (marco) que aí limitava dois coutos que vieram a dar origem às freguesias de Fornos, S. Nicolau e Tuias. Por se situar numa planura e no limite das comarcas de Canaveses, Tuias e Soalhães era nesse espaço que se realizavam famosas feiras nos dias 3 e 15 de cada mês. Também foi nesse local que se levantou a Casa Municipal do Concelho de Soalhães e mais tarde, depois da fundação do Concelho do Marco o  edifício da sua Câmara Municipal.


A morte do Fidalgo de Carrapatelo foi notícia na Feira que se realizava nesse dia. Um tal Vinagre, que fazia comércio de azeite e de outros géneros, estava com alguns problemas financeiros e sonhou logo com o “golpe”. Levou a nova ao José e ao António, morgadinhos de Canaveses (filhos de um fidalgo falido) que já haviam colaborado com o Zé do Telhado. Os três avaliaram as vantagens do assalto à casa do Fidalgo e os morgadinhos levaram a sugestão ao Zé do Telhado. Ficou combinado contratar gente de confiança que, no dia 7, se encontraria, à meia-noite, numa corte situada junto à capela de S. Braz, em Fandinhães, Paços de Gaiolo, para planear o assalto que se realizaria no dia seguinte. (foto da capela)

 
Acertadas as incumbências de cada um, no dia 8, ao princípio da noite, a quadrilha, que comportava cerca de 30 homens, capitaneada por Zé do Telhado, partiu para o roubo. Por volta das nove horas forçaram a porta da cozinha e penetraram no Solar. O Zé do Telhado obrigou D. Ana Vitória, filha do Fidalgo, a entregar-lhe todos os valores que seu pai lhe tinha deixado. Entretanto outros elementos da quadrilha iam roubando as peças
de ouro e prata que as senhoras que, nessa altura, estavam no Solar traziam. O pior, foi terem morto a tiro o criado João Carvalho que se opôs à entrada da quadrilha. Tudo isto criou uma tremenda insegurança e manchou a dignidade do povo desta terra. O Sr. Adriano da Picota, como era conhecido o deputado e administrador do Concelho de Soalhães, jurou que prenderia Zé do Telhado, estivesse onde estivesse. Solicitou ao Governador Civil do Porto, Visconde de Podentes, um alvará que lhe permitisse entrar nos concelhos vizinhos para prender o salteador e a sua gente, o que lhe foi concedido. Simultaneamente envolveu os seus primos António Nogueira Soares, Afonso Joaquim Nogueira Soares e Rodrigo Nogueira Soares, notáveis personalidades do movimento da Regeneração, na necessidade de criar um concelho que agregasse as comarcas vizinhas por forma a desenvencilhar as autoridades dos empecilhos burocráticos, que não permitiam à justiça de uma comarca entrar noutra, sem autorização do seu administrador.

 Pelo Decreto de 31 de Março de 1852, D. Maria II satisfaz a vontade de Adriano José de Carvalho e Mello e cria o Concelho do Marco de Canaveses.
No artº 1º estabelecia: “São reunidos num só concelho, os concelhos de Soalhães e de Benviver”.  E no artº 2º dizia-se:  “O novo concelho passa a ser denominado Marco de Canaveses” e os seus habitantes marcoenses.



Adriano José de Carvalho e Mello era um devoto de Nossa Senhora da Natividade (protetora da maternidade e do aleitamento). A
 
Divindade terá aparecido num penedo do lugar conhecido por Castelinho onde se construiu, em tempos muito antigos, uma Ermida. Diz-se que no penedo ainda há marcas dos pés da Virgem, onde “não pega o musgo, nem a muinha”.

Um dos sonhos de Adriano José de Carvalho e Mello era transformar a Ermida num Santuário semelhante ao Bom Jesus de Braga (símbolo do sucesso da Restauração: libertação de Portugal do jugo espanhol), onde trabalhou, como como santeiro, um marcoense ilustre, Monteiro da Rocha, irmão de uma das personalidades mais famosas no sé. XVIII, o Padre José Monteiro da Rocha, astrónomo. lente na Universidade de Coimbra, natural de Canaveses. 

Já como administrador do Concelho  fundou, com esse sentido, a irmandade do Castelinho e procurou que a devoção à Nossa Senhora do Castelinho se tornasse num símbolo da proteção divina, da regeneração e do patriotismo. A cumprir essa intenção, ainda hoje os combatentes têm um encontro anual no Castelinho.
Faleceu, sem ver satisfeita a sua vontade de consagrar o Concelho do Marco de Canaveses a nossa Senhora do Castelinho.
As figuras do núcleo da União Nacional pretenderam tornar feriado municipal o dia 28 de Maio. Mas a política do governo tinha, como princípio,  fazer dessa data um feriado que representasse o espírito de corpo da nação e, por isso, tornou ilegal qualquer marcação de feriados concelhios nessa data.

No dia 22 de Setembro de 1949, o recém-nomeado presidente do Concelho, Dr. Cabral de Matos, dentro do espírito do Fundador do Concelho, faz aprovar em reunião da Câmara, a consagração do Marco de Canaveses a Nossa Senhora do Castelinho e é fixado o dia 8 de Setembro (dia da celebração religiosa), feriado municipal.
No dia 12 de Setembro de 1957, o ex-libris do Marco, o seu Jardim Municipal, recebeu, com pompa e circunstância, o busto do Fundador do Concelho, custeado por uma subscrição pública. Não era para ser aí colocado, mas em frente ao edifício da Câmara, como seria, por direito, o seu local próprio. Assim pensavam os marcoenses que defendiam que o Jardim Municipal, sendo pensado à imagem das “Cidades-jardim” (uma ideia romântica defensora do bem-estar e qualidade de vida) pelo presidente Dr. Cabral de Matos, notário no Concelho e natural de Mangualde, deveria honrar a sua memória, recebendo o seu nome.
Nas contendas políticas da altura ganhou a fação contrária a esta ideia. O busto de Adriano José de Carvalho e Mello foi, em festa, colocado no Jardim Municipal e a inauguração da obra do Dr. Cabral de Matos foi sendo adiada, acabando por ficar esquecida até ao nosso tempo, talvez para não lembrar o seu obreiro. Mas o Jardim, mesmo sem ser inaugurado, foi incorporando diferentes inaugurações, afirmando-se como uma das melhores referências do Concelho.

quarta-feira, julho 25, 2018

 

Pais da democracia?


Esta ideia do Prof. Dr. Marcelo, nosso Presidente da República e dos afetos, justificar a ida de Mário Soares e de Sá Carneiro para o Panteão (lugar dos deuses) por serem os pais da democracia, deixa-me perplexo!... Respeito muito esses senhores, mas chamar-lhes pais da democracia é que não me parece bem.A função edificante da história apareceu nos nossos primeiros livros, alimentou mentiras, criou mitos, fez nascer meias verdades, foi tendenciosa e predispôs-nos para ter como certo que a nossa pátria é a melhor de todas as pátrias, os nossos generais os mais valentes de todos os generais, os nossos governantes os que sempre tiveram razão e o nosso povo o que devia ficar-lhes sempre muito grato, mesmo que o espoliassem e muito mal o tratassem.
É com esta história que faz sentido os pais da democracia! Mas a História que nos traz os pais da democracia tem um efeito hipnótico! Faz luz só para um lado e deixa na sombra, rejeita ou atira para a escuridão do esquecimento a outra parte, a dos que morreram nas prisões, foram perseguidos, perderam emprego, deram as mãos em manifestações proibidas e criaram aquelas circunstâncias que fazem acabar com as ditaduras. Se eles não são os pais, são, pelo menos, as sementes que fizeram surgir a primavera da nossa vida coletiva. E não há pai para eles!
E os Capitães de Abril que, saturados de uma guerra sem fim, interpretando o sentimento das multidões que fizeram as manifestações perderam os filhos nas guerras e nesse dia subiram para os tanques bélicos, cravaram-lhes cravos e nas bocas das metralhadoras, ficarão órfãos?
http://www.tvi24.iol.pt/politica/marcelo-rebelo-de-sousa/marcelo-diz-que-sa-carneiro-e-mario-soares-merecem-panteao-sao-pais-da-democracia







sexta-feira, junho 22, 2018

 

Extrema-direita

Os meus amigos, uma grande maioria de esquerda, sempre que lhes falo do que está a acontecer no Sporting, respondem-me: “Isso é lá com eles!” Continuo a pensar que o que está a acontecer com esse clube é paradigmático do avanço da extrema-direita, que entra pelo futebol, que é, talvez, o grande palco dos políticos e da política. O caso Bruno de Carvalho deveria pôr-nos, a todos, a pensar. É um exemplo típico duma relação fascista, troglodita, entre um líder e os seus seguidores. Essa relação baseia-se em ressentimentos, medos, condicionamentos de emoções, num despotismo patriarcal que constroi inimigos! Nada, mesmo nada, tem a ver com princípios racionais, democráticos, respeito pelo normal funcionamento das instituições e até de civismo. O caso é mais perigoso do que muita gente pensa! Bruno de Carvalho não está sozinho: acompanham-no os que não acreditam na lei, nos princípios e nos valores democráticos. Bruno de Carvalho, com o seu autoritarismo troglodita, tornou-se o líder dos fora-da-lei. E estes são todos os cansados da democracia formal, feita de palavras e com pouca substância na resolução dos problemas dos mais marginalizados pelo poder. Não tenham dúvidas!!!

segunda-feira, abril 30, 2018

 

Viva o Primeiro de Maio!


Viva o Primeiro de Maio!

Vivam os trabalhadores que em Chicago no primeiro dia de Maio, em 1886, levantaram bem alto a luta pelos seus diretos, nomeadamente de 8 horas de trabalho diário. Honremos os que morreram nessa luta e todos os que ainda hoje são mortos por defenderem que não há trabalho sem direitos.

Hoje o capitalismo não é idêntico ao de 1886. Perdeu o rosto e tornou-se financeiro e global. Mas o trabalho sem direitos ou com poucos direitos regressou com os recibos verdes, o trabalho temporário, etc.

Precisamos de refletir sobre a miséria imerecida do nosso tempo! Os ideais do Primeiro de Maio precisam de se ajustar aos novos tempos do imperialismo financeiro global, que, num darwinismo social, torna os ricos cada vez mais ricos e em menor número e os pobres cada vez mais pobres e em maior número.

Comemorar o Primeiro de Maio sem uma reflexão sobre os novos problemas que se colocam ao mundo do trabalho é esvaziar o sentido deste dia. Oxalá que os discursos de amanhã não sejam tão longos como repetitivos. Oxalá que amanhã se honre a luta dos que deram dignidade a todos os que vivem do valor do seu esforço físico.

Viva o primeiro de Maio!

segunda-feira, abril 23, 2018

 

25 De Abril


A Associação dos Amigos do Concelho do Marco de Canaveses comemorou o 25 de Abril. Este ano, tivemos de fazer a festa no dia 21 de Abril. O Capitão de Abril Rodrigo Sousa Castro só podia estar entre nós neste dia. Depois de um almoço de convívio e do nosso capitão de Abril assinar o livro de honra da nossa Associação, decorreu a palestra no Auditório Municipal, com a presença do vice-Presidente da Câmara. É muito difícil falar desta comemoração, quando um Capitão de Abril nos faz sentir por dentro o seu testemunho, numa linguagem simples, sem floreados. Lembrou-nos alguns episódios completamente ignorados pela história da Revolução dos Cravos, nomeadamente da dificuldade em comunicar com o coronel Corvalho por avaria no intercomunicador de sua casa e dois jovens a quem dera boleia para Lisboa, solicitando-lhes que a essa hora da noite, duas da manhã, não o deixassem dormir. Serviu-se do powerpoint para nos dar conta dos febris passos que acompanharam o decorrer da noite de véspera, em que tudo deveria ficar pronto para que ao som da Grândola Vila Morena se abrisse o caminho da luz da madrugada de Abril, a que nos trouxera a afirmação da nossa dignidade colectiva, a democracia e nos permitisse perder o medo de usar da liberdade.

É difícil falar sobre esta comunicação do Capitão de Abril Sousa Castro, tão viva, confessando o desfilar de um sofrido sonho sem sono, que nos fez sentir a verdade imensa que há neste poema de Sophia.

25 de Abril

Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen

sexta-feira, abril 13, 2018

 

Comemoração do 25 de Abril


  1. A Associação dos Amigos do Marco, vai, como é habitual, comemorar o 25 de Abril.
    Este ano as comemorações vão efectuar-se no dia 21 de Abril (sábado) através de uma sessão solene a realizar no Auditório Municipal e que contará com a presença do Coronel Sousa e Castro, Capitão de Abril e Membro do Conselho da Revolução.
    É uma oportunidade para conhecer e conviver com um dos homens fortes do Movimento das Forças Armadas que em 1974 derrubou a ditadura de Salazar e Caetano e
    devolveu a liberdade ao nosso País.
    Antes da sessão solene, pelas 13h00 vai realizar-se um almoço comemorativo no Restaurante Magalhães, nesta cidade.
    A AAM CONVIDA TODOS OS MARCOENSES A ASSOCIAREM-SE A ESTE ACTO, QUE TERÁ ENTRADA LIVRE NO AUDITÓRIO MUNICIPAL A PARTIR DAS 16H00.

segunda-feira, abril 09, 2018

 


Convém não esquecer isto!


Comemora-se, hoje, o aniversário da Batalha de La Lys

Portugal foi para a Guerra para não perder as colónias cobiçadas, na altura, pelos ingleses e alemães. Escrevi com o saudoso amigo Coronel Virgílio Barreto Magalhães um livro sobre um nosso conterrâneo, combatente e médico nessa Grande Guerra: “Fernando de Miranda Monterroso, O Homem, O Herói e o Benemérito”.


Quisemos fazer a memória deste Homem bom pela seguinte razão: Este homem bom, herói de guerra e benemérito da nossa terra estava praticamente esquecido e até a sua foto tinha desaparecido do Asilo que a expensas suas tinha criado no Marco. Este Militar deixou grande parte da sua fortuna à Misericórdia do Marco e criou três bolsas de estudo, que serviram de exemplo a que outras fossem criadas pela autarquia.


Sobre a Batalha de La Lys, deixamos escrito o seguinte:” Esta incursão (dos alemães), desenhada numa situação de desespero, teve como seu arquitecto, o General (alemão) Erich Ludendorff. Concebeu-a para ser em grande escala, aterradora, feita de rompante, em massa e numa altura que pudesse surpreender o lado mais frágil das tropas luso-inglesas que ocupavam a Flandres. Deu-lhe o nome de “operação Georgette”, e entregou o seu comando ao General Ferdinand von Quast.


Esse lado era o que estava a cargo das tropas portuguesas, praticamente abandonadas por Portugal, depois do golpe de estado, com que Sidónio Pais tomou conta do poder, prendendo Afonso Costa, chefe do Governo, e exilando o Presidente da República.

(…)

Por volta das 4h15m da madrugada desse dia, arrancou, de surpresa o ataque. Mais de um milhar de bocas de fogo dispararam sobre a frente ocupada pelas tropas portuguesas e o seu impacto foi sentido como um terramoto horrendo e inimaginável, abrindo crateras com mais de 20 metros de diâmetro que engoliam soldados e armamento.


Este ataque intenso, massivo e em profundidade foi feito com oito Divisões (cerca de 55mil homens) numa primeira linha, cinco na segunda e três na terceira. Teve como alvo o 11º Corpo Britânico e o CEP que, como sabemos, ocupavam uma área de 55 km de frente, entre as localidades de Gravelle e de Armentiére. Mas o grosso do ataque fez-se contra o sector considerado mais débil, o ocupado pela 2º Divisão das tropas portuguesas.



A resistência em linha, como era a das trincheiras, sem capacidade de mobilidade, cedeu e as forças alemãs romperam o flanco esquerdo da defesa portuguesa, onde se fazia a ligação entre as forças das tropas comandadas pelo general Gomes da Costa e as forças britânicas da 40ª Divisão.

(…)

Por volta das 8h30m já não havia praticamente combatentes portugueses na primeira linha e a “avalanche” avançou como um rolo compressor sobre a linha B, atingindo rapidamente a zona das aldeias. Tudo foi feito com violentíssimos bombardeamentos de artilharia e ataques de gás que destruíram a 1ª e a 2ª linha de infantaria e cortaram as comunicações telefónicas e telegráficas.

As explosões de granadas e obuses passaram a atingir os comandos das brigadas, as posições da artilharia da Segunda Divisão do CEP, inclusivamente o seu Quartel-general.

A “chuva de metralhada”, como lhe chamou Augusto Casimiro (um poeta com o posto de capitão, natural de Amarante) no seu livro “Calvário da Flandres”, arrasou tudo e todos. O intenso fogo, o bombardeamento dos aviões e as granadas de gases foram pondo fora de combate milhares de militares.

Apesar da resistência heroica, foi impossível aos soldados portugueses, sem reforços, suster aquela “avalanche” de “boches”, com melhor armamento e em quantidade abissalmente superior.

Quem não morreu nem se entregou, entrou em pânico numa fuga desesperada e sem norte. Em apenas quatro horas de batalha, o general Costa Gomes perdeu 7.500 soldados, entre os quais 327 oficiais e cerca de 100 peças de artilharia.

A própria coordenação dos serviços de saúde tornou-se impossível. Não se conseguia formar uma coluna automóvel de transporte de feridos: o fogo inimigo tinha destruído a maioria dos veículos e os que restaram estavam avariados.

Neste contexto, o Cirurgião-Médico, Dr. Fernando Monterroso, mais uma vez, demonstrou ser um oficial corajoso, proficiente e determinado. Podia-se dizer dele o que disse Ferreira do Amaral (um oficial de carreira que também tinha estado em África e comandou na Flandres os soldados de infantaria de Tomar, Faro e Penafiel) numa indirecta aos oficiais pretensamente patriotas: “Não resolvi ir de repente, no entusiasmo dos vivas e excitado pelo som dos clarins e trombas da guerra, mas por dever de militar".

Nessa altura, Fernando Monterroso, chefiava os Serviços de Saúde da 2ª Divisão sediado em Lestrem e recebeu ordem do comando do XI Corpo do Exército Britânico para se deslocar para Saint-Venant.

Como não conseguiu transporte para essa deslocação e é informado que não há garantias para que em tempo oportuno o consiga, fê-lo a pé e envidou todos os seus esforços para reunir todos os que foi possível encontrar feridos, desorientados ou em debandada.

(…)

Como reza a justificação para ser galardoado com a medalha da “Batalha de La Lys”, a sua decisão salvou muitas vidas, foi considerada heróica e contribuiu para levantar o nível moral das tropas”.

A catástrofe de La Lys, com as suas consequências, as inúmeras perdas de combatentes e humilhações sofridas, transformou-se num pesadelo que fez esquecer no CEP todas as glórias do passado recente na Flandres. E elas não foram poucas!...

(…)

Este sentimento de frustração gerava mágoas profundas, de difícil cura, que eram sempre acompanhadas de queixumes: nas cantinas, nos gabinetes, em todos os locais onde conviviam combatentes, não faltava o dedo acusatório virado para Sidónio Pais, para os “cachapins (os beneficiados da guerra), os ingleses e os oficiais que aproveitavam vir de gozo de licença a Portugal e depois obtinham a desmobilização, com base no decreto nª 3959 de 30/03/1918, conhecido pela lei do “roullement”.



A substituição, ao fim de um ano, das tropas mobilizadas para a Flandres nunca aconteceu. O governo português de Sidónio Pais foi o único que, nas palavras do subchefe do estado-maior do CEP, coronel Ferreira Martins, “infligiu aos seus soldados o suplício intraduzível de lhes dizer que estão ali para sempre até que um tiro, um estilhaço ou uma tuberculose os tire dessa guerra, cuja duração ninguém podia prever”.



Compreendia-se, por isso, que nos duros rostos dos soldados portugueses desaparecessem os apegos que lhes faziam enaltecer a sua pátria e sentir orgulho em cumprir um dever patriótico. Vivia-se, agora, um profundo sentimento de ingratidão, tratamento arbitrário, humilhação, sofrimento e tristeza.

Chegavam-lhes, ao arrepio da censura, notícias da epidemia do tifo e da gripe, também conhecida por gripe espanhola ou pneumónica, que semeavam a morte em Portugal, mas nem isso superava a dor do abandono a que tinham sido votados, a consciência de que já não eram um corpo expedicionário, mas restos esfrangalhados de baterias, companhias e batalhões que, por ordem dos ingleses, eram dispersos por diversas unidades britânicas.

Humilhados pelos britânicos e traídos pela Pátria, em nome da qual eram soldados portugueses que morriam, ficavam mutilados física e psicologicamente, encarcerados ou desaparecidos, sentiam a sua alma de combatentes dizer o que escreveu o Coronel Ferreira do Amaral: “Sidónio Pais tratou-nos como gado de pastagem em montado”.

Foi neste contexto que Fernando Monterroso desabafou numa carta a Francisco Moreira de Magalhães, foi o de ter de reviver os locais e as situações que obrigaram a enterrar à pressa soldados tombados na batalha e assistir à morte inútil dos que foram incapazes de resistir aos ventos frios e húmidos da Flandres, que, com tosses intermináveis, lhes roubava a vida, sem ter ninguém, de perto, a valer-lhes”.

A Batalha de La Lys tem um lado que as comemorações esquecem: a traição dos políticos portugueses daquele tempo aos homens que, ao darem a vida pela sua pátria, deixaram as suas famílias cobertas de preto e muitas vezes na miséria.

É bom não esquecer isto!

domingo, abril 08, 2018

 

Apareçam!

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Bons amigos, apareçam!
Dia 14, próximo sábado, pelas 10h30, no auditória da Biblioteca Municipal de Amarante, o prof. Doutor Eugénio dos Santos vai proferir uma palestra-debate sobre esse grande tribuno, a “Aguia do Marão”. O tema é “António Cândido, entre a política e a eloquência”. Tudo isto tem muito a ver com o nosso tempo: os encantos e os desencantos da política, o espírito de serviço e os interesses de ocasião, o sentido de Estado e o sentido das conveniências.
A iniciativa é dos “Cidadãos por Amarante.” Apareçam, porque vale a pena!
A seguir há um almoço, para o qual estão desde já convidados. É no Restaurante Amaranto e haverá fados de Coimbra, quase do tempo de António Cândido. Apareçam que vão gostar e encontrar gente boa, como são sempre os meus amigos. Estão todos convidados! É só marcar presença pele telefone 910 573 366 ou 255 422 006


domingo, abril 01, 2018

 

Aniversário do Concelho do Marco de Canavses

Finalmente a Câmara Municipal do Marco de Canaveses reconheceu o valor fundamental do exercício da cidadania. A Associação dos Amigos do Concelho do Marco (que existe há 19 anos) foi pela primeira vez convidada para participar na sessão solene do aniversário do Concelho. Nestas efemérides foi sempre marginalizada e diga-se de passagem por quem tinha a obrigação de lhe reconhecer o mérito. Só diz bem da nova Autarca fazer a diferença com o passado. Não há democracia sem cidadania e este reconhecimento institucional do valor da AAMC é o melhor estímulo para a continuação da sua ação. Sentem-se gratificados e honrados todos os que fazem parte dos Amigos do Marco por este convite e podemos dizer que a democracia no Marco de Canaveses torna-se mais rica pelo reconhecimento de que vale a pena exercer a cidadania.


quarta-feira, janeiro 31, 2018

 

O poder desenvolve-se em rede.


Pela sua natureza, o Filósofo vai sempre á frente alumiando os horizontes da vida. Estão publicadas as lições de Foucault do curso que deu em 1976 no Colégio de França, com o título “É preciso defender a sociedade”. Tive a graça de conhecer melhor Foucault por um seu discípulo e também professor do mesmo curso, o meu amigo Prof. Dr. Cândido Agra, fundador da Faculdade de Direito no Porto.
Nessas lições que já li enumeras vezes, sempre aprendendo coisas novas, diz Foucault: “Não se deve olhar para o poder apenas como dominação de um indivíduo sobre outros, de um grupo sobre outros, de uma classe sobre outras. O poder deve ser analisado como qualquer coisa que circula, ou melhor, como qualquer coisa que só funciona em cadeia, em rede. (…) É preciso compreender o poder pelo lado da dominação e não da soberania política ou jurídica, pelas táticas de dominação em rede e clientelares”.
Talvez este caso do Juiz Rangel e outros e do Presidente Vieira se possa compreender melhor, lendo as lições de Foucault e pensando como as redes de dominação e clientelares se apoiam na notabilidade que os “media” vão criando, sem nenhuma justificação ética. Neles está o grande vampiro que se alimenta dos próprios monstros que cria!

sábado, janeiro 20, 2018

 

Façam as reformas, porra!....


Escreveu Klaus Mann: “A barbárie nunca esteve muito longe de nós”. Penso que a consciência desta circunstância traz-nos uma grande responsabilidade. Se é verdade que a natureza humana não é tão boa como pensava Rousseau nem tão má como julgava Hobbes, então o melhor é criar condições para que ela não possa dar largas à maldade que há dentro de si e seja capaz de ser estimulada pelo melhor que nela se encontra.

Bem tudo isto a propósito do que diz, hoje, no caderno do Expresso Jorge Sampaio. Segundo ele “os partidos são pouco activos, somos pouco empenhados, a democracia representativa enfrenta sérios riscos: de credibilidade, em relação à opinião pública, em relação aos cidadãos, ao afastamento dos cidadãos da política, não podemos ignorar isto. (…) Os partidos políticos estão completamente ultrapassados (…) os membros dos partidos pouco passam de 200mil” etc.

O que diz Jorge Sampaio ouve-se todos os dias e todos nós o constatamos! Os partidos tornaram-se grupos de interesses e muitos de nós afastam-se deles como das ruas de má-fama! Já não fazem as mediações necessárias à construção de uma sociedade mais justa e fraterna.

Como é possível que Jorge Sampaio com a sua autoridade política e moral não chame o seu partido à atenção para a ruptura que se está a fazer às mediações que os directórios políticos devem operar entre as bases sociais de apoio ao partido e o governo, escolhendo mais de oito governantes para a lista que vai a votos na distrital do Porto?!... Isso acontece na Coreia do Norte, mas não é esse o modelo de democracia representativa que temos! Como é possível que quem já deu notórias provas de ausência de credibilidade seja repetidamente escolhido para ocupar um cargo numa Concelhia?

Não estaremos perto da barbárie, quando, pouco a pouco, vai sendo destruído o melhor que as gerações anteriores deixaram aos partidos? Que travão se coloca a este desmando?

Não há nada mais frustrante para um cidadão (e deveria ser para um militante de um partido) do que ter de concordar com o aforismo: “falam… falam…falam…, mas não fazem nada!...”

A barbárie é a consequência primeira da ausência de valores, mérito, sentido de Estado e honradez, mas o que fazemos para além de meras considerações retóricas sobre esta situação?

Em vez da retórica, aproveitem a autoridade política e moral que têm para promover nos vossos partidos as reformas necessárias à credibilização dos partidos, da políticos e da acção política, porra!...

sexta-feira, dezembro 15, 2017

 
Ouvi ontem a “Quadratura do Circulo”. Esperava que Pacheco Pereira desenvolvesse uma questão que está ligada à “Raríssima” e a todas as raríssimas que vagueiam por este País, algumas com muito mérito e outras nem por isso! Por que será que os políticos, sobretudo do bloco central, estão sempre encostados a estas instituições? São presidentes, vice-presidentes, têm as suas esposas, os seus filhos e parceiros do partido, nos órgãos sociais, e, por vezes, como funcionários das ditas.
E em épocas eleitorais é um corrupio de governantes, candidatos, etc., para as misericórdias, as IPSS, sempre com elas ao colo. E oiçam os sonantes nomes de gente importante, banqueiros, empresários e advogados de sucesso que ontem Lobo Xavier citou!
A resposta parece-me evidente, mas ninguém fala dela! São os mais marginalizados, os que vivem no limite da pobreza, que dão mais votos e desenvolvem os sentimentos instrumentais. É que esta caça ao voto também desenvolve o sentimento de “piedade” que toca nas emoções da flor da pele dos burgueses e outros fariseus que “não matam uma galinha, mas comem carne de galinha”! É nisto que está o segredo desse frenesim em torno das “raríssimas”. E alguns, como um tal Delgado, são bem pagos como as carpideiras a chorar nos funerais. Mas esta postura tem pouco de fraterna e de humanidade. Só tem o “brilho” que promove tocantes emoções que dão jeito às “razões” da política, dos negócios, de quem quer comprar o Céu com a piedade que lhe falta! Depois, é o escândalo, se é que ele existe, porque tudo isto, nos media e nas redes sociais, parece funcionar como sumidouro do espetáculo da luta ideológica e partidária.
Quanto tempo teremos ainda de esperar para que os pisados por este cínico espetáculo acordem e se levantem do chão onde os pisam?!...

domingo, novembro 26, 2017

 

Um debate que os marcoenses podiam saber aproveitar!

Pensando bem, não nos podemos queixar da elevada quantidade de álcool que jovens consomem na nossa Terra. Isso é um reflexo da falta de estímulo de iniciativas culturais. A cultura educa-se, como o saber comer ou o saber beber. No passado sábado, a AAMC promoveu, no Auditório Municipal do Marco de Canaveses, uma conferência sobre José Monteiro da Rocha, uma das personalidades mais marcantes dos finais do séc. XVIII e início do séc. XIX. Foi educador do príncipe herdeiro, D. João VI, e dos seus irmãos, reformador dos estudos da Universidade de Coimbra, um matemático e astrónomo dos mais brilhantes da Europa do tempo, pertenceu à Academia das Ciências, etc. Nasceu na nossa Terra, mais propriamente, em Sobretâmega, Canaveses, onde tinha os pais e os irmãos que muito ajudou. Foi um Homem apagado da história por ser jesuíta, mas, hoje, está a ser reabilitado e já se prepara na Universidade de Coimbra o aniversário da sua morte com colóquios e debates sobre os seus escritos. A Academia de Ciências vai publicar uma longa reflexão sobre esta insigne figura, que foi nosso conterrâneo. Também, em colaboração com a autarquia, queremos tornar pública uma memória deste insigne marcoense.É impossível, hoje, conhecer a história da ciência, da matemática, da astronomia, do ensino, sem conhecer José Monteiro da Rocha, um Homem das luzes. Alguns académicos do Porto foram ouvir a conferência excelente que o Prof. Dr. Fernando B. Figueiredo, da Universidade de Coimbra, investigador na área das matemáticas e da astronomia, pronunciou; e o historiador, prof. Dr. Eugénio dos Santos da U.P. apresentou o conferencista e integrou a obra de Monteiro da Rocha, sacerdote, cientista e vice-reitor da U.C. no contexto histórico do tempo.
A importância desde debate teve acolhimento em alguns académicos que foram do
Porto ouvir os conferencistas, o que, para além da honra que a sua presença deu à Associação dos Amigos do Marco, também ajudaram a compor um auditório onde pouca gente do Marco compareceu, inclusivamente sócios e corpos sociais da nossa Associação.
Felizmente que a Sra. Presidente da Câmara apareceu para cumprimentar os conferencistas e se fez representar pelo Sr. Vice-Presidente durante o debate, o que é sempre um estímulo para nós, Associação dos Amigos do Marco de Canaveses.

domingo, novembro 19, 2017

 

Um ilustre Marcoense

Promovida pela Associação dos Amigos do Concelho do Marco de Canaveses, no próximo dia 25 de Novembro (Sábado), pelas 16 horas, o Prof. Dr. Fernando B. Figueiredo, da U.C. vai falar sobre José Monteiro da Rocha. Poucos conhecerão esta notável personagem, tida como um sábio, das mais respeitadas na Europa do seu tempo.
O palestrante é um académico, que fez a tese de mestrado e doutoramento sobre Monteiro da Rocha, estudando os seus trabalhos como matemático e astrónomo insigne.
Fará a sua apresentação o Prof Dr. Eugénio dos Santos e o nosso amigo e conterrâneo prof Dr. Joaquim Baldaia.
José Monteiro da Rocha nasceu em 1734 em Canaveses. Pertencia a uma família de lavradores e um dos seus irmãos foi um notável santeiro: construiu os santos em pedra que engrandecem o Santuário do Bom Jesus de Braga.
José Monteiro da Rocha foi uma das personalidades mais importantes da Europa nos finais do séc XVIII, princípios do séc. XIX. Aos 18 anos partiu para o Brasil e aí entrou na Ordem de Santo Inácio. Com a expulsão dos jesuítas permaneceu como clérigo e veio para Portugal. Por sugestão do reitor da Universidade de Coimbra,D. Francisco de Lemos, foi encarregado de organizar a nova Faculdade de Matemática (criada com a Reforma de 1772). Colaborou na redação dos estatutos da Universidade reformada, na parte respeitante às Ciências Naturais e à Matemática. Recebeu o grau de Doutor e foi incorporado nessa Faculdade, lecionando as cadeiras de Ciências Físico-Matemáticas, Mecânica e Hidrodinâmica. Em 1783 passou a reger a cadeira de Astronomia e tornou-se no astrónomo mais célebre da Europa. Nesta matéria, tem inúmeros trabalhos e pronunciou inúmeras conferências.
Em 1795 foi nomeado diretor do Observatório Astronómico.
Entre 1801/1807 foi conselheiro do Príncipe Regente D. João, e, logo a seguir, foi nomeado Mestre do príncipe D. Pedro e dos outros infantes, sendo-lhe atribuído um aposento no palácio real.
Em 1804, tornou-se membro da Sociedade Real da Marinha e vice-presidente da Junta da Direção Geral de Estudos e é agraciado como membro da Ordem de Cristo. E, quando o Bispo de Coimbra e reitor da universidade, Dr. Francisco Lemos, liderou a embaixada que foi a Baiona conferenciar com Napoleão, Monteiro da Rocha substituiu o Reitor e foi o elo de ligação entre o Bispo e D. João VI que já se tinha refugiado no Brasil.
Em1814 o Dr. Francisco de Lemos morre e José Monteiro da Rocha é um dos escolhidos para fazer a oração fúnebre durante as exéquias que, em sua honra, são feitas em Coimbra.
Em 1819 José Monteiro da Rocha faleceu em S. José de Ribamar, Carnaxide, Lisboa.
Foi reconhecido como sábio em toda a Europa e uma das personalidades mais influentes do seu tempo. No Marco de Canaveses, onde nasceu, tem uma pequenina rua com o seu nome. Mas não é referida a sua importância!
A melhor homenagem que os marcoenses lhe podem fazer é conhecê-lo bem e têm essa oportunidade no dia 25 de Novembro.
Apareça! Não podemos deixar de saber quem foi José Monteiro da Rocha. É uma obrigação cívica! Ser marcoense também é conhecer os melhores da nossa Terra.

segunda-feira, novembro 13, 2017

 

A tirania da erótica

 
A apresentação pelo Prof. Sobrinho Simões do livro de um velho amigo, o Prof. Carlos Mota Cardoso (que usa o pseudónimo João Trambelo) “A Tirania da Erótica”, editado pela ”Labirinto de letras”, pertencente a pessoas por quem tenho velha admiração, foi espantosa. Só o Prof Sobrinho Simões era capaz de tornar a apresentação de um livro numa conversa a três, entre si, o autor do livro e o auditório, com achegas interessantíssimas, interrogações oportunas e respostas surpreendentes. Não se podia ficar indiferente àquela apresentação, feita na Ordem dos Médicos. Aprendi muito!
O livro é uma reflexão, como disse O Prof. Sobrinho Simões, que poderia ser caracterizado como um ensaio ou como um romance. Para mim, do que já pude ler, é um poema. Ora reparem só neste recorte do sétimo capítulo. “Naquela noite de Outubro a lua abraçou cúmplice a fonte de São Miguel. Primeiro sorriu de júbilo ao contemplar a beleza ardente do amor. Depois chorou de dor ao perceber a fragilidade candente da paixão humana“.

Gosto desta forma de falar do erotismo! Também penso, como diz, na introdução, Daniel Sampaio, que “o erotismo é a sexualidade socializada e um dos seus fins é inserir o sexo na sociedade”. Não esperem do livro um tratado da sexualidade. Procurem-no como um romance ou um livro de poesia sobre o desejo e a fantasia. E vão ver que a leitura é estimulante!

domingo, outubro 29, 2017

 

Um estilo de estar na política que deveria ser imitado.


Uma boa entrevista!... António Costa está muitos graus acima do seu partido. Teve uma postura de Estado, disse o que deveria ser dito e, ao ser incapaz de acicatar ânimos, contribuiu para dignificar a ação política e as relações institucionais. É pena que este estilo não possa constituir um manual de boas práticas políticas. Muita gente, ligada ao seu partido, precisa dessa instrução.
Na minha terra, há uma revolta (para já em surdina!) contra intervenções feitas durante a campanha eleitoral, marcadas pelo despudorado ataque pessoal e calunioso contra o ex-presidente da câmara. Pelo que me foi contado, nem no tempo do fascismo se fazia isso e não sei se Avelino Ferreira Torres chegava a tanto! O debate político é um confronto sobre a melhor maneira de governar e não uma luta cobarde (o atingido nunca está presente), onde vale tudo, até o enxovalho.

Sempre me senti solidário com quem é ofendido publicamente e cobardemente na sua honra, sem se poder defender. E os meus conterrâneos conhecem o combate que travei contra este estilo de fazer política. Não sei o que vai fazer o atingido pelas insinuações caluniosas em dois comícios, mas preocupa-me que os lideres locais do partido, a que pertence o autor dessas insinuações caluniosas, não se distanciem do mesmo, retirando-lhe confiança política. Estas atitudes deixam profundas nódoas, não são facilmente esquecidas, vão moendo em surdina e acabam por descredibilizar os partidos e a ação política.
O exemplo de António Costa resume-se a um princípio muito antigo, encontrámo-lo já nos gregos, nomeadamente na “República” de Platão: antes da política está o civismo e se este falta não se percebe para que serve a política. Por isso, Platão defendia que a política é uma arte nobre. E acrescentava: “Só a justiça diz respeito à política (…) o bom político sofre a injustiça, mas é incapaz de a aplicar contra o adversário.” E dizemos nós: muito menos caluniá-lo!

segunda-feira, outubro 23, 2017

 

Não se pode ficar apenas pelas “tortas de uvas”


Em 20 páginas os senhores desembargadores do Tribunal da Relação do Porto construíram uma sentença, onde invocam a Bíblia, o Código Penal de 1886 e até civilizações que punem o adultério com pena de morte, para demonstrarem a gravidade deste delito, mas não leram a Bíblia até ao fim.
A sua jurisprudência vai contra os livros sagrados e corre o risco perigoso de heresia, que na Inquisição se pagava com a morte pelo fogo. Diz, nos livros proféticos, Oseias: “O senhor ainda disse: «Vai, de novo, e ama uma mulher, que é amada por outro, e que comete adultério, pois é assim que o SENHOR ama os filhos de Israel, embora eles se voltem para outros deuses e gostem das tortas de uvas».”In: Bíblia Sagrada (Difusora Bíblica, Franciscanos Capuchinhos, Lisboa, Fátima), Livros Sagrados, profeta Oseias, pg.1452
Nenhuma jurisprudência, nenhum magistrado, pode ficar apenas pelas “tortas de uvas”

quinta-feira, outubro 19, 2017

 

A hipocrisia deveria ter limites!


A direita que eu conheci, orientava-se por princípios e preferia quebrar do que torcer. Era essa a característica que eu mais detestava nela. Sempre achei que a tolerância é a virtude social do diálogo que permite a coesão. Mas havia uma altura que eu sentia que torciam mesmo: diante do sofrimento, a direita que eu conheci, sabia comunicar solidariedade pelo silêncio. Muitas vezes, vi o meu pai, o meu avô e muitos dos seus amigos apertar a mão de quem sofria e, olhos nos olhos afivelar nos rostos, um silencioso, quase místico - “estamos juntos!..”
Esta direita, da Sra. Cristas, nada tem a ver com a direita que eu conheci. Aproveita o sofrimento que se abateu com as mortes ceifadas pelas labaredas do fogo e grita, num ruído obsceno, que é preciso mudar de governo. A Sra. Cristas, conhecida por Misse eucalipto (pela fervorosa defesa que, no governo a que pertenceu, fazia da expansão do eucalipto, cuja produção de riqueza comparava ao “petróleo”), perturba o único sentimento, a única manifestação que podemos ter para com os que nesta altura mais sofrem: entregar-lhes, com o silêncio dos olhos, a solidariedade do coração. É isso que a sociedade civil, párocos, organizações socias e empresários estão, neste momento, nos lugares mais atingidos pelo fogo, a fazer: vão ter com essas pessoas, abrem espaço ao silêncio que manifesta a solidariedade, e deixam-lhes o que mais precisam para atenuar a dor.
Para que serviria nesta altura substituir Costa por outro qualquer primeiro-ministro? Por certo não ficaríamos melhor! A herança de Cristas e do governo a que Sra. pertenceu deixou marcas de arrogância, incompetência e insensibilidade humana que ninguém hoje quer ver repetir. Se é certo que houve falhas, estou certo que muito maiores seriam se fosse o governo anterior a gerir esta terrível tragédia!

Deixem António Costa, apesar do seu metálico feitio, governar. Este governo tem prestigiado, como se sabe, Portugal. É uma referência por toda a Europa, até para o Sr. Schauble, e arrancou-nos de uma crise que, se virmos bem, foi tão terrível como os incêndios que neste verão devastou o País. E não pensem que também não causou mortes!...
Só a sofreguidão de chegar ao poleiro do poder pode justificar a censura que a Madame Eucalipto vai apresentar na próxima terça-feira, perturbando o silêncio do coração que devemos aos que neste momento mais sofrem.
A hipocrisia deveria ter limites!

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