terça-feira, dezembro 06, 2016

 

Deixem-me este desabafo:


Sou do tempo em que lavrador era a condição social mais baixa, quase uma ofensa chamar a alguém lavrador. O que dava prestigio era ser operário. Quem não se lembra da Internacional Socialista?!.... Até o estudante era considerado um trabalhador intelectual e a capa e batina um sinal de elitismo pequeno-burguês. Depois veio o tempo dos doutores. Quem passasse por Coimbra e quisesse ter um tal tratamento de excelência, bastava procurar um engraxador de sapatos. Os doutores emergiram por todos os lados, como cogumelos, com as universidades privadas.
Fabricava-se doutores como quem fabrica botões. Desses doutores de aviário, uns viram morrer os seus sonhos nos call-centres outros foram para a política. Dizia-me um chico esperto: “já disse ao meu filho para se inscrever no PSD”.
Os que se formaram como trabalhadores, isto é, com muito estudo e investigação, emigraram e quase todos já não voltarão para Portugal. O contribuinte pagou esse investimento que foi para Inglaterra, França, Alemanha, etc.
Não deveria merecer um voto quem inculca a ideia de que ser estudante é mais do que ser agricultor ou operário. O elitismo chateia-me e já não tenho idade para essas merdas!.....

sábado, novembro 05, 2016

 

Uma condecoração bem merecida.


Tive pena de não poder estar presente. O Prof. Dr. Mota Cardoso, ao lado do Dr. António Arnaud (o Homem do SNS), recebeu ontem, durante o Congresso Nacional de Medicina, na Universidade de Coimbra, a medalha de ouro pelo mérito pessoal do seu contributo para a dignificação do exercício da medicina.
O Prof. Dr. Mota Cardoso é um velho amigo e sou dos que sempre sentiram a felicidade dos seus amigos como sua própria felicidade. Não estranhei que recebesse essa medalha. Foi um reconhecimento do seu valor como homem generoso, um profissional digno, que vive a sua profissão com espírito de serviço e humanismo.

segunda-feira, outubro 31, 2016

 

A bem da democracia

Associação dos Amigos do Concelho do Marco de Canaveses vai ter a sua sede.
Durante quase duas décadas funcionou em escritórios de amigos. Não tínhamos remetente institucional e todas as iniciativas, desde publicação de textos, contactos com personalidades, elaboração de um jornal, etc. fazia-se à custa da militância pessoal e com remetente privado.
Foi o espírito de cidadania, a consciência dos deveres democráticos, o sentir a responsabilidade do vínculo que, como cidadãos, nos liga à comunidade e nos obriga a colocar exigências de justiça, liberdade e igualdade, que nos fez superar todos os obstáculos que encontrámos.
Fica, por isso, bem e ajusta-se à natureza da Associação dos Amigos do Concelho do Marco, que a Autarquia, através do seu Presidente, Manuel Moreira, propusesse para sua sede umas instalações, mesmo ao lado da sede do Núcleo dos Combatentes, no Jardim que tem o nome do Fundador do Concelho, Sr. Adriano da Picota, como os marcoenses sempre o conheceram.
Não poderíamos ficar melhor, nem poderia ser mais significativa a proposta do Senhor Presidente da Autarquia. Todos os marcoenses que gostam da sua Terra, sabem muito bem que isso, noutras épocas, seria totalmente impossível, a menos que a Associação deixasse de lutar contra a arbitrariedade e o caceteirismo e se tornasse num instrumento servil do poder que imperava no nosso Concelho.
Os objectivos da AACM só são políticos no sentido genuíno da palavra: compromisso com uma “cidade” humana (Polis) mais justa, mais fraterna e mais tolerante. Pois é no seio da comunidade política (e não isolado e independente dos outros) que o Homem desenvolve a virtude do viver de harmonia com os valores e se torna num homem justo e bom.
Já Aristóteles, no seu “Tratado Político”,  dizia: “Assim como o homem civilizado é o melhor de todos os animais, também aquele que não conhece a finalidade da política na promoção da dignidade humana e da felicidade entre os homens é o pior de todos”.
É neste sentido que entendemos a política e é, também, neste sentido que entendemos a democracia.
“Não há democracia sem cidadania”, foi sempre este o nosso lema.  Acreditamos que pelo confronto de ideias, a vontade subjectiva se submete à vontade geral, o argumento racional se sobrepõe ao poder do domínio pessoal.
Não entendemos a política como uma profissão exercida através dos partidos, mas como uma postura cívica, que emana da natureza humana, do direito de criar expectativas sobre a felicidade da nossa sociedade e o dever de lutar por elas. E foi esta uma das razões que nos levou a criar a Associação dos Amigos do Marco de Canaveses num dia 25 de Abril, há mais de 20 anos.
Além desta finalidade,  tem por objectivo promover debates, estudos, publicar textos, contribuir para a defesa do património ambiental, histórico e cultural do Concelho.
Muitas vezes, confundimos cultura com conhecimentos ou saberes, mas o conhecimento ou os saberes não fazem, por si, um homem culto: há eruditos que são ignorantes e há muitos tecnocratas que são incultos. A cultura não consiste em possuir muitos saberes ou conhecimentos, mas em saber utilizá-los. A cultura  é o que fica no espírito, quando todo o resto foi esquecido.
Na mitologia grega, as musas e deusas cultas eram filhas da Memória, mas elas distinguiam-se da sua mãe. Talvez, por isso, Marguerite Yourcenar considerasse o tempo (morada da memória) o grande escultor do espírito. A cultura permite ao homem construir uma visão critica de si, dos outros homens e do mundo. Mas precisa da memória como referência dessa construção.
Neste sentido, também pretendemos promover o reconhecimento do mérito, através de um prémio anual a quem se tenha destacado no Concelho por levar a cabo aquilo que, nas diferentes expressões da vida social, foi considerado excelente e, por isso, muito distanciado daquilo a que, por dever profissional ou outro, seria obrigado.
O reconhecimento do mérito é uma virtude social, é o que devemos àqueles que foram melhores do que nós. E para que o prémio não se banalize, desvalorizando o mérito que deve ser reconhecido, só o atribuiremos anualmente e a uma personalidade.
Os Corpos Sociais e, particularmente, a Direcção, estão felizes por esta promessa da Câmara e já só esperam assinar o protocolo que irá estabelecer a cedência das instalações para a sede da Associação dos Amigos do Marco.
Esperamos ganhar com isso um novo dinamismo, que mais sócios apareçam (a cota anual é apenas de dez euros)  e que tenhamos mais condições para desenvolver os objectivos consagrados nos  estatutos da Associação.
Vamos fazer da abertura da sede uma festa, não só dos sócios, mas de todos os amigos do nosso Concelho.

30 /11/ 2016
Pela AAMC
João Baptista Magalhães
(Presidente da Assembleia Geral da AAMC)
http://amigosdomarcodecanaveses.blogspot.pt/2016/10/a-bem-da-democracia_31.html?spref=fb

segunda-feira, outubro 24, 2016

 

Sem amigos ninguém escolheria viver


Não nos víamos há mais de 50 anos! É muito tempo, tempo de mais de meio século. Muitos já partiram sem dizer adeus. Fizémo-los viver com o coração a soluçar por dentro e sem demora para não sangrar a alma do nosso encontro.
São as feridas da saudade, quando levada de encontro ao peito, é a dor de querer colocar no presente tudo o que a memória de bom traz do passado.
Suponho que foi Hesíodo, na sua Teogonia, que identificou o reino do ser com o reino da memória e a negação do ser com o esquecimento.
A memória na antiguidade era uma deusa: Mnemosyne. Instituiu a identidade e guardou os melhores bens, como é a amizade.
Tem razão Aristóteles, quando na Ética a Nicómaco, garantia: “ Sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que houvesse outros bens”. E Epicuro, considerado o filósofo da amizade, assegurou: “De todos as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade”.
A amizade é uma dádiva que flui sem avisar, resiste ao egoísmo, faz da vida um fraternizar e quando a tristeza aparece transforma-a em canto de esperança.
Wittgenstein sublinhou que “os aspectos mais importantes da vida estão ocultos” e é isso que acontece com a amizade. Desoculta-se nos afetos que são os seus sinais no mundo da vida.
Foi isso que senti no encontro dos Olivais, com antigos companheiros perdidos, como gaivotas que foram dispersando no mar revolto da vida. Agora, voltamo-nos a reencontrar, sem a espuma do arrepio entre os rochedos do mar. Fez-se no abraço o nome de primo, como eu era conhecido.
Se eu tivesse engenho e arte fazia deste reencontro na minha terra um poema da amizade. Foi festivo o abraço entre sorrisos, que demos no Restaurante Magalhães, o local de encontro,  com o João Vinagre, o Sereno, o Eugénio, o Cabral, o Manel Mourão e quase todo trouxeram as suas esposas.
Se deus existe, e eu desconfio que pode existir, chamar-se-á amizade. Pois veio do divino este encontro, esteve connosco na igreja do Siza, em Tongobriga, na minha casa, na Casa da Quintã da Folhada e permaneceu até ao almoço do outro dia na Enoteca da quinta de Avessada, em Favaios, do meu amigo Barros.
Depois, partiram e deixaram a saudade de um próximo encontro da primalhada, como passamos a designarmo-nos.




domingo, outubro 23, 2016

 

GENTE QUE FAZ UMA TERRA DECENTE




ADRIANO JOSÉ DE CARVALHO E MELO

O Marco de Canaveses tem muita gente que fez da sua Terra uma terra decente. Basta conhecer a sua história, conhecer a postura  dos seus melhores filhos, para que nos entristeça ouvir falar do Marco de Canaveses como a terra do “mata e queima”, do Zé do Telhado ou, ainda, de algumas figuras grotescas.
Não é possível dar a conhecer todas as personalidades que nos honram como nossos conterrâneos. Mas é pena que não se faça! E não me refiro a Carmem Miranda que só se tornou notável, porque o seu pai a tirou do Marco e a levou, em tenra idade, para o Brasil. Se continuasse na terra onde nasceu (que nunca adoptou!) pertenceria hoje ao imenso número de gente desconhecida, a que ninguém  ligaria absolutamente nada.
Lá aonde estiver, a Carmem Miranda só pode agradecer aos brasileiros a notabilidade que granjeou e há-de rir-se dos marcoenses, quando se servem do seu nome para o colocar em ruas e museus e esquecem o abandono a que a votaram em menina. Podia ser uma autocrítica a relevância que lhe dão, mas parece uma festa semelhante à dos  cucos que põem os ovos nos ninhos dos outros para criarem os seus filhos.
Merecia muito mais relevância, por exemplo, José Monteiro da Rocha, Reitor da Universidade de Coimbra, criador do observatório astronómico e chefe da missão que teve como objectivo estabelecer os acordos de paz com as tropas napoleónicas. Nasceu e cresceu em Canaveses e nunca esqueceu a sua Terra. Ou, então, os criadores do Concelho, os Homens que estiveram na origem na Misericórdia do Marco, dos Bombeiros (e que nesta missão morreram) os que se distinguiram nas artes, na ciência, etc.
É este tipo de gente que me interessa! Nela poderemos configurar o sentido de ser marcoense, incapaz de renunciar à sua Terra, mas sempre empenhado em dignificá-la, sem esperar qualquer recompensa.
Precisamos de referências exemplares que estimulem a ligação à nossa Terra, façam a coesão social e cimentem os laços de confiança que promovam o gosto de ser marcoense, de investir no seu Concelho e sentir como seu sucesso, o sucesso da sua autarquia.
Aliás, não é  este sentimento que dá sentido à ideia de autarquia e de cidadania, “governo dos próprios pelos próprios”?!....
Não se constrói o espírito autárquico, sentindo-nos náufragos, numa ilha entregue a um só homem, deixando-nos à sorte dos nossos próprios recursos. Ou então, ficando como um bando de cucos, sempre à espera de ninhos onde possam colocar os seus ovos.
A  origem do concelho do Marco  não é muito longínqua. Surgiu em meados do séc. XIX. A sua criação deveu-se ao deputado da Nação, Adriano José de Carvalho e Mello, nascido no lugar da Picota, em Tuas, e por isso conhecido por sr. Adriano da Picota. E teve uma justificação forte para que a Assembleia e o Governo do reino aderissem á sua ideia.
Nessa altura, campeavam pelas diferentes comarcas grupos de pobres diabos, que, durante a noite, com armas de carregar pela boca, intimidavam viajantes para os roubar e assaltavam casas nobres para sacar o ouro e a prata que trocavam por poucas patacas nos receptores que, com isso, tal como hoje, ficavam mais ricos do que os que roubavam pela acção directa. Um desses chefes foi Zé do Telhado, um antigo combatente da pacificação de Africa galardoado com a medalha de Torre e Espada.
Abandonado pela pátria que serviu, fez aquilo que sabia fazer: comandar um pequeno grupo para defender o pão que faltava à sua família. Tornou-se, nessa matéria, um empreendedor, tão esmerado que até se dizia que “roubava aos ricos para dar aos pobres”. Se fosse hoje, e quisesse inverter a causa “roubar aos pobres para dar aos ricos”  poderia muito bem ter chegado a banqueiro.
Assaltou a Casa de Carrapatelo e matou um criado. Foi uma péssima referência para a Região. Ficando sem castigo,  manchava a própria dignidade do povo desta terra. Assim o percebeu o Sr. Adriano da Picota,  quando jurou que o prenderia.
Prendê-lo e à sua quadrilha, estivessem onde estivessem, obrigava a uma reforma administrativa que desenvencilhasse as autoridades dos empecilhos burocráticos. Não era permitido à polícia entrar numa comarca sem autorização do seu administrador. 
O deputado Adriano José de Carvalho e Mello não ficou pela retórica das boas intenções. Não separou o Zé do Telhado do seu grupo, como muitos costumam fazer, e para alargar o âmbito das investigações da sua polícia, propôs à Assembleia e ao Governo do reino que fosse unida a comarca de Soalhães à grande comarca de Benviver, que compreendia uma grande extensão, indo de Gouveia até S. Lourenço do Douro, tendo em Sande a sua sede.
Apresentou essa ideia na Assembleia e ao governo da  Coroa e lutou, sem o alardear que hoje é costume, para que  o concelho de Soalhães e de Benviver se tornassem numa única comarca, sugerindo  que o novo concelho se denominasse Marco de Canaveses.
Pelo Decreto de 31 de Março, em 1852 foi, então, criado o Concelho do Marco de Canaveses. No artº 1º estabelecia: “São reunidos num só concelho, os concelhos de Soalhães e de Benviver”.  E no artº 2º dizia-se:  “O novo concelho passa a ser denominado Marco de Canaveses” e os seus habitantes marcoenses (do Marco, escrito com “o”  não com “u”).
A esta distância, a reforma administrativa que o sr. Adriano da Picota promoveu levanta uma questão:  por que se lembrou Adriano José de Carvalho e Mello de denominar  Marco de Canaveses o novo concelho, se não há nas comarcas aglutinadas algo que deixe antever essa  designação?!...
Adriano José de Carvalho e Mello, para além de deputado, fora administrador do concelho de Soalhães, com Casa Municipal no “lugar do Marco”. Ali, antes de ser construída a casa municipal, havia um marco de pedra que limitava dois coutos que vieram a dar origem às freguesias de Fornos, S. Nicolau e Tuias. Situava-se na planura onde se levantou a Casa Municipal e, hoje, está o  edifício da Câmara Municipal.
Canaveses era uma Beetria; isto é, uma importante povoação rural que desde a alta Idade Média tinha o privilégio de escolher livremente os senhores que reunissem as melhores qualidade para defender o bem-estar do povo da localidade. Isso era a maior exigência duma povoação que tivesse  grande desenvolvimento económico e era o que lhe dava mais prestígio.
A toponímia Canaveses terá a ver com três circunstâncias: o lugar situado junto ao Rio Tâmega proporcionava a cultura do linho “cânave”. Os que o produziam eram os “canaveses”, como se dizia no português antigo. Por outro lado, por ali terá passado a estrada romana Tamacana-Via e os que ali habitavam “tamacanavienses” que se foi simplificando até canavienses e, logo depois, canaveses. Acresce, ainda, que nesse lugar também havia as “Aquae Tamacanae” conhecidas, hoje, por Caldas de Canaveses.
A simplificação fonética foi determinando que o local se fixasse em Canaveses e, como podemos inferir, com o grande prestígio que lhe vinha de ter sido uma Beetria, o sr. Adriano da Picota não teve dificuldades em convencer a Assembleia e o Governo da coroa de que o novo concelho fosse designado por  Marco (a que pertencia a  “Casa municipal”) de Canaveses, fixando a sua centralidade nesta região.
Com as condições criadas, a polícia que estava às ordens do administrador Adriano José de Carvalho e Mello foi prendendo os quadrilheiros, só escapando o Zé do Telhado. Entretanto, José de Carvalho e Mello deixou o cargo de primeiro administrador do concelho do Marco de Canaveses e foi ocupando outros cargos, como o de governador-civil de Bragança, de Braga e, por fim, Comissário da Polícia do Porto. Nunca esqueceu a sua promessa e com  estas novas competências a expensas suas (nessa altura, com o fontismo, Portugal entrou na bancarrota) mandou fardar, armar e preparar um corpo da polícia que apenas tinha como objectivo prender para ser levado à Justiça o Zé do Telhado. E conseguiu-o: descobriu-o na Ribeira do Porto, escondido debaixo de um lote de caixas de bolachas que, no barco “Oliveira” se preparava para levantar âncoras em direcção ao Brasil.
Não sabemos o que faria, hoje, o sr. Adriano da Picota, se os ladrões e seus cúmplices fossem os de colarinho branco!  Se procedesse como procedeu em relação ao Zé do Telhado, teríamos de concluir que não separava o chefe da quadrilha dos acompanhantes, os de colarinho branco dos maltrapilhos, e, por isso, sabia defender as virtudes da honra  e da dignidade que constituem o valor fundamental da democracia e da cidadania numa Terra de gente decente.
João Baptista Magalhães

quarta-feira, outubro 05, 2016

 

Agradecido.


A todos os meus amigos, companheiros ou camaradas, que vieram simpaticamente conformar-me com parabéns por mais um dia a somar a todos os dias da minha vida, venho agradecer. Vocês todos são muito gentis para comigo, mas, dentro de mim, confesso que, como Álvaro de Campos, só quero dizer:


“Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que meus pais festejavam o dia dos meus anos!...”

segunda-feira, setembro 12, 2016

 

Autorregulação ou anda em roda livre?


Simpatizo com este governo, mas em matéria de conduta de cargos públicos fazer apelos à consciência profissional ou de desempenho, a que chama autorregulação, não me convence. A consciência só diz o que o próprio quer que se diga. Apelar à autorregulação é como andar em roda-livre. Preferia mais rigor!

Por exemplo, por que não colocam no articulado dos deveres de conduta, estas ideias simples do Padre António Vieira. Ele é tão citado, por que não o levam a sério?

Bastariam duas ideias que surgem no seu “Sermão do Bom Ladrão”! Ora reparem:

1ª – Como introdução: “Os particulares, se lhe roubarem a fazenda, podem perdoar o furto a quem os roubou; o Rei ou governante não administra a sua fazenda,  senão a da república e, por isso não é só responsável pelo que furta, mas também pelo que deixa furtar”

2ª-  A república é a “coisa de todos” e, por isso, os governantes não só não podem aceitar favores particulares, como devem zelar pelas contribuições que os cidadãos entregam para o bem de todos. Assim:

Preceito único:“(...) aquele que tem obrigação de impedir que se furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes (ou governantes) que por sua culpa deixaram crescer os ladrões, são obrigados à restituição do que eles roubaram; porquanto as rendas com que os povos os servem e assistem são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham com justiça”.

3ª Seguindo o princípio da ética da responsabilidade: responder pelas consequências de não exercer com espírito de serviço público um cargo da República (ao receber bens privados ou ao permitir que os ladrões de colarinho branco roubem), obriga: a demissão do cargo e a repor com os seus bens o que os ladrões roubaram à república.

Bastavam estes três princípios para acreditar na seriedade de um código de conduta. Assim, nunca há consequências penais e é só poeira para olhos incautos! E o PS deveria ser diferente.

 

Um almoço de caça.


Todos os anos convido alguns dos meus amigos para um almoço de caça. No sábado passado foi o dia desse repasto anual. Houve perdizes e veado para reconciliar um desporto muito ligado à natureza, que pratico desde muito novo, com a amizade.  Ortega e Gasset assegura, no seu livro, “Sobre a caça e os touros”, que a mais ilustre amizades, entre o grego Políbio e o Cipião Emiliano, foi ocasionada em torno da caça. Já o posso confirmar! E, se a amizade se guarda no mundo da memória, nada melhor do que fazer partilhar os amigos com o resultado de uma caçada. Só tive pena que a maioria do grupo de caçadores, a quem devo a caçada, não pudesse aparecer. Os que vieram, trouxeram as suas companheiras e, depois do almoço, houve fado, fado de Coimbra, naturalmente. Foram estes, nomeadamente as baladas do Zeca, que durante os melhores anos da nossa vida cimentaram os laços que, ainda hoje, nos prendem. Este manjar, quase divino, realizou-se, como no ano passado, no Restaurante Quinta do Beiral, na minha Terra,  e o delicioso vinho foi do nosso amigo Miranda, da sua produção “Quinta do Burgo”, também na minha Terra, a Folhada. No final, como não podia deixar de ser, cantamos o adeus à Folhada, mas é só até ao próximo ano!

quinta-feira, setembro 08, 2016

 

Entrevista do Juiz carlos Alexandre


Gostei da entrevista de Carlos Alexandre à SIC. Sempre admirei o espírito de missão e, detestando a guerra, tive sempre pelos militares grande admiração. Carlos Alexandre tem esse espirito de missão semelhante ao militar que cumpre o seu dever de servir a Pátria. Sei que, hoje, com as muitas situações dilemáticas com que nos debatemos, a ética Kantiana perdeu alguma força. Mas sem o imperativo categórico, de cumprir o dever, porque é o dever, desaparece todo o sentido da ética e da justiça. Hoje vivemos numa sociedade que fala muito nos direitos, mas esquece os deveres e, talvez, por isso, não faça dos valores, dos princípios e normas, que deveriam ser integrados pela educação, tradição e cultura, os orientadores do modo de agir.

Gostei da entrevista de Carlos Alexandre. Não sei se fez ou não sempre justiça, mas pareceu-me um homem justo, porque age por respeito a um dever. Não é, por isso, uma pessoa de quem se possa ter medo! https://www.noticiasaominuto.com/pais/650312/juiz-carlos-alexandre-nao-sou-pessoa-de-quem-se-deva-ter-medo

segunda-feira, setembro 05, 2016

 

Na Senhora da Lapa

Em meados de agosto de 1774, quando os primeiros raios de Sol secavam as últimas gotas de orvalho que humedeciam as flores colocadas nas campas das videntes da Senhora da Lapa, em S. João da Folhada, ( minha Terra) , a coberto da escuridão da noite pelos seus devotos, já o coveiro de S. João da Folhada cumpria as ordens do sr. Abade: retirar todos os sinais de veneração e levá-los para local mais escondido e longínquo possível. Receava que algum dos muitos milhares de informadores do Secretário do Reino, algum visitador da freguesia ou mesmo o Abade de Jazente, Paulino Cabral, fossem levados a pensar que na sua paróquia não se cumpriam as ordens que vinham em edital do Regimento do Santo Ofício da Inquisição, aprovado, em alvará, no dia 14 de agosto de 1774, assinado por Adriano José de Carvalho e Mello e de “próprio motu, certa Sciência, Poder Real, e Absoluto”, por D. José I, determinando:
“Todo aquelle que venerar a imagem de algum defunto não beatificado ou canonizado por autoridade da Igreja, posto que morresse em opinião de santidade será asperamente repreendido… e degradado para Castro Marim ou Cidade de Miranda por três anos…
Nas mesmas penas incorrerá aquelle que sem as precisas licenças pozer ou mandar pôr na sepultura do defunto alguma táboa, panno ou rotulo de milagres seus, ou imagens de qualquer cousa pintada ou pendurada, e lhe pozer alampada ou outro lume, ou lhe der outro algum culto ou veneração”.
O Abade, José Franco Bravo, levava muito a sério o que na altura se dizia: “Onde Sebastião de Carvalho e Mello pousar a mão para dar uma ordem ficam nódoas de sague.” E havia razões para isso: Nossa Senhora recomendara às três pastorinhas que “fizessem penitência dos pecados que na Corte eram cometidos, com jejum a pão-e-água nas primeiras sextas-feiras e sábados e que recomendassem isso mesmo a todas as pessoas que encontrassem”.
Este apelo trazia-lhe à memória o Padre Malagrida e o seu livro “As Verdadeiras Causas do Terramoto”, onde defendia a ideia de castigo divino como causa da tragédia que se abateu sobre Lisboa em 1755. Foi, por isso, enforcado, e deitado ao Tejo depois de ser queimado em auto-de-fé. Sebastião José de Carvalho e Mello não podia ouvir que o divino interviesse na sua vida, o que era o mesmo que dizer, na vida da corte.
Para que ninguém caísse na imprevidência de ignorar a vontade do Marquês, o Abade da Folhada, José, Franco Bravo, anunciava a advertência nas missas e colocou o edital no portão do cemitério e na porta da sacristia. Ninguém lhe arrancava palavras sobre as aparições. Quando sobre isso era interpelado, dizia que o que tinha para dizer sobre o assunto, já o tinha manifestado nas Inquirições que o Marquês do Pombal lhe fizera. Desconfiava que o edital, que recebera, resultasse de uma delação do Abade de Jazente.
Os tempos passaram-se, aconteceu ao Marquês o mesmo que aconteceu a Caligula e, de uma forma ou de outra, há-de acontecer a todos da mesma espécie, e a celebração da aparição de Nossa Senhora, no dia 13 de Maio de 1758 foi retomada com todo o entusiasmo que a fé dos seus devotos lhe dedica.
Ontem estive lá. Jantei nesses restaurantes de festas, fui muito bem servido por uma jovem muito bonita, e, além das febras em vinha de alho, bebi o vinho que só a Quinta do Burgo, do enólogo Miranda, ali bem perto, consegue produzir.

sexta-feira, agosto 19, 2016

 

Bem haja, videirinhas!


Estou hoje muito feliz!... Cheguei à Folhada e mal entrei na minha terrinha, logo me deparei com as uvas de mesa que as minhas  videirinhas (quer dizer videiras pequeninas!)  me ofereciam. Agradeci-lhes e expliquei-lhes o meu contentamento: as minhas netas na próxima semana vêm á Terra, que também já é delas. As minhas filhas habituaram-nas a ir ao  Pingo-Doce comprar uvas e, francamente, chateava-me que elas pensassem que as uvas nasciam do Soares dos Santos.  Sei que é um homem habituado a fazer milagres, mas, porra!!!... Gerar as uvas que a minha terra produz era de mais! Agora, vão perceber que não é no Pingo-Doce que nascem as uvas, mas na Terra do avô que também é delas… e dos amigos do avô e dos amigos delas!



 

Bem haja, videirinhas!


Estou hoje muito feliz!... Cheguei à Folhada e mal entrei na minha terrinha, logo me deparei com as uvas de mesa que as minhas  videirinhas (quer dizer videiras pequeninas!)  me ofereciam. Agradeci-lhes e expliquei-lhes o meu contentamento: as minhas netas na próxima semana vêm á Terra, que também já é delas. As minhas filhas habituaram-nas a ir ao  Pingo-Doce comprar uvas e, francamente, chateava-me que elas pensassem que as uvas nasciam do Soares dos Santos.  Sei que é um homem habituado a fazer milagres, mas, porra!!!... Gerar as uvas que a minha terra produz era de mais! Agora, vão perceber que não é no Pingo-Doce que nascem as uvas, mas na Terra do avô que também é delas… e dos amigos do avô e dos amigos delas!



 

Estamos entregues aos bichos

Estamos a atravessar um lento e corrosivo descrédito do sistema partidário e não se vê quem, de forma livre e responsável, critique esta situação para obrigar a dar à democracia a credibilidade que ela precisa. As autarquias que conheço melhor são as do Marco, Amarante, Porto e Baião.
Para se perceber como funcionam os partidos nestas autarquias, soube há pouco que, num destes concelhos, o presidente chama uma funcionária, diretora de um serviço, e diz-lhe: meta atestado médico, peça a demissão, porque eu tenho de colocar no seu lugar uma pessoa. Noutro concelho há um lugar que vai a concurso, mas já lá está um estagiário que preenche as condições do concurso (feito com esse sentido) e há uma comissão aparelhada para o escolher. Já não falo de entrega direta a elaboração de projetos a gabinetes que foram de vereadores ou a troca entre concelhos desses trabalhos. Os poderes autárquicos suprimem o direito, não estabelecem critérios universais, democráticos, e, na maioria dos casos, o poder exerce-se como no tempo do feudalismo: a oligarquia local partidária substituiu os títulos nobiliárquicos.
Estão-se a preparar listas de candidaturas às autárquicas por cunhas. Procura-se o apoio de figuras chamados notáveis do PS ou do PSD e nos endinheirados da terra para fazer parte das listas e ter um lugar elegível nas mesmas. Faz-se isso, como quem procura um emprego, o emprego do blá...blá... E quase toda essa gente não tem credibilidade nenhuma e nunca esteve ligada a nenhum estrutura ou rede de intervenção social, razão de ser da política. Nalguns casos, são empresários no risco da falência. Mas todos acreditam que os cidadãos-eleitores são marionetas e o que é preciso é puxar os cordelinhos. Mas os eleitores já começam a dar sinais de não suportarem esse papel.
Estou convencido que a esquerda, PC, BE e Verdes, que ganharam muito prestígio neste governo, se fossem mais abertos, se se libertassem de radicalismos extemporários e procurassem entre eles denominadores comuns, tinham, agora, uma boa oportunidade para apresentarem listas únicas de prestígio às autárquicas e varrerem com toda a mediocridade, caciquismo e prepotência que tomaram conta dos destinos do poder local.
Mas serão capaz de fazer isso, para bem da democracia e do prestígio da ação política?!...


quarta-feira, agosto 17, 2016

 
Fui convidado para escrever um texto nesta revista de grande prestígio. Foi para mim uma honra. Só uma pequeníssima correcção de um equívoco: dei aulas no ensino superior, mas foi como convidado e pago à tarefa. Não fui e muito menos sou professor universitário, porque não fiz carreira dentro da universidade. Sou apenas um professor reformado há 11 anos. Sinto-me muito lisonjeado com a publicação deste texto na 14ª edição da “Justiça com A”. Obrigado Lininha! E, já que não se importa, deixo a referência da sua Revista, com os meus parabéns pela qualidade gráfica e dos seus conteúdos, ressalvando naturalmente o que escrevi, muito favorecido pelo contexto gráfico.
http://www.justicacoma.com/

segunda-feira, agosto 15, 2016

 

Não pude ir á festa, pá!

Hoje estaria na festa da Senhora da Lapa, em S. João da Folhada. Gosto de lá ir e ficar sentado junto à Capelinha para sentir a espiritualidade que ali se respira. Bem perto da capela só há uma cabana, onde passa férias um amigo de velhos tempos. É um intelectual que dedicou toda a sua vida a questões do ambiente e é, por certo, uma das pessoas que mais sabe e mais publicações tem sobre ecologia.
Não pude aparecer à Festa. Os fumos dos incêndios, as suas pequeníssimas partículas, entraram-me nos pulmões, quando junto a minha casa, de repente, os montes ficaram a arder. Fiquei com uma irritação de tipo asmático, arrepios de frio e alguma febre. Já estou melhor, mas não me encontro em condições para subir à Serra da Aboboreira.
Espero que a Senhora da Lapa e as três pastorinhas, as duas Marias e a Teresa, compreendam a minha ausência.
Em troca, prometo-lhes acabar com um romance que estou a escrever sobre os episódios que se ligaram no tempo do Marquês de Pombal a estas aparições. E há tantas histórias bonitas, de profunda solidariedade, como, por exemplo, a de dar guarida ao foragido acusado de tentar matar D. José, um tal José Policarpo de Azevedo, ali bem perto, no senhorio da Teixeira. Foi o Padre António Castelo Branco, da Quinta do Burgo, que, já nesse tempo, tinha bons vinhos, que o terá ajudado a encontrar esse refúgio. Fê-lo, por obrigação cristã, embora soubesse bem do enorme risco que corria, pois o Marquês dava 10 mil cruzados (uma fortuna) a quem indicasse onde estava o foragido ou quem o tinha ajudado a escapar à morte pela fogueira. É que Sebastião José precisava de obrigar o José Policarpo a dizer que cometeu o crime de tentar matar o rei (que não cometeu) para justificar a armadilha que preparou para, barbaramente, liquidar a família dos Távoras.
E já ouvi de Nossa Senhora um outro pedido: escrever sobre a Associação dos Amigos do Marco no pós Ferreira Torres. Esta já será uma história de desilusão e muita ingratidão e desprezo pelo exercício da cidadania, razão de ser da própria democracia, de que vale também a pena deixar um testemunho. E sei que o bom amigo, Dr. Horácio Salgado, um dos fundadores desta Associação, lá no mundo das Videntes e de Nossa Senhora, ficará satisfeito, porque sente, como eu, que não há democracia sem cidadania.
As prepotências, as injustiças e as ingratidões não acabaram com a morte do Marquês de Pombal nem com a perda de mandato de Ferreira Torres, disse-me a Senhora da Lapa, quando junto à sua Capela meditava sobre tudo isso. E, de facto, assim é, mas só denunciando se pode corrigir os terríveis pecados do delírio do poder.
Nunca mais se aprende que o poder é um instrumento ao serviço dos cidadãos e não um báculo de glória e vaidade dos que se julgam acima da condição humana.

domingo, agosto 14, 2016

 

Nossa Senhora da Lapa



Amanhã é a festa da Senhora da Lapa, hoje conhecida por Senhora da Aparecida. Foi ali, junto a uma lapa (grande rochedo) das faldas da serra da Aboboreira que Nossa Senhora apareceu a três pastorinhas de S. João da Folhada no dia 13 de maio de 1757. Esquecida durante muitos anos, a festa é, agora, celebrada a 15 de agosto para satisfazer a devoção dos emigrantes.A aparição não é uma mera lenda. Nas Inquirições do Marquês de Pombal o, então, Abade de S. João da Folhada, José Franco Bravo, escreve:
Nos limites desta Freguesia, quase nos seus confins, do lado poente e sul a confinar com a Freguesia de Várzea de Ovelha, nas fraldas dos grossos e ásperos matos da serra da Aboboreira, na parte do Sul, num cabeço do dito monte, no dia 13 de Maio de 1757, quase uma hora antes do pôr do Sol, andando três criaturas de idade menor, de menos de 12 anos, apascentando umas ovelhas no tal sítio chamado o Outeiro do Preiro, sem que nada vissem, ouviram uma voz que as chamava, cada qual pelo seu nome. Duas chamavam-se Maria e uma Tereza. Ao virarem o rosto, viram sobre umas ásperas pedras uma mulher encostada às altas fragas, de mediana estatura, mas de tão brilhante e resplandecente rosto que ficaram admiradas e logo lhes pareceu não ser mulher desta terra. Aproximando-se dela, ainda que um tanto surpreendidas de verem tal mulher e em tal sítio, foram por ela acolhidas com afagos, convidando-as a aproximarem-se. Entretanto, advertiu-as que deveriam saudá-la. Pegou na mão de uma, a que tinha ar de mais inocente, e á outra, retirou-lhe um rosário que trazia ao pescoço e lançou-o ao céu, enquanto com elas falava. À terceira, que era mais adulta, repreendeu-a do vício de falar do demónio. A todas disse que, chegando aos locais onde residiam a todos pedissem que jejuassem a pão e água nas primeiras Sextas-Feiras e Sábados. E que o mesmo pedido fosse feito a toda a gente que encontrassem ou com elas falasse. Uma das crianças, a mais faladora, perguntou-lhe quem era. Respondeu-lhe que depois de cumprirem o que lhes pedira e de fazerem uma romaria durante nove dias contínuos ao redor daqueles penedos em louvor de Nossa Senhora lhes diria quem era. E as três meninas cumpriram o que lhes foi pedido. E mal deram a notícia, apareceu logo muitas pessoas, umas de perto, outras de longe, e todas consideraram que o acontecimento era um milagre.
E o Abade da Folhada, continuou: “ O que eu vi e observei, dei conhecimento ao mui Reverendíssimo Doutor Provisor deste bispado e pedi-lhe que mandasse averiguar o caso judicialmente. O referido senhor ordenou que fosse eu a observá-lo com prudência e que nada fosse desprezado. E empenhando-me a averiguar o melhor que pude e a colher o que os outros diziam, não encontrei, até ao presente, ninguém que contrariasse o que foi dito. Pelo contrário, encontrei pessoas muito fidedignas que me disseram ser um milagre, quando de noite, algum tempo atrás, se viu uma luz, no tal sítio, na véspera da Ascensão de Nossa Senhora de Agosto. Essa luz, que apareceu quase à meia-noite, era tão resplandecente que asseguram se podia ler uma carta à sua claridade à distância de quase meia légua. Nunca se tinha observado tanta luz. Além deste e outros testemunhos que recolhi, verifico que desde o ano passado ocorrem alguns milagres e o maior é a multidão de gente que continuamente ocorre para aquele sítio. Por consideração com o culto e devoção dessa gente, mandei colocar naquele sítio uma estampa de Nossa Senhora da Lapa e uma cruz de pau.”

O caso terá posto em sobressalto toda a gente da Folhada e das paróquias vizinhas. Só isso justifica a multidão de pessoas que para ali acorriam. E essa Aparição, a três inocentes pastorinhas, não poderia ter, para essa multidão de devotos, maior significado: eles sentiam que, no mundo em que viviam, depois do terramoto de lisboa, do cheiro a corpos queimados em autos-de-fé, das bárbaras execuções dos  Távoras e dos taberneiros do Portos, da decapitação do velho, honrado e bondoso jesuíta, padre Malagrida, da perseguição aos jesuítas, só Nossa Senhora os poderia salvar do abandono, aliviar do pavor e proteger da fúria das políticas do Marquês do Pombal.
É que o impulso das crenças harmoniza-se sempre com o mundo da vida, e Nossa Senhora da Lapa era, nessa altura, a única mão que encontravam para fugir do infortúnio!
Mas esta peregrinação de multidões só durou até à publicação do edital do Regimento do Santo Ofício da Inquisição, aprovado, em alvará, no dia 14 de agosto de 1774, assinado por Adriano José de Carvalho e Mello e de “próprio motu, certa Sciência, Poder Real, e Absoluto”, por D. José I, determinando:

 Todo aquelle que venerar a imagem de algum defunto não beatificado ou canonizado por autoridade da Igreja, posto que morresse em opinião de santidade será asperamente repreendido… e degradado para Castro Marim ou Cidade de Miranda por três anos…

Nas mesmas penas incorrerá aquelle que sem as precisas licenças pozer ou mandar pôr na sepultura do defunto alguma táboa, panno ou rotulo de milagres seus, ou imagens de qualquer cousa pintada ou pendurada, e lhe pozer alampada ou outro lume, ou lhe der outro algum culto ou veneração”.
Logo que esse edital foi colocado na Porta da Igreja e lido pelo Abade deixaram de se ver as multidões de devotos. A partir dessa altura, mal os primeiros raios de Sol secavam as últimas gotas de orvalho que humedeciam as flores colocadas nas campas das videntes, a coberto da escuridão da  noite pelos seus devotos, o coveiro tinha ordens para as retirar e levá-los para  o mais longínquo possível. O Abade da Folhada, José Franco Bravo, receava que o meirinho, os  muitos milhares de informadores do Secretário do Reino ou algum visitador da freguesia ou mesmo o Abade de Jazente, Paulino Cabral, amigo do Marquês e com um irmão juiz no Santo Ofício, desconfiasse que a ordem de Sebastião José não estava a ser cumprida.

O Abade levava muito a sério o que na altura se dizia: “Onde Sebastião de Carvalho e Mello pousar a mão para dar uma ordem ficam nódoas de sague.”
Foi, assim, que se perdeu no tempo esta devoção, só recuperada recentemente.

In: “As minhas Raízes”

 
 

quarta-feira, agosto 10, 2016

 

Avaliar consequências ...


Depois do terrível flagelo dos incêndios, depois da catástrofe da Madeira, o que irá acontecer? Os bombeiros serão dotados de melhores meios, os autarcas preocupar-se-ão  com a prevenção, os políticos promoverão a educação da cidadania na defesa do meio-ambiente, o eucaliptal passará a ter regras para a sua implantação não destruir os lençóis freáticos,  as casas das montanhas dos guardas das florestas e as escolas abandonadas serão entregues a quem  queira fixar-se no interior com a obrigação de defender o meio-ambiente? Os centros de saúde, as escolas, as finanças, os tribunais serão reabertos no interior para que as pessoas possam lá viver? Que planos de administração do território, sobretudo de zonas florestais,  serão criados? Serão estimuladas as freguesias, as associações e clubes locais a defender o meio-ambiente e distribuídos  meios para detecção e primeiros combates a incêndios ou deixa-se tudo para as agências que contratam aviões e helicópteros?

No meu entender, depois deste flagelo vai haver muitos elogios aos bombeiros,  medalhas dependuradas a granel em muitos incompetentes e, a seguir, quando tudo estiver mais calmo, a catástrofe é esquecida olimpicamente para regressar no próximo ano com a terrível e implacável destruição do que ainda resta da nossa riqueza fundamental: a vida das plantas e dos animais, o que resta de floresta.

O que mais me preocupa, me cria este pessimismo,  é o que é anterior às catástrofes ambientais: a falta de sentido de Estado dos políticos!

sexta-feira, agosto 05, 2016

 

O Governo tem atrás de si uma matilha que ao mínimo percalço lhe salta em cima. Quando governou a matilha fez o intolerável, mas está convencida que o povo não tem memória. E, se calhar, tem razão! Não creio que encerrem o assunto das viagens até aparecer outro que lhes convenha mais à necessidade de ruído contra o Governo. Naturalmente, ao País pouco interessam as investidas da matilha, mas, de qualquer forma, é bom, porque obriga a mais rigor na governação, ao PS a não dar tiros nos pés, nem a dar explicações que não explicam nada.

terça-feira, julho 26, 2016

 

Dia dos avós.


A vocação dos avós é afeiçoar os netos à imagem da sua ternura, do amor que lhes quer; é aprender com eles a soltar papagaios. Não sei se há um dia dos avós, mas há um crepúsculo da vida onde brilham raios de Sol. Diz a minha neta Inês que desenhou um árvore e que ela representa os avós e num galho está um passarinho que a representa. As minhas netas já sabem que as metáforas são o alimento da poesia e que sem poesia não soltamos papagaios  no tropel da vida.

 

Roubaram-nos a dignidade!


Roubam-nos a dignidade. Não sei que critério pode usar um autarca, uma assembleia municipal, para entregar uma medalha a quem é suspeito de crime. Que ideia terá esta gente da dignidade das suas funções? Que valor atribuem à distinção de uma medalha? Como cidadão, sinto isto obsceno! Dizem-me que numa autarquia, que conheço bem, para além de medalharem um suspeito de pedofilia, o presidente ao ser criticado por um medalhado respondeu-lhe mais ou menos nestes termos: “ O senhor é mal agradecido à medalha que lhe entreguei”.
São estes os autarcas que os partidos escolhem. Não haverá quem pense nas consequências deste abandalhamento para a ideia de dignidade, de cidadania, de respeito pelos valores, de coesão social?
Será que o poder local está entregue ao espírito das máfias?

sexta-feira, julho 22, 2016

 

Estamos em guerra. mas numa guerra de guerrilha.


Estou farto das análises dos politicólogos de serviço, estou farto da aceitação tácita do fatalismo terrorista, estou farto da ideia de que o terrorismo veio para ficar e que a humanidade está dividida em bons e maus. Também não vale a pena meter a cabeça na areia e ficarmos aterrorizados: estamos em guerra, uma guerra de guerrilha que deve ser tratada como tal. Não basta treinar polícias, equipar os Estados com a tecnologia mais sofisticada de controlo social, olhar para o que é diferente de nós como um terrorista, deixar que o medo seque a nossa respiração, etc. É preciso olhar para esta guerra, como ela é; precisamos de contar com a colaboração dos que têm uma religião, uma cultura, tradições, usos e costumes diferentes dos nossos para não sermos surpreendidos.  Só tendo do nosso lado a solidariedade dos que são diferentes de nós podemos vencer esta guerrilha.

O princípio da igualdade e da individualidade com que, após a Segunda Guerra Mundial, se procurou combater a xenofobia, o racismo e a exclusão social tem de ser recuperado. O multiculturalismo, com o reconhecimento de especificidades culturais, tem de acompanhar o interculturalismo, que abre as culturas diferentes ao diálogo e promove a abertura aos valores da dignidade humana.

Precisamos de confiar nas Instituições, porque a colocamos ao serviço do interesse público; precisamos de uma pedagogia do respeito pela dignidade humana, acima das diferenças de cultura, de raça ou de religião; precisamos de fazer compreender que a pobreza, a exclusão não é uma fatalidade. Mas isto não se faz, se os problemas socioeconómicos não forem resolvidos, se as instituições funcionarem em função de interesses privados, se os pobres forem esquecidos e cada vez mais pobres e em maior número, e se os ricos forem cada vez mais ricos e em menor número. Precisamos de combater a ostensiva exposição de riqueza, o darwinismo social e defender a solidariedade a todos os níveis para que, na luta contra a guerrilha terrorista, recuperemos os marginalizados para o nosso lado.

E esta luta faz-se na escola, na  universidade, nos locais de trabalho, na rua, nos transportes, no ministério dos assuntos sociais, com políticos competentes, com sentido de estado, valorizando o bem-comum, com a integração e promoção social. Sem políticos com espírito de serviço, sem políticas de integração social e sem o espírito de solidariedade, as armas dos polícias, o Estado Big Brother com suas tecnologias de controlo social, não serão capazes de nos defender.

terça-feira, julho 19, 2016

 

Uma releitura do que escrevi


Num livro “Horizontes da ética” que publiquei há mais de dez anos, a que o comentador Marcelo Rebelo de Sousa se referiu na altura (sem o ler, penso eu!) escrevi isto, que, ao reler, julgo actual e me apetece transcrever:

Perante o sofrimento, a “banalidade do mal”(como chamou Hannah Arendt ao holocausto judeu), nasce a consciência de que a vida humana não tem sentido sem o respeito pela dignidade humana e pelo direito a procurar a felicidade.
Já Aristóteles dizia há mais de dois mil anos: «todos os homens aspiram à felicidade». Mas, se perguntássemos «o que é a felicidade?», teríamos concepções completamente diferentes umas das outras. Para muitos, a felicidade está na posse de bens materiais, para outros, na saúde, na paz, etc. Não há um conceito único de felicidade, porque a felicidade e indefinível.
Segundo os romanos, são três os princípios de uma existência feliz: «honeste vivere; alterum non ladere e suum cuique tribuere». Ou seja, viver honestamente, não causar dano a ninguém e dar a cada um o que é seu. Poderíamos dizer que esses princípios são os princípios que tornam a moral necessária.
Kant considerou que o importante não é ter direito à felicidade nem ser capaz de a conquistar de algum modo, mas tentar resolver aquilo que em nós, no nosso eu, é um obstáculo à felicidade.
Isto é, o horizonte da felicidade está no saber querer. O excesso de generalização «os outros agiram dessa maneira, por que é que não posso agir de forma igual?» ou de particularismo (eu sou assim) não emergem de um saber pessoal que nos abre aos horizontes da felicidade.
A felicidade não está na ligeireza com que nos deixamos conduzir na vida, nem no «fechamento» do homem sobre si mesmo. O que o homem quer no mais fundo de si mesmo é não ser coisa, mas sujeito. Para isso, tem, no interior da sua própria consciência, de perguntar a si mesmo: “a minha acção confirma a minha «não-coiseidade»?”. Isto é, a minha acção abre-me à humanidade, tratando os outros como fins em si mesmos, tal como quero que me tratem, e não como um meio, um instrumento?!...Ora, a resposta a esta questão pressupõe a necessidade da ética.

Só a ética (ou a moral), como uma cultura de postura humana, nos abre a uma ideia universal de dignidade, bondade, justiça, solidariedade e cidadania.

Se a pergunta vier de fora, isto é, do que os outros pensam, perde-se aquilo que é específico na dimensão pessoal da ética e da moral e não nos torna dignos da felicidade.

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