sábado, janeiro 14, 2017

 

Saúdo o Congresso dos Jornalistas!

Gostava de saudar o Congresso dos Jornalistas. A sociedade que queremos depende muito da qualidade da informação que temos. Vivemos na sociedade da informação.
A boa informação não é aquela que apenas responde ao que o público gosta de ouvir, nem aquela que é ideologicamente dirigida, que procura manipular o público, e muito menos aquela que é gerada pelo pensamento espontâneo nas redes sociais.
Só é boa informação a que gera conhecimento, abre a possibilidade de organizar e dar um sentido critica à informação recebida. Não precisamos de muita informação, mas de sabê-la interpretar. A ideia que vem do positivismo de que a notícia deve ser factual é uma ideia armadilha. Os factos não falam por si, mas pelos olhos, a ideologia, de quem os interprete. A boa notícia, a boa informação, deveria, no meu entender, ser mais problematizadora que assertiva.
A crise do jornalismo é, sobretudo, uma crise de credibilidade da notícia e do papel dos jornalistas. Faço votos para que este Congresso seja um bom ponto de partida para a promoção da dignidade dos jornalistas e do valor da informação. Precisamos de uma informação que fale á inteligância dos leitores, que seja capaz de promover o conhecimento, no sentido mais aberto: o de formar uma consciência crítica sobre a vida e o mundo; ajudar a promover a cultura, na sua tripla dimensão: saber ver, saber interpretar e saber julgar.

quinta-feira, janeiro 12, 2017

 

Não sei quem disse, mas talvez tenha sido um filósofo ou um teólogo: “Somos seres indigentes”.  E é verdade!... A maior carência é a da amizade. Precisamos dos amigos. E nisso tem razão Epicuro, quando nos diz: “De todas as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade”.  

Encontro-me periodicamente com estes amigos. Já nos conhecemos há longos anos: temos muitas coisas em comum e em muitas outras divergimos, mas o denominador comum é sempre o mesmo: os laços de amizade que o tempo foi apertando. Sempre que nos encontramos é sempre uma festa e o Júlio Roldão traz-nos sempre mimos -- um poema, um quadro por si pintado ou um livro. O Júlio sempre foi assim: um amigo generoso! Hoje decidimos pagar-lhe o almoço pelo que nos gratifica com os seus presentes e a sua verve tão mordaz como humanamente rica. E bem merecia que fosse sempre o nosso convidado em todos os almoços. Mas ele tem razão: convidado desconstrói os vínculos que a amizade cimenta. Não há o Júlio, mas o GRUPO DOS QUATRO, o único -- e nada de confusões!

quarta-feira, janeiro 11, 2017

 
O que será a morte? Não consigo adivinhar o que existe para além da vida. Sei dos sentimentos que nos ficam de alguém que partiu! Sentimos que a noite fica mais escura, que o Sol já não sorri, que o silêncio se torna frio, que não há madrugadas nas flores e que os olhos ficam embaciados pela triste solidão.
Solidão é talvez a palavra que mais define o luto. Solidão enorme, solidão entre solidões de todos se sentirem em si sozinhos, sem o amigo que já não está ali, estando bem ali, com sua voz da noite, trazendo-nos por dentro velhas histórias, coisas boas da vida. E nessa confidência esquecemos a raiva e a dor de já não o termos ali.

domingo, janeiro 08, 2017

 

Mário Soares


Sei que Mario Soares ficará na História; sei que marcou os destinos da Europa e de África; sei que Mário Soares foi um combatente contra o fascismo; sei que Mário Soares foi perseguido e sofreu com a prisão e o exílio a defesa dos seus ideais; sei que Portugal poderia ser outro sem Mário Soares, mas já não sei se para melhor ou pior (não posso falar sobre o que não aconteceu!); sei muito sobre Mário Soares, aquilo que todos dizem e que alguns ignoram; sei que foi talvez o político de quem mais aldrabices se disse e mais se caluniou; sei que muitos falam de Mário Soares sem saberem o que dizem.

Mário Soares partiu e com a sua partida ficamos mais pobres. É bom recordar a sua vida, a sua luta, o seu humanismo e a sua maneira de ser! E convém não perder de vista o movimento que criou, os que aderiram às suas ideias, os que construiram a obra que lhe atribuem. É que os grandes políticos fazem-se pelas circunstâncias  e, por isso, não será displicente  lembrar a propósito de Mário Soares os capitães de Abril e fazer sobre tudo isto as perguntas que Bertol Brecht colocou num operária:


“Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis,
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilónia, tantas vezes destruída,
Quem outras tantas a reconstruiu? Em que casas
Da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde
Foram os seus pedreiros? A grande Roma
Está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem
Triunfaram os Césares? A tão cantada Bizâncio
Só tinha palácios
Para os seus habitantes? Até a legendária Atlântida
Na noite em que o mar a engoliu
Viu afogados gritar por seus escravos.

O jovem Alexandre conquistou as Índias
Sozinho?
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha
Chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos
Quem mais a ganhou?

Em cada página uma vitória.
Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem.
Quem pagava as despesas?

Tantas histórias
Quantas perguntas


Bertolt Brecht

 

sexta-feira, janeiro 06, 2017

 

Uma triste Notícia!

A notícia chegou-me depois de regressar do Marco: partiu, sem me dizer adeus, o meu amigo Coronel de Infantaria Virgílio de Paiva Barreto de Magalhães.
Eramos conterrâneos e amigos. Foi um dos melhores alunos que passou pelo Colégio que ambos frequentámos, embora ele fosse mais velho do que eu cerca de cinco anos. Admirava-o pelo seu carácter, pela sua forma de estar na vida. Fiz com ele um livro sobre um outro militar, talvez o mais medalhado da história do exército português, o Coronel Médico Fenando Miranda Monterroso.
Durante a elaboração do livro, recuperámos conversas de velhos tempos, partilhámos preocupações sobre a nossa Terra, os nossos amigos, o País e o mundo em que vivemos. Era um prazer falar com o Virgílio. Lia muito e era raro o livro de que falássemos do qual ele já não tivesse uma opinião fundamentada.
Partem os melhores dos nossos amigos e conterrâneos. Cada vez ficamos mais pobres!

sábado, dezembro 31, 2016

 

Vem novo ano, vem
Aquece-nos com flores de Abril
Coloca no futuro sonhos renovados

Vem novo ano,  vem
Faz erguer o pássaro primaveril
Desprende-nos das noites do passado

Vem novo ano, vem
Surpreende-nos no amanhecer
Dá asas ao destino esperado


sexta-feira, dezembro 23, 2016

 
Gostava de escrever um poema de Natal
Que não falasse da acidez das lembranças
Não fosse uma reluzente operação de fantasia

Gostava de escrever um poema de Natal
Com três cravos na mão apenas!
E uma brisa de amor por companhia.

Gostava de escrever um poema de Natal
Sem as ondas raivosas nos rochedos
Sem a voz dos magoados silêncios do medo

Gostava de escrever um poema de Natal
Onde as palavras gravassem uma melodia
E fizesse a transfiguração da noite em dia

Gostava de escrever um poema de Natal
Que recolhesse dos gestos abandonados
As carícias que nas sombras se perderam

Gostava de fazer um poema de Natal
Onde falassem por mim os pássaros e o vento
E da vida se fizesse um sonho completo
Onde bebêssemos o azul da ternura que invento.

terça-feira, dezembro 20, 2016

 

Negócio a misturar ética dá sempre vigarice!


Podiam falar baixo e não me permitiam que estivesse atento ao que lia durante o café , hoje, de manhã. O sujeito que tinha a seu cargo a despesa da conversa era um rapaz  novo, talvez dotado de todas as técnicas de argumentação que se aprendem para vender casas, conquistar votos ou  ser comentador na TV de política ou desporto, coisas que andam sempre muito ligadas. Falava alto, argumentava que era incapaz de prejudicar sicrano ou beltrano, porque sempre colocou a ética acima dos negócios, etc. Nesta altura, o meu ouvido direito levou para dentro de mim o conselho que sempre dei aos meus alunos: “Quando ouvirem argumentar com a ética metam a mão ao bolso e certifiquem-se se a carteira não fugiu”!
E o sujeito da despesa da conversa continuava, continuava… Depois de quase uma hora, baixou o nível dos decibéis e, como se estivesse num lugar sagrado, cresceu para junto das cabeças dos seus coloquiantes e disse: se o senhor me resolver isso (compra de uma casa) recebe um envelope com 5.mil euros e a senhora recebe outro.
Confirmou-se que continuo a ter razão nos meus conselhos! E percebo por que Trump e outros trumpistas ganham eleições!

domingo, dezembro 18, 2016

 

Dia de caça


Reconheço que tenho amigos que  detestam a caça. Vêem nesse desporto resquícios do barbarismo. Mas não têm razão. E se um dia comerem das perdizes que cá por casa se cozinham percebem que o produto cinegético é divinal, nada tendo a ver com a carne desses animais que, sem hipótese de fugir, morrem à má fila com um ferro espetado na cabeça ou, então, com o choque eléctrico.

 

Além disso, não há matéria mais divertida do que as estórias dos caçadores. E essas estórias, desde os primórdios dos tempos, sempre se contaram como verdadeiras. E isso foi logo uma vantagem que os políticos copiaram, só com uma grande diferença: a de que nos querem fazer crer que a verdade é uma boa-estória.

A caça foi a primeira actividade a que o homem se pôde dedicar para preencher a vida com gozo.  E foram os primeiros a praticar conhecimentos em interactividade: no entusiasmo pela procura da rês, cada elemento conjuga com os restantes esforços, enfrenta cansaços, desafia perigos e assume livremente o papel de tudo fazer para que, na faina, a rês se dirija para quem do grupo esteja melhor colocado para a segurar.
Arriano Xenofonte, (92/ 175 d.C.), historiador da Roma Antiga, no Cynegeticos (ou Tratado de Caça) descreveu as caçadas dos Celtas e, já nessa narrativa, a criação de cães para a faina cinegética era ambição maior do melhor gosto. E colocavam o cão de tal maneira ligado à vida do caçador que até queriam o cão ao seu lado na sepultura, coisa que não vejo o PAN reivindicar.

Até o cozinhar no monte exige dos caçadores muita perícia! Nem nos restaurantes gourmet  há as exigências que são levadas a cabo pelos nossos cozinheiros de serviço. Aliás, diga-se de passagem, não há melhor cozinheiro do que um caçador. O meu grupo pode testemunhá-lo. Nesta caçada não foi só o eng. Moita e  o sr Álvaro que levaram a cabo essa tarefa. Eu mesmo tive de me aperfeiçoar para encontrar o talher apropriado: um pau de giesta em forma de fisga para recolher o bacalhau e o frango divinalmente assados, sempre acompanhado pelo branco ou tinto do companheiro Afonso Bica. Mas também houve champanhe, aguardente velhinha, queijo da Serra da Estrela, doces de Tondela e café.  Tanto assim foi que me encostei a uma árvore e entrei logo na “sossega”, só acordando quando, junto a mim, passou em grande velocidade, tipo corrida de S. Silvestre,   aí umas trezentas vaquinhas, brancas e negrinhas, que faziam da serra uma aguarela impressionista.
No final, no hotel onde costumamos ficar, fizemos a nossa tradicional de natal com a indumentária ajustada!
Com a Revolução Industrial, a cultura, os hábitos e os costumes da vida rural foram perdendo importância. O crescente monopólio da cultura urbana passou a repudiar a caça. E é pena!...

quinta-feira, dezembro 15, 2016

 

O entardecer chamou o frio,
e a neblina virou-me a cidade para dentro.
Não há inquietude, apenas silêncio e chuva
no puro caminho de uma interioridade.
A cidade afaga-me com a sua nostalgia,
e as utopias, os amigos e os afectos de outros tempos
chamam por mim em cada passo do meu destino.
E neste intimismo nasce o dialogo
de mim para a cidade que vive em mim.
Acordo a saudade nas ruas adormecidas
E nas cinzas do tempo o amor renasce.
A cidade é o espirito de um tempo.
E, por dentro, como é linda a minha Cidade!...
jbmagalhaes

terça-feira, dezembro 06, 2016

 

Deixem-me este desabafo:


Sou do tempo em que lavrador era a condição social mais baixa, quase uma ofensa chamar a alguém lavrador. O que dava prestigio era ser operário. Quem não se lembra da Internacional Socialista?!.... Até o estudante era considerado um trabalhador intelectual e a capa e batina um sinal de elitismo pequeno-burguês. Depois veio o tempo dos doutores. Quem passasse por Coimbra e quisesse ter um tal tratamento de excelência, bastava procurar um engraxador de sapatos. Os doutores emergiram por todos os lados, como cogumelos, com as universidades privadas.
Fabricava-se doutores como quem fabrica botões. Desses doutores de aviário, uns viram morrer os seus sonhos nos call-centres outros foram para a política. Dizia-me um chico esperto: “já disse ao meu filho para se inscrever no PSD”.
Os que se formaram como trabalhadores, isto é, com muito estudo e investigação, emigraram e quase todos já não voltarão para Portugal. O contribuinte pagou esse investimento que foi para Inglaterra, França, Alemanha, etc.
Não deveria merecer um voto quem inculca a ideia de que ser estudante é mais do que ser agricultor ou operário. O elitismo chateia-me e já não tenho idade para essas merdas!.....

sábado, novembro 05, 2016

 

Uma condecoração bem merecida.


Tive pena de não poder estar presente. O Prof. Dr. Mota Cardoso, ao lado do Dr. António Arnaud (o Homem do SNS), recebeu ontem, durante o Congresso Nacional de Medicina, na Universidade de Coimbra, a medalha de ouro pelo mérito pessoal do seu contributo para a dignificação do exercício da medicina.
O Prof. Dr. Mota Cardoso é um velho amigo e sou dos que sempre sentiram a felicidade dos seus amigos como sua própria felicidade. Não estranhei que recebesse essa medalha. Foi um reconhecimento do seu valor como homem generoso, um profissional digno, que vive a sua profissão com espírito de serviço e humanismo.

segunda-feira, outubro 31, 2016

 

A bem da democracia

Associação dos Amigos do Concelho do Marco de Canaveses vai ter a sua sede.
Durante quase duas décadas funcionou em escritórios de amigos. Não tínhamos remetente institucional e todas as iniciativas, desde publicação de textos, contactos com personalidades, elaboração de um jornal, etc. fazia-se à custa da militância pessoal e com remetente privado.
Foi o espírito de cidadania, a consciência dos deveres democráticos, o sentir a responsabilidade do vínculo que, como cidadãos, nos liga à comunidade e nos obriga a colocar exigências de justiça, liberdade e igualdade, que nos fez superar todos os obstáculos que encontrámos.
Fica, por isso, bem e ajusta-se à natureza da Associação dos Amigos do Concelho do Marco, que a Autarquia, através do seu Presidente, Manuel Moreira, propusesse para sua sede umas instalações, mesmo ao lado da sede do Núcleo dos Combatentes, no Jardim que tem o nome do Fundador do Concelho, Sr. Adriano da Picota, como os marcoenses sempre o conheceram.
Não poderíamos ficar melhor, nem poderia ser mais significativa a proposta do Senhor Presidente da Autarquia. Todos os marcoenses que gostam da sua Terra, sabem muito bem que isso, noutras épocas, seria totalmente impossível, a menos que a Associação deixasse de lutar contra a arbitrariedade e o caceteirismo e se tornasse num instrumento servil do poder que imperava no nosso Concelho.
Os objectivos da AACM só são políticos no sentido genuíno da palavra: compromisso com uma “cidade” humana (Polis) mais justa, mais fraterna e mais tolerante. Pois é no seio da comunidade política (e não isolado e independente dos outros) que o Homem desenvolve a virtude do viver de harmonia com os valores e se torna num homem justo e bom.
Já Aristóteles, no seu “Tratado Político”,  dizia: “Assim como o homem civilizado é o melhor de todos os animais, também aquele que não conhece a finalidade da política na promoção da dignidade humana e da felicidade entre os homens é o pior de todos”.
É neste sentido que entendemos a política e é, também, neste sentido que entendemos a democracia.
“Não há democracia sem cidadania”, foi sempre este o nosso lema.  Acreditamos que pelo confronto de ideias, a vontade subjectiva se submete à vontade geral, o argumento racional se sobrepõe ao poder do domínio pessoal.
Não entendemos a política como uma profissão exercida através dos partidos, mas como uma postura cívica, que emana da natureza humana, do direito de criar expectativas sobre a felicidade da nossa sociedade e o dever de lutar por elas. E foi esta uma das razões que nos levou a criar a Associação dos Amigos do Marco de Canaveses num dia 25 de Abril, há mais de 20 anos.
Além desta finalidade,  tem por objectivo promover debates, estudos, publicar textos, contribuir para a defesa do património ambiental, histórico e cultural do Concelho.
Muitas vezes, confundimos cultura com conhecimentos ou saberes, mas o conhecimento ou os saberes não fazem, por si, um homem culto: há eruditos que são ignorantes e há muitos tecnocratas que são incultos. A cultura não consiste em possuir muitos saberes ou conhecimentos, mas em saber utilizá-los. A cultura  é o que fica no espírito, quando todo o resto foi esquecido.
Na mitologia grega, as musas e deusas cultas eram filhas da Memória, mas elas distinguiam-se da sua mãe. Talvez, por isso, Marguerite Yourcenar considerasse o tempo (morada da memória) o grande escultor do espírito. A cultura permite ao homem construir uma visão critica de si, dos outros homens e do mundo. Mas precisa da memória como referência dessa construção.
Neste sentido, também pretendemos promover o reconhecimento do mérito, através de um prémio anual a quem se tenha destacado no Concelho por levar a cabo aquilo que, nas diferentes expressões da vida social, foi considerado excelente e, por isso, muito distanciado daquilo a que, por dever profissional ou outro, seria obrigado.
O reconhecimento do mérito é uma virtude social, é o que devemos àqueles que foram melhores do que nós. E para que o prémio não se banalize, desvalorizando o mérito que deve ser reconhecido, só o atribuiremos anualmente e a uma personalidade.
Os Corpos Sociais e, particularmente, a Direcção, estão felizes por esta promessa da Câmara e já só esperam assinar o protocolo que irá estabelecer a cedência das instalações para a sede da Associação dos Amigos do Marco.
Esperamos ganhar com isso um novo dinamismo, que mais sócios apareçam (a cota anual é apenas de dez euros)  e que tenhamos mais condições para desenvolver os objectivos consagrados nos  estatutos da Associação.
Vamos fazer da abertura da sede uma festa, não só dos sócios, mas de todos os amigos do nosso Concelho.

30 /11/ 2016
Pela AAMC
João Baptista Magalhães
(Presidente da Assembleia Geral da AAMC)
http://amigosdomarcodecanaveses.blogspot.pt/2016/10/a-bem-da-democracia_31.html?spref=fb

segunda-feira, outubro 24, 2016

 

Sem amigos ninguém escolheria viver


Não nos víamos há mais de 50 anos! É muito tempo, tempo de mais de meio século. Muitos já partiram sem dizer adeus. Fizémo-los viver com o coração a soluçar por dentro e sem demora para não sangrar a alma do nosso encontro.
São as feridas da saudade, quando levada de encontro ao peito, é a dor de querer colocar no presente tudo o que a memória de bom traz do passado.
Suponho que foi Hesíodo, na sua Teogonia, que identificou o reino do ser com o reino da memória e a negação do ser com o esquecimento.
A memória na antiguidade era uma deusa: Mnemosyne. Instituiu a identidade e guardou os melhores bens, como é a amizade.
Tem razão Aristóteles, quando na Ética a Nicómaco, garantia: “ Sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que houvesse outros bens”. E Epicuro, considerado o filósofo da amizade, assegurou: “De todos as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade”.
A amizade é uma dádiva que flui sem avisar, resiste ao egoísmo, faz da vida um fraternizar e quando a tristeza aparece transforma-a em canto de esperança.
Wittgenstein sublinhou que “os aspectos mais importantes da vida estão ocultos” e é isso que acontece com a amizade. Desoculta-se nos afetos que são os seus sinais no mundo da vida.
Foi isso que senti no encontro dos Olivais, com antigos companheiros perdidos, como gaivotas que foram dispersando no mar revolto da vida. Agora, voltamo-nos a reencontrar, sem a espuma do arrepio entre os rochedos do mar. Fez-se no abraço o nome de primo, como eu era conhecido.
Se eu tivesse engenho e arte fazia deste reencontro na minha terra um poema da amizade. Foi festivo o abraço entre sorrisos, que demos no Restaurante Magalhães, o local de encontro,  com o João Vinagre, o Sereno, o Eugénio, o Cabral, o Manel Mourão e quase todo trouxeram as suas esposas.
Se deus existe, e eu desconfio que pode existir, chamar-se-á amizade. Pois veio do divino este encontro, esteve connosco na igreja do Siza, em Tongobriga, na minha casa, na Casa da Quintã da Folhada e permaneceu até ao almoço do outro dia na Enoteca da quinta de Avessada, em Favaios, do meu amigo Barros.
Depois, partiram e deixaram a saudade de um próximo encontro da primalhada, como passamos a designarmo-nos.




domingo, outubro 23, 2016

 

GENTE QUE FAZ UMA TERRA DECENTE




ADRIANO JOSÉ DE CARVALHO E MELO

O Marco de Canaveses tem muita gente que fez da sua Terra uma terra decente. Basta conhecer a sua história, conhecer a postura  dos seus melhores filhos, para que nos entristeça ouvir falar do Marco de Canaveses como a terra do “mata e queima”, do Zé do Telhado ou, ainda, de algumas figuras grotescas.
Não é possível dar a conhecer todas as personalidades que nos honram como nossos conterrâneos. Mas é pena que não se faça! E não me refiro a Carmem Miranda que só se tornou notável, porque o seu pai a tirou do Marco e a levou, em tenra idade, para o Brasil. Se continuasse na terra onde nasceu (que nunca adoptou!) pertenceria hoje ao imenso número de gente desconhecida, a que ninguém  ligaria absolutamente nada.
Lá aonde estiver, a Carmem Miranda só pode agradecer aos brasileiros a notabilidade que granjeou e há-de rir-se dos marcoenses, quando se servem do seu nome para o colocar em ruas e museus e esquecem o abandono a que a votaram em menina. Podia ser uma autocrítica a relevância que lhe dão, mas parece uma festa semelhante à dos  cucos que põem os ovos nos ninhos dos outros para criarem os seus filhos.
Merecia muito mais relevância, por exemplo, José Monteiro da Rocha, Reitor da Universidade de Coimbra, criador do observatório astronómico e chefe da missão que teve como objectivo estabelecer os acordos de paz com as tropas napoleónicas. Nasceu e cresceu em Canaveses e nunca esqueceu a sua Terra. Ou, então, os criadores do Concelho, os Homens que estiveram na origem na Misericórdia do Marco, dos Bombeiros (e que nesta missão morreram) os que se distinguiram nas artes, na ciência, etc.
É este tipo de gente que me interessa! Nela poderemos configurar o sentido de ser marcoense, incapaz de renunciar à sua Terra, mas sempre empenhado em dignificá-la, sem esperar qualquer recompensa.
Precisamos de referências exemplares que estimulem a ligação à nossa Terra, façam a coesão social e cimentem os laços de confiança que promovam o gosto de ser marcoense, de investir no seu Concelho e sentir como seu sucesso, o sucesso da sua autarquia.
Aliás, não é  este sentimento que dá sentido à ideia de autarquia e de cidadania, “governo dos próprios pelos próprios”?!....
Não se constrói o espírito autárquico, sentindo-nos náufragos, numa ilha entregue a um só homem, deixando-nos à sorte dos nossos próprios recursos. Ou então, ficando como um bando de cucos, sempre à espera de ninhos onde possam colocar os seus ovos.
A  origem do concelho do Marco  não é muito longínqua. Surgiu em meados do séc. XIX. A sua criação deveu-se ao deputado da Nação, Adriano José de Carvalho e Mello, nascido no lugar da Picota, em Tuas, e por isso conhecido por sr. Adriano da Picota. E teve uma justificação forte para que a Assembleia e o Governo do reino aderissem á sua ideia.
Nessa altura, campeavam pelas diferentes comarcas grupos de pobres diabos, que, durante a noite, com armas de carregar pela boca, intimidavam viajantes para os roubar e assaltavam casas nobres para sacar o ouro e a prata que trocavam por poucas patacas nos receptores que, com isso, tal como hoje, ficavam mais ricos do que os que roubavam pela acção directa. Um desses chefes foi Zé do Telhado, um antigo combatente da pacificação de Africa galardoado com a medalha de Torre e Espada.
Abandonado pela pátria que serviu, fez aquilo que sabia fazer: comandar um pequeno grupo para defender o pão que faltava à sua família. Tornou-se, nessa matéria, um empreendedor, tão esmerado que até se dizia que “roubava aos ricos para dar aos pobres”. Se fosse hoje, e quisesse inverter a causa “roubar aos pobres para dar aos ricos”  poderia muito bem ter chegado a banqueiro.
Assaltou a Casa de Carrapatelo e matou um criado. Foi uma péssima referência para a Região. Ficando sem castigo,  manchava a própria dignidade do povo desta terra. Assim o percebeu o Sr. Adriano da Picota,  quando jurou que o prenderia.
Prendê-lo e à sua quadrilha, estivessem onde estivessem, obrigava a uma reforma administrativa que desenvencilhasse as autoridades dos empecilhos burocráticos. Não era permitido à polícia entrar numa comarca sem autorização do seu administrador. 
O deputado Adriano José de Carvalho e Mello não ficou pela retórica das boas intenções. Não separou o Zé do Telhado do seu grupo, como muitos costumam fazer, e para alargar o âmbito das investigações da sua polícia, propôs à Assembleia e ao Governo do reino que fosse unida a comarca de Soalhães à grande comarca de Benviver, que compreendia uma grande extensão, indo de Gouveia até S. Lourenço do Douro, tendo em Sande a sua sede.
Apresentou essa ideia na Assembleia e ao governo da  Coroa e lutou, sem o alardear que hoje é costume, para que  o concelho de Soalhães e de Benviver se tornassem numa única comarca, sugerindo  que o novo concelho se denominasse Marco de Canaveses.
Pelo Decreto de 31 de Março, em 1852 foi, então, criado o Concelho do Marco de Canaveses. No artº 1º estabelecia: “São reunidos num só concelho, os concelhos de Soalhães e de Benviver”.  E no artº 2º dizia-se:  “O novo concelho passa a ser denominado Marco de Canaveses” e os seus habitantes marcoenses (do Marco, escrito com “o”  não com “u”).
A esta distância, a reforma administrativa que o sr. Adriano da Picota promoveu levanta uma questão:  por que se lembrou Adriano José de Carvalho e Mello de denominar  Marco de Canaveses o novo concelho, se não há nas comarcas aglutinadas algo que deixe antever essa  designação?!...
Adriano José de Carvalho e Mello, para além de deputado, fora administrador do concelho de Soalhães, com Casa Municipal no “lugar do Marco”. Ali, antes de ser construída a casa municipal, havia um marco de pedra que limitava dois coutos que vieram a dar origem às freguesias de Fornos, S. Nicolau e Tuias. Situava-se na planura onde se levantou a Casa Municipal e, hoje, está o  edifício da Câmara Municipal.
Canaveses era uma Beetria; isto é, uma importante povoação rural que desde a alta Idade Média tinha o privilégio de escolher livremente os senhores que reunissem as melhores qualidade para defender o bem-estar do povo da localidade. Isso era a maior exigência duma povoação que tivesse  grande desenvolvimento económico e era o que lhe dava mais prestígio.
A toponímia Canaveses terá a ver com três circunstâncias: o lugar situado junto ao Rio Tâmega proporcionava a cultura do linho “cânave”. Os que o produziam eram os “canaveses”, como se dizia no português antigo. Por outro lado, por ali terá passado a estrada romana Tamacana-Via e os que ali habitavam “tamacanavienses” que se foi simplificando até canavienses e, logo depois, canaveses. Acresce, ainda, que nesse lugar também havia as “Aquae Tamacanae” conhecidas, hoje, por Caldas de Canaveses.
A simplificação fonética foi determinando que o local se fixasse em Canaveses e, como podemos inferir, com o grande prestígio que lhe vinha de ter sido uma Beetria, o sr. Adriano da Picota não teve dificuldades em convencer a Assembleia e o Governo da coroa de que o novo concelho fosse designado por  Marco (a que pertencia a  “Casa municipal”) de Canaveses, fixando a sua centralidade nesta região.
Com as condições criadas, a polícia que estava às ordens do administrador Adriano José de Carvalho e Mello foi prendendo os quadrilheiros, só escapando o Zé do Telhado. Entretanto, José de Carvalho e Mello deixou o cargo de primeiro administrador do concelho do Marco de Canaveses e foi ocupando outros cargos, como o de governador-civil de Bragança, de Braga e, por fim, Comissário da Polícia do Porto. Nunca esqueceu a sua promessa e com  estas novas competências a expensas suas (nessa altura, com o fontismo, Portugal entrou na bancarrota) mandou fardar, armar e preparar um corpo da polícia que apenas tinha como objectivo prender para ser levado à Justiça o Zé do Telhado. E conseguiu-o: descobriu-o na Ribeira do Porto, escondido debaixo de um lote de caixas de bolachas que, no barco “Oliveira” se preparava para levantar âncoras em direcção ao Brasil.
Não sabemos o que faria, hoje, o sr. Adriano da Picota, se os ladrões e seus cúmplices fossem os de colarinho branco!  Se procedesse como procedeu em relação ao Zé do Telhado, teríamos de concluir que não separava o chefe da quadrilha dos acompanhantes, os de colarinho branco dos maltrapilhos, e, por isso, sabia defender as virtudes da honra  e da dignidade que constituem o valor fundamental da democracia e da cidadania numa Terra de gente decente.
João Baptista Magalhães

quarta-feira, outubro 05, 2016

 

Agradecido.


A todos os meus amigos, companheiros ou camaradas, que vieram simpaticamente conformar-me com parabéns por mais um dia a somar a todos os dias da minha vida, venho agradecer. Vocês todos são muito gentis para comigo, mas, dentro de mim, confesso que, como Álvaro de Campos, só quero dizer:


“Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...
O tempo em que meus pais festejavam o dia dos meus anos!...”

segunda-feira, setembro 12, 2016

 

Autorregulação ou anda em roda livre?


Simpatizo com este governo, mas em matéria de conduta de cargos públicos fazer apelos à consciência profissional ou de desempenho, a que chama autorregulação, não me convence. A consciência só diz o que o próprio quer que se diga. Apelar à autorregulação é como andar em roda-livre. Preferia mais rigor!

Por exemplo, por que não colocam no articulado dos deveres de conduta, estas ideias simples do Padre António Vieira. Ele é tão citado, por que não o levam a sério?

Bastariam duas ideias que surgem no seu “Sermão do Bom Ladrão”! Ora reparem:

1ª – Como introdução: “Os particulares, se lhe roubarem a fazenda, podem perdoar o furto a quem os roubou; o Rei ou governante não administra a sua fazenda,  senão a da república e, por isso não é só responsável pelo que furta, mas também pelo que deixa furtar”

2ª-  A república é a “coisa de todos” e, por isso, os governantes não só não podem aceitar favores particulares, como devem zelar pelas contribuições que os cidadãos entregam para o bem de todos. Assim:

Preceito único:“(...) aquele que tem obrigação de impedir que se furte, se o não impediu, fica obrigado a restituir o que se furtou. E até os príncipes (ou governantes) que por sua culpa deixaram crescer os ladrões, são obrigados à restituição do que eles roubaram; porquanto as rendas com que os povos os servem e assistem são como estipêndios instituídos e consignados por eles, para que os príncipes os guardem e mantenham com justiça”.

3ª Seguindo o princípio da ética da responsabilidade: responder pelas consequências de não exercer com espírito de serviço público um cargo da República (ao receber bens privados ou ao permitir que os ladrões de colarinho branco roubem), obriga: a demissão do cargo e a repor com os seus bens o que os ladrões roubaram à república.

Bastavam estes três princípios para acreditar na seriedade de um código de conduta. Assim, nunca há consequências penais e é só poeira para olhos incautos! E o PS deveria ser diferente.

 

Um almoço de caça.


Todos os anos convido alguns dos meus amigos para um almoço de caça. No sábado passado foi o dia desse repasto anual. Houve perdizes e veado para reconciliar um desporto muito ligado à natureza, que pratico desde muito novo, com a amizade.  Ortega e Gasset assegura, no seu livro, “Sobre a caça e os touros”, que a mais ilustre amizades, entre o grego Políbio e o Cipião Emiliano, foi ocasionada em torno da caça. Já o posso confirmar! E, se a amizade se guarda no mundo da memória, nada melhor do que fazer partilhar os amigos com o resultado de uma caçada. Só tive pena que a maioria do grupo de caçadores, a quem devo a caçada, não pudesse aparecer. Os que vieram, trouxeram as suas companheiras e, depois do almoço, houve fado, fado de Coimbra, naturalmente. Foram estes, nomeadamente as baladas do Zeca, que durante os melhores anos da nossa vida cimentaram os laços que, ainda hoje, nos prendem. Este manjar, quase divino, realizou-se, como no ano passado, no Restaurante Quinta do Beiral, na minha Terra,  e o delicioso vinho foi do nosso amigo Miranda, da sua produção “Quinta do Burgo”, também na minha Terra, a Folhada. No final, como não podia deixar de ser, cantamos o adeus à Folhada, mas é só até ao próximo ano!

quinta-feira, setembro 08, 2016

 

Entrevista do Juiz carlos Alexandre


Gostei da entrevista de Carlos Alexandre à SIC. Sempre admirei o espírito de missão e, detestando a guerra, tive sempre pelos militares grande admiração. Carlos Alexandre tem esse espirito de missão semelhante ao militar que cumpre o seu dever de servir a Pátria. Sei que, hoje, com as muitas situações dilemáticas com que nos debatemos, a ética Kantiana perdeu alguma força. Mas sem o imperativo categórico, de cumprir o dever, porque é o dever, desaparece todo o sentido da ética e da justiça. Hoje vivemos numa sociedade que fala muito nos direitos, mas esquece os deveres e, talvez, por isso, não faça dos valores, dos princípios e normas, que deveriam ser integrados pela educação, tradição e cultura, os orientadores do modo de agir.

Gostei da entrevista de Carlos Alexandre. Não sei se fez ou não sempre justiça, mas pareceu-me um homem justo, porque age por respeito a um dever. Não é, por isso, uma pessoa de quem se possa ter medo! https://www.noticiasaominuto.com/pais/650312/juiz-carlos-alexandre-nao-sou-pessoa-de-quem-se-deva-ter-medo

segunda-feira, setembro 05, 2016

 

Na Senhora da Lapa

Em meados de agosto de 1774, quando os primeiros raios de Sol secavam as últimas gotas de orvalho que humedeciam as flores colocadas nas campas das videntes da Senhora da Lapa, em S. João da Folhada, ( minha Terra) , a coberto da escuridão da noite pelos seus devotos, já o coveiro de S. João da Folhada cumpria as ordens do sr. Abade: retirar todos os sinais de veneração e levá-los para local mais escondido e longínquo possível. Receava que algum dos muitos milhares de informadores do Secretário do Reino, algum visitador da freguesia ou mesmo o Abade de Jazente, Paulino Cabral, fossem levados a pensar que na sua paróquia não se cumpriam as ordens que vinham em edital do Regimento do Santo Ofício da Inquisição, aprovado, em alvará, no dia 14 de agosto de 1774, assinado por Adriano José de Carvalho e Mello e de “próprio motu, certa Sciência, Poder Real, e Absoluto”, por D. José I, determinando:
“Todo aquelle que venerar a imagem de algum defunto não beatificado ou canonizado por autoridade da Igreja, posto que morresse em opinião de santidade será asperamente repreendido… e degradado para Castro Marim ou Cidade de Miranda por três anos…
Nas mesmas penas incorrerá aquelle que sem as precisas licenças pozer ou mandar pôr na sepultura do defunto alguma táboa, panno ou rotulo de milagres seus, ou imagens de qualquer cousa pintada ou pendurada, e lhe pozer alampada ou outro lume, ou lhe der outro algum culto ou veneração”.
O Abade, José Franco Bravo, levava muito a sério o que na altura se dizia: “Onde Sebastião de Carvalho e Mello pousar a mão para dar uma ordem ficam nódoas de sague.” E havia razões para isso: Nossa Senhora recomendara às três pastorinhas que “fizessem penitência dos pecados que na Corte eram cometidos, com jejum a pão-e-água nas primeiras sextas-feiras e sábados e que recomendassem isso mesmo a todas as pessoas que encontrassem”.
Este apelo trazia-lhe à memória o Padre Malagrida e o seu livro “As Verdadeiras Causas do Terramoto”, onde defendia a ideia de castigo divino como causa da tragédia que se abateu sobre Lisboa em 1755. Foi, por isso, enforcado, e deitado ao Tejo depois de ser queimado em auto-de-fé. Sebastião José de Carvalho e Mello não podia ouvir que o divino interviesse na sua vida, o que era o mesmo que dizer, na vida da corte.
Para que ninguém caísse na imprevidência de ignorar a vontade do Marquês, o Abade da Folhada, José, Franco Bravo, anunciava a advertência nas missas e colocou o edital no portão do cemitério e na porta da sacristia. Ninguém lhe arrancava palavras sobre as aparições. Quando sobre isso era interpelado, dizia que o que tinha para dizer sobre o assunto, já o tinha manifestado nas Inquirições que o Marquês do Pombal lhe fizera. Desconfiava que o edital, que recebera, resultasse de uma delação do Abade de Jazente.
Os tempos passaram-se, aconteceu ao Marquês o mesmo que aconteceu a Caligula e, de uma forma ou de outra, há-de acontecer a todos da mesma espécie, e a celebração da aparição de Nossa Senhora, no dia 13 de Maio de 1758 foi retomada com todo o entusiasmo que a fé dos seus devotos lhe dedica.
Ontem estive lá. Jantei nesses restaurantes de festas, fui muito bem servido por uma jovem muito bonita, e, além das febras em vinha de alho, bebi o vinho que só a Quinta do Burgo, do enólogo Miranda, ali bem perto, consegue produzir.

sexta-feira, agosto 19, 2016

 

Bem haja, videirinhas!


Estou hoje muito feliz!... Cheguei à Folhada e mal entrei na minha terrinha, logo me deparei com as uvas de mesa que as minhas  videirinhas (quer dizer videiras pequeninas!)  me ofereciam. Agradeci-lhes e expliquei-lhes o meu contentamento: as minhas netas na próxima semana vêm á Terra, que também já é delas. As minhas filhas habituaram-nas a ir ao  Pingo-Doce comprar uvas e, francamente, chateava-me que elas pensassem que as uvas nasciam do Soares dos Santos.  Sei que é um homem habituado a fazer milagres, mas, porra!!!... Gerar as uvas que a minha terra produz era de mais! Agora, vão perceber que não é no Pingo-Doce que nascem as uvas, mas na Terra do avô que também é delas… e dos amigos do avô e dos amigos delas!



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