segunda-feira, março 27, 2017

 

Segundo encontro


Na antiga China, havia a tradição do Imperador, no primeiro dia da Primavera, abrir o primeiro sulco da terra. Essa cerimónia simbolizava a reconciliação do mundo profano com as forças do espírito. Assim acontece com a amizade. Não há a possibilidade de encontrar um sentido para a amizade, sem reconciliarmos os sulcos que o mundo da vida da adolescência cavou com a vida do espírito que alimentou esse mundo.

A nossa amizade está presa a essas raízes. Podemos ter mudado de convicções, podemo-nos ter separado pelos modos de ver o mundo e a vida, mas o que nos liga emerge do mais profundo, dessa âncora onde ficam os sulcos que prenderam as nossas raízes.

Dizia  Wittgenstein, um filósofo do século passado:  “Os aspectos para nós mais importantes das coisas estão ocultos, devido à sua simplicidade e familiaridade. (…)”. Precisamos destes encontros para desocultar o mais importante, o que na saudade esconde “esse sonho que vive de trás da vidraça” como diria Pessoa. Um sonho, vivido na adolescência, que faz da memória a sua âncora.

Por alguma razão na antiguidade clássica, a memória era personificada por uma deusa: a Mnemosyne, mãe das musas e responsável pela inspiração dos poetas.

Não há melhor poesia do que o sol que cresce num encontro de amigos, recuperando o nome num abraço, partilhando sorrisos, fazendo de nós os outros que éramos.

Este encontro foi na planície alentejana. Por aí andamos dois dias, passamos pela Vidigueira, ouvimos os cantares alentejanos, fomos a Moura, onde a saudade do meu amigo José Cunha me perseguiu (por onde andará ele?) e regressamos a Alcochete.
 


quarta-feira, março 22, 2017

 
Beato Gonçalo Dias II (cont.)



BEATO CONÇALO DIAS
Gonçalo Dias tinha 50 anos quando, no dia 16 de Outubro, entrou no Convento da Cidade de Lima, uma cidade colada à portuária de Callao. Recebeu o hábito de frade e entrou no noviciado. Um ano depois, fez a sua profissão de fé e logo foi nomeado para gerir a herdade que dava o sustento ao Convento. Isso deu-lhe a oportunidade para regressar às actividades que tinha desempenhado com os seus pais na casa do Barral, em S. João da Folhada. Pela competência que revelou, o Abade Superior chamou-o ao Convento e entregou-lhe as chaves do mesmo, como sinal de confiança, consideração e estima.
Note-se que, nesta altura, a corte espanhola ainda tentava limpar a imagem de crueldade que deixou Francisco Pizarro, quando, em 16 de Novembro de 1532, conquistou o Perú e fundou a Cidade de Callao, também chamada Cidade dos Reis. A história desta conquista está associada a  execuções, extorções e genocídios que destruiram tribos indígenas, como os Incas e os Astecas. A imagem do conquistador  que dominava pelas execuções e perfídias ficava associada à imagem de Espanha.

 PIZARRO E OS INDÍGENAS
Diz-se  que Pizarro sabia que os indígenas não jurariam sobre a Biblia e armadilhou um encontro: convidou o imperador Inca Atahualpa para uma reunião diplomática e, nessa altura, obrigou-o a jurar fidelidade sobre uma Bíblia. O imperador recusou e Pizarro ordenou a sua prisão e a execução dos homens que o acompanhavam. Depois, exigiu ouro e prata para o libertar. Após receber o metal precioso que, segundo descrição da época,  encheu uma sala e um quarto, mandou executar Atahualpa. E numa outra cidade, a de Cajamarca, às suas ordens 168 soldados espanhóis, bem armados, executaram mais de sete mil indígenas.


FRANCISCO PIZARRO
O próprio Pizarro acabou por morrer com os mesmos ferros com que executava os indígenas. A sua gente revoltou-se contra ele e, em 1541, foi assassinado.

Para além deste ambiente de crueldade, os espanhóis eram acusados de responsabilidade pela pobreza extrema em que ficaram a viver os povos do Peru.

Naturalmente, os indígenas ainda sentiam essa herança e olhavam para os espanhóis como inimigos perigosos e cruéis. Mas Gonçalo Dias depressa conseguiu ultrapassar todas as hostilidades que, de início, sentiu e foi surgindo aos olhos dos habitantes da Cidade dos Reis como um santo. Dedicava a sua vida aos que mais sofriam, fossem mendigos ou doentes, brancos, negros ou mestiços. A todos, em nome de Deus, ajudava e, junto de Deus, por todos intercedia. A sua fama de bondade e santidade cresceu e o seu passado de marinheiro virtuoso foi juntar-se à sua fama de santidade. Pouco a pouco, conseguiu usufruir muito prestígio e estima junto de todos os que habitavam aquela portuária Cidade dos Reis, que tão mal havia sido tratada pelos colonizadores.

Numa das ocasiões em que estava de porteiro do Convento, ouviu alguém a saudá-lo em português; logo, estabeleceu com ele conversa. Soube, então, que o seu conterrâneo, que se apresentou como António Correia, estava ali, porque tinha conseguido fugir de Portugal. Era natural de Celorico da Beira e os seus pais eram judeus. Depois de D. Manuel, em 1497, trocar a mão da princesa D. Isabel pela instauração da Inquisição e perseguição aos judeus foragidos de Castela, a maioria dos seus antepassados foram desterrados, obrigados a entregar os seus filhos ao Rei, que os mandava submeter à água do baptismo que, segundo a Inquisição, era o leite da mãe igreja para os purificar das heresias.

 GALEÃO
António Correia por conselho de seu Pai, “convertera-se” ao cristianismo, mas, mesmo assim, foi sabendo que por Lisboa, Évora e Coimbra os convertidos, cristãos-novos, eram suspeitos de continuarem a praticar o judaísmo. Depois de presos, sofriam horríveis torturas, tinham os seus bens confiscados e acabavam, quase sempre, por ser condenados à morte pelo fogo. O espectro do desterro apavorava-o, mas ainda mais o aterrorizava o receio de ser denunciado como praticante do judaísmo na clandestinidade pelos familiares do Santo Ofício. De início, pensou em fugir numa das caravelas que iam para o Brasil, mas receou que nas terras de Santa Cruz fosse apanhado pelos esbirros da Inquisição. Sabendo que no Peru não havia o Tribunal do Santo Ofício, decidiu caminhar em direcção a Espanha para aí comprar uma passagem como marinheiro de um galeão que fosse para o Peru. Foi isso que aconteceu e as amarguras que passou na viagem foram muito semelhantes às que tinha sofrido Gonçalo Dias. 
 INQUISIÇÃO

Convidado a entrar no Convento, a conversa entre conterrâneos foi longa. António Correia sentiu-se acolhido sem suspeitas. Gonçalo Dias considerava que a perseguição aos judeus teve origem num mal-entendido dos primeiros tempos do cristianismo: nessa altura, os judeus foram acusados de se considerarem acima dos cristãos, mas esse erro foi logo combatido, ao ser afirmado por Jesus que a caridade fraterna era a única lei da relação entre os humanos. À luz dos ensinamentos do Evangelho não se deveria insistir numa divisão de raças e muito menos perseguir os judeus com a pena de fogo, contrária à bondade dos ensinamentos de Deus. No seu entender, Cristo morreu numa cruz para chamar toda a humanidade ao entendimento fraterno, sem diferenças de cor ou de sangue.

O apoio e testemunho de vida que Frei Gonçalo Dias lhe dedicou, tocou-o e António Correia quis receber o hábito de mercedário. Tomou o nome de Frei António de S. Pedro e, estimulado pelas virtudes do seu patrono, acabou por também angariar fama de santo.
Se vivesse em Portugal e não tivesse encontrado Gonçalo Dias, certamente, por ser de família judia, nunca teria desenvolvido as virtudes do cristianismo, que lhe foram reconhecidas.
Só este facto já nos ajuda a compreender por que Gonçalo Dias merece o reconhecimento dos folhadenses e ser uma referência da história do nosso Concelho.
Nos seus últimos tempos da sua vida já só desempenhava as funções de sacristão do Convento e poucas vezes era visto a cirandar no bulício de Callao.
Em 24 de Janeiro de 1618, Gonçalo Dias faleceu cansado da idade. A sua fama de santo já, nessa altura, se estendia a Portugal. Nesse mesmo ano, no dia 4 de Maio, o seu processo de beatificação foi aberto pelo arcebispo de Lima, D. Bartolomeu Lobo e Guerreiro e o seu corpo foi exumado. Segundo o seu biógrafo, todos os que presenciaram o acto não se cansaram em publicitar a incorruptibilidade do cadáver e o perfume que do mesmo se desprendia.
Foram recolhidos testemunhos das suas virtudes e milagres. Vieram emissários da Santa Sé e da Ordem dos Mercedários a S. João da Folhada para se inteirarem do seu passado e do passado da sua família, tal como nos relata o abade José Franco Bravo nas inquirições do Marquês do Pombal. Diz: “O milagroso Sam Gonçallo Dias nasceu entre as asperezas destas serras, como roza dentre os espinhos, em o lugar de Barral, de pais humildes, em o ano de mil e quinhentos e cincoenta e seis e florescendo com muntos actos de virtude e evidentes sinnaes da sua santidade. Foi celebrado o seu Gloriozo transito (falecimento) em o Porto de Callas, na cidade de Lima, em as Indias Orientaes de Espanha, no convento e hábito de Nossa Senhora das Mercês, da Redempção de Cativos, em o dia vinte e sete de janeiro do ano mil e seiscentos e dezoito. Depois foi beatificado pelo Santissimo Padre Benedicto XIII” (in: Memórias Paroquiais, pag 372)
No Lugar do Barral foi colocado um cruzeiro, que ainda hoje existe, para, segundo as referidas Inquirições, indicar “onde foram em outro tempo as cazas donde nasceo o venerável Sam Gonçalo Dias, as quoaes foram demolidas pelo padre Frei Joam Sanches de Lhanos, comendador de Monte Rei, que veio a esta freguesia por ordem e comissão do generalíssimo da mesma ordem frei Sebastiam de Velasco, o quoal padre assim adicto juncto com o abbade que antam era Melchior de Azevedo e mais povo desta freguesia demolio as ditas cazas por as acharem servindo de coraes de gado”. E para se dar veneração in perpectum às ditas cazas, em este Cruzeiro e sitio naqueles anos que foi pelos de mil e seiscentos e setenta e sete em diante, houve muita ocorrência de gente e muitos e variados milagres.”  (in: Memórias paroquiais, pag 373)
IMPÉRIOS COLONIAIS PORTUGUÊS E ESPANHOL
Como se vê, a devoção a S. Gonçalo Dias atraía, na altura, àquele lugar muita gente, mas como não ficava bem terem feito da casa onde nasceu uma corte de animais, preferiram derrubá-la e da memória da vida do Santo só ficou um Cruzeiro.

Aparentemente, tal decisão parece estranha: para além da velha casa se harmonizar com a simplicidade e pobreza da vida de S. Gonçalo Dias, a sua demolição desvalorizou o que constituía o ideal de santidade enaltecido no tempo e que inspirou, por exemplo, a criação das ordens mendicantes, que, na época, viviam de esmolas, numa pobreza radical e numa humildade extrema.
Pergunta-se, então, que argumentos terão sido invocados para a destruição da casa onde habitou Gonçalo Dias? E, já agora, por que será que, sendo S. Gonçalo Dias venerado em toda a América Latina, considerado o pai dos pobres de Porto Callao (cidade do Peru), só dele conheçamos o que dele diz o Abade da Folhada nas Inquirições do Marquês de Pombal, o Cruzeiro que sinaliza a casa onde nasceu e as referências que dele faz no “Mensageiro de Santo António”, em Maio de 2002, o padre Arlindo Magalhães, professor da Universidade Católica? Mesmo a imagem que existe de S. Gonçalo Dias na igreja da Folhada não foi ali colocada pelos seus conterrâneos, mas, como já referimos, pelos padres da Ordem a que pertenceu.
Muitas são as razões, mas só contextualizando podemos alinhar respostas. Em 1517, Martin Lutero publicou as 95 teses que, entre outras doutrinas, contestava o culto dos santos, que para ele era um sinal de paganismo, o poder e o comércio das indulgências. Foi excomungado e isso provocou um cisma na Igreja Católica, originando o protestantismo.
Aos olhos de muitos cristãos o empreendimento colonizador (a que chamavam descobertas) dos Estados Católicos, como Espanha e Portugal, feito com a Cruz de Cristo e a espada, nada tinha a ver com os valores cristãos, mas com a cobiça do ouro e da prata e, quase sempre, de forma sanguinária.
 CONCÍLIO DE TRENTO
Naturalmente, estas criticas abalavam a credibilidade da Igreja, o que obrigou  á convocação do Concílio de Trento (1545-1563). Dessa demorada reflexão saiu a necessidade de  maior rigor por parte da Santa Sé no reconhecimento da santidade. Os bispos locais passaram a ser impedidos de canonizar e esta atribuição tornou-se num dos poderes do Papa. E só o podia fazer, depois de inquéritos rigorosos, audição de testemunhas credíveis, registo dos milagres num livro próprio, o “Liber Miraculorum”, onde também deveria constar a biografia da personalidade em causa e a avaliação das suas virtudes  por uma comissão de sábios escolhida pela Santa Sé.
Sabe-se que entre 1676 e 1680 intercederam pela beatificação do nosso Servo de Deus o Rei de Espanha, o Vice-rei de Nápoles, os bispos de toda a Espanha e três universidades (Valladolid, Salamanca e Complutense), para além de uma autêntica avalanche de cartas que do Peru foram enviadas ao Sumo Pontífice, testemunhando as virtudes de Gonçalo Dias, descrevendo os seus milagres, e pedindo a sua santificação.
Em 1687, a diocese de Lima procedeu a novas inquirições, ouvindo 71 testemunhas, para convencer o Papa a decidir-se pela beatificação do nosso Conterrâneo, o que só veio a acontecer muito mais tarde, por volta de 1731, quando foi dado por concluído todo o processo.
Uma questão fica, entretanto, por responder: Por que será que aqui, bem perto da Folhada, na cidade de Amarante, com uma história de vida muito semelhante à do venerável Gonçalo Dias, ninguém desconhece um outro venerável, nascido cerca de três séculos antes, também de nome Gonçalo, mas filho de uma família nobre, (viria a ser seu parente o Condestável D. Nuno Álvares Pereira),  honrando-o com grandiosas festas e com uma devoção que arrasta multidões de fiéis?
Ambos foram beatificados, mas um é de família nobre e o outro de família pobre. Muitas hipóteses podem ser colocadas para explicar o esquecimento de Gonçalo Dias, que nem na toponímia da sua freguesia natal ou do Concelho consta o seu nome. 
Será que os cristãos de hoje ainda continuam com o preconceito da Idade Média, de que só os nobres abraçam as virtudes da defesa da fé, da coragem e da abnegação?
Na verdade, Gonçalo Dias exerceu a mais modesta de todas as actividades: a de pastor na Serra da Aboboreira e de embarcadiço. Será que o pobre, para além de ter a cruel sorte do desamparo, carregar na palavra uma construção simbólica depreciativa para as classes mais favorecidas (é a pessoa que não se sabe cuidar nem portar-se), continuará a nem sequer poder ser santo?
Mas, se é assim, por que enchem a boca com os pobres para colher esmolas, esperar votos e mostrarem-se piedosos?
No próximo post falaremos sobre as aparições de Nossa Senhora no dia13 de maio de 1757, na terra de Gonçalo Dias, em S. João da Folhada.
 João Baptista Magalhães

sexta-feira, março 17, 2017

 

Beato Gonçalo Dias

Escrevi este texto para o blog da Associação dos Amigos do Marco de Canaveses. É sobre o Beato Gonçalo Dias, um bom homem que viveu muito perto de mim, em S. João da Folhada.
Penso que é bom conhecermos a gente boa da nossa Terra e foi, com esta intenção, que escrevi este texto. Façam, então, o favor de conhecer um Homem bom e generoso! Apresento-lhes o beato Gonçalo Dias!



Beato Gonçalo Dias (I)


Beato Goncalo Dias

Poucos saberão que um folhadense do séc. XVII se tornou numa das figuras mais veneradas na América Latina: o beato Gonçalo Dias.
Que pena continuarmos a atirar para o esquecimento um homem bom, que fez da sua vida um serviço da sua fé e que percorreu o mundo a fazer o bem, sendo por todo o lado admirado e considerado um santo. No Peru, mais propriamente na cidade de Callao, conhecida na altura por Cidade dos Reis, onde está sepultado, Gonçalo Dias tem fama de santo, sendo inúmeros os milagres que lhe são atribuídos e inúmeros os pedidos de graças que lhe imploram.
Por cá, na terra onde nasceu, viveu a sua juventude e terá feito amigos, até as silvas escondem o cruzeiro que sinaliza a sua presença, no lugar do Barral, em S. João da Folhada, junto às ruínas da modesta casa onde viveu e que dizem já ter servido de corte. Apenas na Igreja da paróquia existe uma sua imagem, única no País.
O abandono a que foi atirado este Santo nosso conterrâneo não tem justificação. É verdade que a sociedade tende mais para a submissão do que para a gratidão. Suporta os que têm o poder de a prejudicar e venera os que a desprezam; está mais disponível para dar fama aos que a exploram do que àqueles que a servem e se recusam a submetê-la às mais deploráveis situações. Parece que o povo, a quem ele mais serviu, ainda não se emancipou da “servidão voluntária”.
Já no tempo de Cristo isso acontecia: a sociedade precisava de um salvador e ele veio, curou dez leprosos, mas apenas um voltou para agradecer. E quando o mestre lhe perguntou: “ Não foram dez os que curei? Onde estão os outros?” O agraciado exclamou: “Senhor, eles se foram!...”
Até Jesus sentiu que o descartavam! Mas este pessimismo sobre a natureza humana só se corrige pela educação e, temos de confessar, que nas sociedades de consumo, a gratidão é a virtude mais desprezada. E não há gratidão sem memória.  Segundo Yourcenar, é a memória o grande arquiteto das almas. Só com o recurso à memória é possível reconhecer o valor social do mérito e moldar as consciências individuais e coletivas no sentimento de justiça, gratidão e honra, estabelecendo que o bem vale a pena ser seguido e o mal evitado. O esvaziamento da memória foi sempre um sintoma de crise e de desagregação social.



 Cruzeiro que assina o local onde nasceu Beato Gonçalo Dias
Recordemos, por isso, a vida e obra do nosso conterrâneo de S. João da Folhada, beato Gonçalo Dias. Sabemos que nasceu no lugar de Barral, não muito longe da Igreja da Folhada, em 1548, três anos após ter sido iniciado o mais longo conclave da história da Igreja, o Concílio de Trento (1545-1563).É possível que o nome Gonçalo lhe tenha sido dado por homenagem a S. Gonçalo de Amarante, cuja fama de ter existido e feito muitos milagres era já muito grande.
Segundo o seu biógrafo, Frei Filipe Colombo (“Vida del siervo de Dios, Gonçalo Dias”), os seus pais eram Baltasar Dias e Antónia Barbosa. A sua mãe enviuvou cedo. Os seus avós maternos, Aleixo Barbosa e Maria Antanhez, já viviam no Barral e eram lavradores dependentes da Colegiada (cónegos) de Guimarães.
Da parte do pai, os seus avós eram Gonçalo Peres e Polónia Dias. Residiam na freguesia vizinha, Várzea de Ovelha, ele no lugar do Rego e ela no de S. Lourenço.
Tudo indica que eram proprietários abastados e fervorosos crentes. Só isso justifica que se tenham recusado a aceitar que, após a invasão dos mouros, a antiga ermida de S. Lourenço, em Gouveia, continuasse ao abandono e em ruína. Estimulados pela sua fé, os avós de Gonçalo Dias decidiram, a expensas próprias, reconstruir a capela para que fosse retomada a devoção ao Santo Mártir do séc. III.
Talvez o exemplo de dedicação total à Igreja por S. Lourenço, tenha no imaginário de Gonçalo Dias despertado a sua vocação. Este Santo Mártir nasceu por volta dos anos 230, segundo uns, em Valência ou, para outros, em Huesca (capital da província de Aragão). Viveu no tempo das cruéis perseguições aos cristãos pelos imperadores romanos. Ele próprio assistiu à prisão e decapitação do papa Sisto II, de quem era secretário. E quando o Imperador Valeriano o intimou a entregar todos os bens que a Igreja possuía, S. Lourenço chamou todos os pobres, de todas as idades, que a Igreja socorria e levou-os ao Imperador, para que visse que o património da Igreja era cuidar dos pobres. Com isso, despertou a ira de Valeriano que mandou de imediato prender S. Lourenço. Em seguida ordenou que fosse colocado numa grelha e queimado vivo.
Diz a lenda que o Santo, para demonstrar a sua abnegação à vida e dedicação aos seus ideais cristãos, terá dito aos seus carrascos: “Podem virar-me agora, este lado já está bem assado”.
S. Lourenço passou à história como um modelo perfeito da absoluta dedicação a Deus e, por isso, a reconstrução da capela e sua abertura ao culto, trouxe ao local, onde ainda hoje se situa, muito prestígio, passando a ser passagem obrigatória de peregrinos que, atravessando a Folhada pela Ponte do Arco ou seguindo por Jazente em direção à capela de Santiago de Lufrei, rumavam ao S. Gonçalo de Amarante ou em direção a Santiago de Compostela.
Embora Gonçalo Peres e Polónia Dias fossem agricultores abastados, não se pode dizer que isso acontecesse com os pais de Gonçalo Dias. Ou porque os anos maus trouxessem reveses ou porque os bens do seu progenitor fossem da Igreja, no caso de ser padre (antes do Concílio de Trento, os padres podiam ser casados) ou, então, a sua família não vinha na linha dos primogénitos (filho mais velho que ficava com o direito à herança), Gonçalo Dias viveu uma infância com muitas dificuldades. 
 Encosta da Aboboreira
Chegado à adolescência, foi guardar ovelhas para a Serra de Aboboreira. Este local de deslumbramento permitiu-lhe entregar-se à contemplação da natureza e do seu Criador. Nessa altura, o então Abade de S. João da Folhada, ao notar a sua predisposição para a espiritualidade, convenceu-o a ir para Amarante e, com os frades dominicanos do Convento, aprender gramática e latim.
Acumulou os seus estudos com tarefas de enfermeiro no hospital que existia bem perto do Convento. Aí prestava assistência aos peregrinos que iam para Santigo de Compostela ou vinham da Galiza em romagem a S. Gonçalo.
Deu-se, então, uma circunstância que havia de ser determinante para o rumo que haveria de dar ao seu futuro. Entre os muitos peregrinos que vinham pagar promessas a S. Gonçalo, surgiu um grupo de marinheiros castelhanos, que precisaram de recorrer aos cuidados do enfermeiro.
Gonçalo Dias foi-se apercebendo da vida de riscos e sacrifícios dos homens do mar. E, depois de uma meditação sobre Santo Agostinho, pensou que se alguém os ajudasse a aceitar pela obediência a Deus esses sofrimentos e infortúnios da vida melhor salvariam as suas almas. Entendeu dever cumprir essa tarefa, seguindo a vida de marinheiro. Foi marinheiro, trabalhou nos barcos de portugueses até que um dia colocou a si mesmo o seguinte dilema: embarcar para a Índia Oriental (América latina) com os espanhóis ou para África com portugueses.
Dizem que o seu pensamento foi sempre o de considerar que não há vida feliz sem o mínimo de vida, uma vida despreocupado das ambições e orientado por uma austeridade, vivendo do mínimo necessário para viver. Receou que pudesse entrar no seu coração a maldade do consumismo, trazendo-lhe a cobiça pelos tesouros que ouvia dizer que naquelas partes da América Latina abundavam. Mas também não tinha a certeza se deveria seguir o apelo que sentia para evangelizar os povos nativos de África.
Perante este dilema, decidiu pedir ajuda a Santiago e partiu em peregrinação (do latim “per agros”, através dos campos) até Compostela.
Segundo o seu biógrafo Colombo, fez o trajeto a pão-e-água, e, sempre que se maravilhava com aves, animais e plantas, dava graças a Deus pela sua obra. Chegado ao túmulo de Santiago, pediu-lhe que intercedesse por ele junto de Deus, no sentido de receber a luz que precisava para tomar o rumo que mais agradasse a Deus Nosso Senhor. E, depois de muita oração, sentiu que o seu coração estava preparado para recusar a desmesura das ambições, não estava acometido pela doença da húbris (desmesura)  que levava à obsessão pela riqueza e que Santiago lhe abria as portas da Índia Oriental.
Conseguiu ser aceite como marinheiro nos Galeões Reais de Espanha. E não tardou que as suas virtudes, a sua dedicação, capacidade de resistir às adversidades e convicção religiosa fossem reconhecidas e admiradas por todos os homens do mar que com ele iam convivendo. 
 Local denominado Calvário (Folhada)
Na altura em que passou pela República Dominicana, o barco em que navegava naufragou. Foi um dos poucos sobreviventes. Depois de muitas dificuldades, acabou por ser recebido num dos conventos dos mercedários (Ordem das Mercês, donde vem o nome de Mercedários. Foi criado, no reino de Aragão, por São Pedro Nolasco em 1218) dessa terra espanhola. Vê nisso um apelo divino para ingressar nessa ordem, mas resistiu a fazê-lo.
Volta á vida de marinheiro. Doenças e outros contratempos levaram-no a julgar que todos esses infortúnios eram um castigo por não ter dado assentimento ao chamamento que sentiu.
Pensou, então, corrigir o seu desvio, ingressando na Ordem das Mercês. É nesta altura um fervorosíssimo devoto da Virgem das Mercês, a mesma que aconselhou S. Pedro Nolasco a criar a ordem que tinha por objetivo libertar os cristãos que foram presos pelos mouros.
Para conhecer melhor a vida de frade, passou algum tempo nos conventos dessa ordem no Panamá e na cidade de Payta.
Em 16 de Outubro de 1603, pediu o seu ingresso no Convento de Callao[1], cuja cidade era também conhecida por Cidade dos Reis.
No próximo post continuamos com o beato Gonçalo Dias: a sua vida de Frade dos mercedários no Perú e o reconhecimento da sua santidade.
João Baptista Magalhães

terça-feira, março 07, 2017

 

S. João da Folhada




Casa de Aldegão

         Tudo leva a crer que os mouros ou árabes fossem tardiamente expulsos das terras da Folhada. Muita gente obrigada em tempos a fugir dos castros ocupados pelos invasores demorou a regressar às suas terras. E depois, terá acontecido o que sempre acontece nas guerras:  incendiar para destruir, desde sementeiras a casas, tudo o que pertencia ao inimigo, não só para que não encontrasse apoio em novas investidas como também para apagar qualquer referência que lhes fosse útil. A terra ficou incultivável e as vias de comunicação tornaram-se impraticáveis. Não admira, por isso, que durante muito tempo Folhada fosse uma terra isolada e as casas grandes que, por aqui existiram, fossem desaparecendo. Apenas a casa de Aldegão, construída já no séc. XVIII, surge como único exemplar de um solar.

         Depois da reconquista, esta terra foi integrada num couto de Dona Teresa e de seu filho, Afonso Henriques. No início do séc. XII, foi doada, em “carta de couto”, aos Cónegos do Santo Sepulcro, uma ordem criada por Godofredo de Bolhões, um nobre militar franco, da família de Afonso Henriques, que liderou a primeira Cruzada da reconquista de Jerusalém. Teve os seus cruzados no lugar do Burgo (pertencente a Várzea de Ovelha), que terá recebido esse topónimo por serem seus residentes militares da Borgonha (os burgonhoens). Dali partiam para as investidas aos mouros que ocupavam o antigo castelo romano, que se situava junto à Ponte do Arco e, ainda hoje, é conhecido pelo nome dos seus ocupantes, castelo dos mouros.
         Nessa “carta” foi delimitado o território, atribuído o poder de nele interditar a entrada a funcionários régios e ficou isento de manter um exército ao dispor do rei. Apenas tinha a obrigação de contribuir com diminutas pensões à instituição conventual.
         O domínio das terras não só trazia riqueza, mas também poder. Naturalmente, a procura desse domínio gerou desavenças entre os poderes senhoriais, do clero e da nobreza, e entre estes e o rei. A Igreja reivindicava os  privilégios ligados ao seu poder temporal e o rei que, nessa altura, queria concentrar o seu poder, insistia no cumprimento da jurisdição régia que elaborava. Surgiram as inquirições (a partir de D. Afonso II) e, a partir delas, o rei promove desamortizações (lei que proibia os mosteiros e ordens religiosas de adquirirem bens fundiários, visando diminuir o seu poder)  e as confirmações régias, que tinham como objectivo ratificar as concessões e doações atribuídas.
Ponte do Arco sobre o Rio Ovelha

         É neste contexto que as terras da Folhada passaram a ser de Gonçalo Gil da Veiga, que viveu na quinta do Vinhal.  Mais tarde, vendeu-a aos Souzas Chichorros, mais propriamente a Fernando de Souza, descendente de Martim Afonso Chichorro, filho bastardo de D. Afonso III e de Dona Alonso (ou Dulce) Rodrigues de Sá -- uma senhora, na concepção do tempo, muito linda, natural de Gestaço e abadessa no Mosteiro de S. Cristóvão de Rio Tinto. Terá levado o rei a pensar, como a lenda diz que Adão pensou:” Onde Ela estiver, lá haverá o paraíso”.
         Os “Sousas”, entretanto, perderam influência nas cortes (assembleia de nobres e alto clero que se realizou pela primeira vez com D. Afonso II) pelos conflitos que travaram a propósito dos direitos senhoriais e um deles, um tal D. Gonçalo Mendes, foi mesmo obrigado a exilar-se para escapar à prisão e, possivelmente, à morte, como acabavam sempre estas contendas.
         A posse das terras da Folhada foi, assim, transitando da nobreza para o clero e deste para a nobreza, conforme as circunstâncias: heranças, doações pias, confiscações, etc. D. João II, por exemplo, entregou-as a D. Vasco Coutinho como recompensa pela denúncia que este fez da conspiração que contra si estava preparada pelo duque de Viseu.
         Em 22 de Novembro de 1513, D. Manuel I  concedeu foral ao Concelho de Gouveia de Ribatâmega, que tinha a sua sede no Covelo, Amarante, e S. João da Folhada, tal como acontecera a  Tabuado foi integrada nesse concelho, passando a pertencer, sob o ponto de vista administrativo, à comarca de Guimarães e, sob o ponto de vista eclesiástico, à diocese do Porto.
         Só por volta de 1542, no censual da Mitra (mitra- diz respeito ao que os cónegos colocam na cabeça e, por, antonomásia, significa o conjunto de documentos por eles produzidos),  surge a designação “Sam Joham da Folhada”.  Talvez o topónimo tenha a ver com a quantidade de folhas que apareciam caídas nesta terra. Anteriormente, é citado o nome Pousada. 
         A igreja paroquial, de início, situava-se junto à Ponte do Arco, uma ponte que terá sido reconstruída sobre as ruinas da ponte romana que aí existiria antes das invasões árabes, mantendo o mesmo estilo. Seria perto daqui que se situaria o castelo romano (de que já falamos) que ocupado pelos mouros ganhara a designação de castelo de mouros. Ali havia um povoado. confirmado pelas sepulturas cavadas em rocha, junto do que deveria ser uma via romana servida pela respectiva ponte. É pena que as silvas escondam este património, que é sempre fonte de conhecimento da nossa história colectiva.

                                                                           Igreja da Folhada ( Fachada)
         Como sabemos, os templos foram sempre lugar não só de recolhimento, mas também de encontros e afectos, desde tempos imemoriais. Quem não se lembra dos convívios nos adros das igrejas? E é pena que, hoje, num tempo marcado pelo individualismo e  pela falta de vínculos nas relações afectivas, se tenha perdido esse hábito. Também era no adro da igreja, ao ar livre, geralmente junto a uma árvore frondosa, que se reuniam as assembleias dirigidas por anciãos prestigiados, geralmente chefes de família (patriarcas) ou, então, por aqueles que dispunham de poder económico e prestígio angariado pela capacidade de defender os servos contra os que não eram seus senhores directos. Discutiam-se os problemas morais, políticos e sociais que precisavam de ser resolvidos. A força das decisões apoiava-se na coesão da comunidade que, orientada por uma lógica de fidelidade ao que melhor sabia gerir conflitos e persuadir, sabia ouvi-lo e respeitava o que fosse aprovado nas assembleias. Só muito mais tarde é que estas assembleias passaram a ser  feitas em edifícios próprios.
         O local da igreja obtinha, assim, uma carga simbólica muito grande. Mudar de local teria de ter, para o inconsciente colectivo dos paroquianos, uma justificação muito forte. Isto explica a lenda que, através dos tempos, foi sendo construída, segundo a qual o sino da antiga igreja era arguto e, durante as invasões árabes, fugia pela noite para o local onde os paroquianos  encontravam refúgio. Era aí, no alto da freguesia, na pousada, que precisavam da igreja e o sino fez essa sinalização.
         Temos, assim, a razão do centro da Folhada ser levado para meio das encostas da Serra da Aboboreira. É um lugar de pouso aprazível, quase sempre soalheiro, onde o corpo sente o descanso e os olhos, voltados a poente, desfrutam duma deslumbrante panorâmica, onde se incrustam povoações, como Penafiel, Felgueiras, Marco de Canaveses e Amarante.
                                                                                 Nicho na Igreja da Folhada
         Até ao século XIX, o pároco dispunha de um poder de protecção e jurisdição das pessoas que viviam na sua área de influência, ou seja, na paróquia. Nela havia irmandades e confrarias que, nessa altura, estavam muito longe de se constituírem feiras de vaidades com preocupações de distinção social. Essas irmandades e confrarias elegiam os seus juízes ou oficiais que ajudavam o pároco na devoção ao oráculo da freguesia, na administração dos bens que pertenciam ao património da Igreja, no diminuir o sofrimento dos mais pobres e até no cuidar da manutenção de pontes e caminhos, como um serviço aos viajantes e peregrinos, sobretudo os que iam para Santiago de Compostela.
         Nesta altura, a Freguesia transitou para a circunscrição municipal de Soalhães que, pelos Decretos de 31 de Março e 28 de Dezembro de 1852 e 31 de Dezembro de 1853, foi extinto, bem como o de Benviver. Estas autarquias passaram a ser freguesias e todas elas, inclusivamente S. João da Folhada, passaram a integrar a comarca do Marco de Canaveses.
Presentemente, para questões administrativas, S. João da Folhada está ligada à Freguesia de Várzea de Ovelha.
         Por já ser longo este post, em próximos falaremos da importância dos ferreiros nesta freguesia, do milagroso Gonçalo Dias da Folhada e, ainda, da aparição de Nossa Senhora a três pastorinhas em 1758 e das eventuais razões que terão provocado o esquecimento deste facto.

João Batista Magalhães


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