segunda-feira, junho 26, 2017

 

Não digam que não Vos avisamos!


Estou preocupado, como muita mais gente que é marcoense e gosta da sua Terra! Sabemos que  isso pouco interessará aos do politicamente correto. Mas, porque o Marco de Canaveses é a nossa terra, a terra onde nascemos, crescemos e fizemos amigos, temos razões de coração, as que brotam dos caminhos, ruas e  locais que contam estórias da nossa vida, para tomarmos posição cívica nesta hora de proximidade de eleições.

Pessoalmente, sinto que talvez ainda haja quem se lembre de como a minha vida, desde muito novo, se prendeu á minha Terra, dos retiros que promovi no Convento de Avessadas, numa altura em que era fervoroso cristão; dos piqueniques que organizava nas margens do Rio Tâmega, onde aparecia o saudoso Dr. Aires Querubim; das récitas nos bombeiros, do tempo em que presidi à sua direcção, das actividades culturais e recreativas que promovi, desde a primeira descida em canoa do Rio Tâmega aos debates com Dr. Daniel Bessa e o saudoso Dr. Salgado Zenha; da colaboração com o saudoso Dr. Horácio na Promarco e ultimamente, há cerca de 19 anos, da luta que a Associação dos Amigos do Marco travou contra a prepotência, o arbítrio e o buraco negro da democracia em que se tinha tornado o nosso Concelho. Poucos saberão dos telefonemas  anónimos, ameaças e outro género de perseguições que muitos dos que estavam nessa Associação sofreram. Mas conseguimos abrir a porta para o actual presidente da Câmara, embora pareça que não o tenha notado! É certo que depois de muita insistência, conseguimos que a autarquia cedesse um espaço para sede da nossa Associação Cívica e fizemos do presidente da autarquia nosso sócio.

Tudo isto nos dá alguma moral para fazermos esta reflexão.

O lema da Associação dos Amigos do Marco foi sempre este: “Sem cidadania não há democracia”. E só há uma maneira em democracia de exercer a cidadania: é tomar a palavra para dizer o que está certo ou errado. Em democracia há o contraditório e nada do que se diga pode ser declarado intolerável. E quando isso acontece, a democracia está perdida.

Recentemente foi publicado “Os inimigos íntimos da democracia”  de Tzevetan Todorov, discípulo de Roland Barthes. É um livro que vale a pena ler.  Acusa como principal inimigo da democracia a ideia de que só a economia deve dominar a vida social. 

Quem assim pensa esquece que o cidadão tem uma vida psicológica e afectiva que faz parte da vida democrática. É por ela que sente pertencer a uma comunidade e ganha a dimensão de político. Tratar os cidadãos como meros instrumentos da produção de riqueza é não perceber o que é a democracia.

Os inimigos íntimos da democracia desprezam a representatividade como essência da democracia. Sem nos sentirmos representados em quem escolhemos, não podemos confiar em quem escolhemos. Representar os eleitores é ser capaz de compreender os profundos anseios das populações e dar-lhes resposta. É o povo o real titular do poder político que o delega em quem o possa representar. Os “políticos de aviário” não percebem isto e, por isso, o descrédito da partidocracia!

Hoje, reduziu-se a política a um mero espectáculo, centralizado numa só pessoa, egocêntrico. Até nas medalhas que, a granel, são distribuídas nos aniversários das autarquias não há a preocupação de interpretar um reconhecimento social de virtudes democráticas. O que parece imperar nesse gesto é o ego de quem as coloca no pescoço dos medalhados, parecendo querer-lhes dizer: “vejam como “eu” vos dou importância! Não se esqueçam de retribuir com a admiração que me devem!”

Talvez por isso, já ninguém se lembra dos medalhados do ano anterior e, assim, se vai banalizando uma cerimónia que antigamente tinha sentido e hoje se perdeu!

Tudo isto tem a ver com a profissionalização da política, com a completa desvinculação dos que são eleitos à comunidade que os elege. Alguns até nem são da terra, são atirados para um concelho como os mercenários eram atirados para uma guerra.

Autarquia significa o governo dos próprios pelos próprio e a perversão da democracia aconteceu logo que foi alterada a necessidade dos candidatos terem nascido ou serem recenseados nas autarquias a que concorrem.

Estamos à beira de mais um ato eleitoral: as autárquicas! A desilusão tem crescido e as divisões internas de alguns  partidos que concorrem no Marco tornam previsível uma enorme abstenção. Dizem-nos que as sondagens já o confirmam.

A abstenção não se combate com apelos ao voto, mas com a credibilidade dos candidatos, a capacidade dos partidos apresentarem listas que formem uma equipa reconhecida pelas suas virtudes políticas de honra, fieldade e ligação à sua terra. Mas para isso é preciso que o candidato seja capaz de resistir à pressão dos jogos de interesse que o obrigam a colocar ao seu lado quem lhe vai retirar a credibilidade que tem.

No meu entender, só a candidatura do PCP e a do BE, (se houver!), não sofrem essa pressão. Geralmente estas candidaturas são formadas por personalidades generosas, que fazem um sacrifício em serem candidatas. Personalidades geralmente de grande prestígio profissional (não são políticos de aviário), mas que o eleitorado, por preconceitos, não vota nelas. Falta-lhes a base social de apoio que lhes permita ganhar as eleições. E é pena, porque nas autarquias que gerem, têm sabido corresponder às expectativas dos seus eleitores.

Quem se disponibilize para servir como autarca uma terra, não pode aceitar que empurrem para a sua equipa os videirinhos, os chico-espertos, os que não dão garantias de espírito de serviço, que andam sempre á procura dos ventos de feição e só querem os primeiros lugares de uma lista pelos proventos que isso possa dar a si e à sua família. O candidato que não contrariar a pressão destes arrivistas cria a incredibilidade que favorece a abstenção e, com esta, pode acabar por dar a vitória ao paraquedista, ao candidato que cai numa terra para colher os votos dos desiludidos, dos que dizem: “vamos dar oportunidade a este que é diferente”.

Pertenço a um grupo de marcoenses que gosta da sua Terra e, por isso, fiz, em nome deles, esta reflexão. Espero que tenha valido a pena! De qualquer forma, não digam que não Vos avisamos!

João Baptista Magalhães

Sócio nº 1 da AAMC

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