terça-feira, maio 02, 2017

 

O abade de Jazente e a Senhora da Lapa

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Contexto da aparição de Nossa Senhora, no dia 13 de maio de 1758, em S. João da folhada

Por essa altura, segunda metade do séc. XVIII, era abade de Jazente, uma freguesia vizinha de S. João da Folhada, Paulino António Cabral de Vasconcelos. O Abade de Jazente, nome pelo qual ficou conhecido, fartava-se de percorrer a encosta do cabeço do Outeiro do Preiro, na Serra da Aboboreira, onde se dizia que Nossa Senhora tinha aparecido, em 13 de Maio de 1758, num enorme penedo, a três pastorinhas que ali guardavam umas ovelhas.

Por ali, o Abade costumava esquecer-se das horas no afã venatório que tanto gozo lhe dava. Gostava, sobretudo, de ver os seus cães a farejar nos trilhos que, entre o denso mato, os coelhos e as perdizes usavam para passar. Era na caça e na pesca que sentia o forte apego por esta terra, enquanto esperava pelos fins-de-semana para ir até ao Porto. Aqui tinha lugar cativo nos salões da aristocracia e da alta burguesia. O Pai, que exercia no Porto a medicina cirúrgica, e o irmão, Manuel, um temido magistrado do Santo Ofício, tinham-lhe, desde muito novo, aberto as portas dessa vida mundana. A partir das quintas-feiras, depois das suas funções sacerdotais, em Jazente ou na Lomba, onde nascera a 6 de maio de 1719, na Quinta do Reguengo, já estava de malas aviadas para tomar a diligência que, de Amarante, o levaria à Rua Chã, no Porto, onde residiam os seus pais.

Mas não era a casa paterna que levava na mente: tinha um programa à sua espera nesses salões de amplas dimensões, faustosamente decorados e mobilados, que davam dignidade aos palácios e às instituições culturais, como as arcádias. Aí ficava o centro da vida social, cultural e artística frequentada por fidalgos e burguesia endinheirada. Conheceu aí o negociante e influente político biscainho Bartolomeu de Pancorvo (um dos fundadores da Companhia de Agricultura e Vinhos do Alto Douro). 

Participava nas atividades da Arcádia Portuense, onde era apreciado pela sua veia poética (que, por vezes, se antecipava no erotismo à de Bocage) e nos convívios dançantes promovidos pela alta aristocracia. Gostava de trocar sorrisos e galanteios com as muitas damas que por ali se esmeravam nas gentilezas femininas, sempre prontas para com ele dançar ou jogar as cartas, o que era moda naquele tempo.

Isso carregava a sua imaginação, delineando estratégias que satisfizessem respostas para as espectativas luxuriantes que de convívio em convívio ia alimentando e que acabava sempre por concretizar. O ambiente era propício aos calores das paixões: os desenhos dos passos de dança matizados pelos reflexos das luzes dos grandes espelhos, rivalizavam com os quadros a óleo, cheios de sensualidade, dos discípulos de Fragonard, que ornamentavam as paredes dos salões que frequentava; os sorrisos sedutores que as damas decotadas e de cintilantes joias lhe devolviam; o murmúrio aprovativo que, no último baile, ouvira de uma das mais belas damas:


- “Que bem que o Padre Paulino dança! Que passos perfeitos! Que elegância e leveza!”

O Abade de Jazente sabia cultivar a sedução e aproveitava sabiamente os privilégios com que a natureza o favoreceu: era alto, bem constituído, de lábios grossos, um lascivo olhar e um insinuante sorriso que prendia num mundo de ansiosos desejos as damas e as donzelas. Depois, aperaltava-se sempre com o rigor da moda que vinha de França: usava peruca com cachos cobertos de pó de arroz, vestia batina à francesa, sem capa e com um pequeno cabeção de finíssima lila, meias de seda, lustrosas e bordadas, sapatos de salto alto adornados por enormes fivelas de puro oiro. Usava uma larga e comprida faixa de seda preta que lhe cingia elegantemente a batina em volta da cintura, deixando nas suas extremidades pender duas grandes borlas. Na mão, levava sempre um chapéu de pêlo de castor e deixava, ao passar, um agradável perfume, que as damas, de vestidos amplos e volumosos, com corpetes justos que realçavam os seios, gostavam de, discretamente, inspirar. Era o rasto afrodisíaco que criava ciúmes nos cavalheiros e acendia clarões de volúpia nas donzelas, sempre disfarçados com manifestações de agradável surpresa por o encontrar. Havia competição na audácia de lhe beijar a mão e, em troca das saudações de boas-vindas, ouviam galanteios.

Percebia-se que a sua presença acendia nas damas e donzelas desejos secretos que já não disfarçavam. Mas o Abade de Jazente gostava de se fazer rogado. Sabia, melhor que ninguém, que a aparente reserva acicatava o poder de sedução daquelas damas. E exercê-lo era, para elas, uma paixão e para o Abade a volúpia de as possuir.

Descrevia essas sensações em versos, como estes:

“Vinde cá doces musas, que somente
Divertir-me convosco agora intento,
Pois neste solitário apartamento
Não é fácil sem vós viver contente”.

Ou, então, neste soneto à sua predileta Nize:

“Tu queres, Nize, oh quanto podes, quanto
Sobre o sacro poder da liberdade!
Tu queres, que a chorada falsidade
Se desdiga outra vez em novo canto.

Que o mundo torne a ouvir, com mudo espanto,
Chamar-te em vez de falsa, Divindade:
E em lugar de culpar-te a variedade,
Dizer que sempre foste o meu encanto.

Assim será, se ficas bem comigo:
A vergonha, o dever rompe, e atropela;
Que eu me sujeito a tudo por castigo.

Oh vós , que já me ouvistes sem cautela

Contra Nize gritar; eu me desdigo:
Se faço mal, não sei; só sei, que é bela.


(In: Abade de Jazente, Poesias. Imprensa Nacional Casa da Moeda).

Nos salões da aristocracia portuense a sua presença despertava sempre nas damas mais afoitas uma ávida impaciência de o conseguir no passo de minuete ou tê-lo a seu lado no jogo de cartas. E o Padre Paulino, astuciosamente, como quem não quer a coisa, fazia que lhe calhasse na dança ou nas cartas a mais bela e loura, que denotasse fresca idade e servida das rotundidades e curvas que, ao tempo, preenchiam o ideal de beleza do mais exigente amante. Era só esperar por vê-la caprichar trocar com ele um olhar lânguido e logo tinha por mercê um convite para dançar ou ficar a seu lado num jogo de cartas.


E tratando-se de um jogo de cartas, mal os primeiros lances se davam, logo os mais distraídos compreendiam a razão de tão escaldante capricho: o melhor do jogo desenvolvia-se escondido pela toalha de seda bordada que cobria a mesa. Só se denunciava, quando uma dama soltava um gritinho e todos os olhares, com sorrisos de uma ironia mal disfarçada, iam na direcção do Padre Paulino. Era certo que, debaixo da mesa, as suas pernas tinham ido longe de mais, enfiando as enormes fivelas do seu sapato nas meias de seda da dama e ferindo-a no jogo de pernas que alimentava aquela tempestade de volúpia. Não resistindo à dor, a dama, que de olhos lascivos, se tinha esquecia do jogo, abria repentinamente as pálpebras e de olhar arregalado soltava um inoportuno “ai!!!...” E um fingido alvoroço punha intervalo abrupto naquele escondido jogo de sensualidade de que era exímio o Abade de Jazente.

Esta era a vida social do Abade de Jazente. Quando lhe falavam das aparições, respondia que eram fantasias de crianças e que não deviam ser levadas a sério. Mas, lá no fundo de si mesmo, perturbava-o a gente que passava à sua porta de diferentes condições sociais, mulheres e homens, a pé ou a cavalo, peregrinando em direcção ao sopé da lapa do cabeço do Outeiro do Preiro, onde Nossa Senhora aparecera a 13 de maio de 1757 a três meninas, pedindo-lhes que “fizessem penitência dos pecados, com jejum a pão-e-água nas primeiras sextas-feiras e sábados e que recomendassem isso mesmo a todas as pessoas que encontrassem”.

Por vezes, mas só no princípio da semana, este apelo, de que ouvia falar, trazia-lhe à memória o Padre Malagrida, a sua fama de santo e sábio. Sabia que era uma das mais importantes figuras da Ordem dos Jesuítas, com um trabalho de muitos anos de missionário no Brasil, fundador dos colégios mais prestigiados nessa colónia do Reino; que fora escolhido para confessor de D. João V e do Marquês de Lorna. E sempre que Malagrida lhe vinha à mente, fazia-lhe recordar a profecia de Soror Maria Joana do Louriçal, religiosa que tomou o hábito do Convento do Santíssimo Sacramento do Louriçal, a 16 de Julho de 1732, e falecera um ano antes do Terramoto, em 1754. Falava-se que tinha assegurado ao Padre Malagrida que Jesus Cristo lhe aparecera com uma cruz, em sinal da necessidade de se fazer penitência pela vida depravada que levava o Reino, prenunciando que não havendo reparação desses pecados, abater-se-ia sobre Lisboa uma tragédia. Seria o castigo divino para que se percebesse que a dissolução dos costumes contrariava os ensinamentos dos Evangelhos. (in: Manuel Coelho Amado, “Breve relação da vida, morte prodigiosa da Madre Soror Maria Joana, nossa irmã que faleceu a 25 de Março do presente ano (1754)”.

Nesses momentos, Paulino Cabral sentia um aperto na alma, mas desviava logo o pensamento para as expectativas do fim-de-semana próximo nos convívios dos salões do palácio do biscainho Bartolomeu e para as tertúlias da Arcádia Portuense.

Nesse tempo, última metade do séc. XVIII, a vida da gente de S. João da Folhada não se passava em salões, como acontecia entre a nobreza e a alta burguesia da Cidade do Porto, mas no trabalho duro a arrancar da terra o que precisavam para matar a fome dos filhos e no desespero de quem vive sem horizontes de esperança.

A miséria e a fome juntavam-se ao pavor que sentiam de Sebastião José, dos esbirros dos familiares do Santo Ofício, do meirinho de S. Simão de Gouveia Ribatâmega e dos visitadores da paróquia. O vinho já não podia ser vendido a retalho e receavam que o mesmo acontecesse aos cereais e a outros produtos.


O horror com que foram castigados todos os que participaram no protesto dos tanoeiros convertia-se num imenso medo que lhes tolhia o raciocínio e os reduzia a uma insuperável impotência e, sempre que passavam junto à Quinta do Vinhal, lembravam-se de que o terramoto tinha provocado a queda da torre-solar que enobrecia a casa e imaginavam o montão de ruínas e de mortos em que Lisboa se tinha transformado.

Não encontravam palavras que explicasse tanto horror e isso fazia-os virar para dentro de si mesmos, onde pediam a Nossa Senhora que não os abandonasse e que afastasse das suas vidas o diabo que banalizava tanto mal.

O pânico incrustara-se na alma dos folhadenses com um edital que, entretanto, o Marquês de Pombal tinha feito publicar, pelo qual “manda inquirir sobre as pessoas que tiveram práticas de dizer mal do governo, dando 220 mil cruzados a quem os denunciasse.”

Era mais uma acha para incendiar o pavor que sentiam. E ele era tão grande que, quando iam à missa ou ao cemitério velar familiares sepultados, baixavam a cabeça e alongavam o passo só para não deixar que o olhar se fixasse naquela ordem que continuava fixada à porta do cemitério e da igreja. Não era por indiferença ou desprezo, mas porque os olhos ao caírem no edital parecia que lhes abria no coração uma ferida que os fazia sofrer por lhes abafar o que Nossa Senhora terá dito às três pastorinhas que, entretanto, já haviam sido levadas para a sua companhia. 

Até aquela altura, só os santuários e as ermidas eram os únicos lugares consagrados à devoção dos santos. As aparições de Nossa Senhora não tinham para o poder eclesial ou do reino qualquer relevância, com exceção do Marquês do  Pombal, mas não era isto que sentia a gente que vivia na região que ficava em torno de S. João da Folhada, como veremos no próximo capítulo.

01 de Maio de 2017

João Baptista Magalhães

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