terça-feira, março 07, 2017

 

S. João da Folhada




Casa de Aldegão

         Tudo leva a crer que os mouros ou árabes fossem tardiamente expulsos das terras da Folhada. Muita gente obrigada em tempos a fugir dos castros ocupados pelos invasores demorou a regressar às suas terras. E depois, terá acontecido o que sempre acontece nas guerras:  incendiar para destruir, desde sementeiras a casas, tudo o que pertencia ao inimigo, não só para que não encontrasse apoio em novas investidas como também para apagar qualquer referência que lhes fosse útil. A terra ficou incultivável e as vias de comunicação tornaram-se impraticáveis. Não admira, por isso, que durante muito tempo Folhada fosse uma terra isolada e as casas grandes que, por aqui existiram, fossem desaparecendo. Apenas a casa de Aldegão, construída já no séc. XVIII, surge como único exemplar de um solar.

         Depois da reconquista, esta terra foi integrada num couto de Dona Teresa e de seu filho, Afonso Henriques. No início do séc. XII, foi doada, em “carta de couto”, aos Cónegos do Santo Sepulcro, uma ordem criada por Godofredo de Bolhões, um nobre militar franco, da família de Afonso Henriques, que liderou a primeira Cruzada da reconquista de Jerusalém. Teve os seus cruzados no lugar do Burgo (pertencente a Várzea de Ovelha), que terá recebido esse topónimo por serem seus residentes militares da Borgonha (os burgonhoens). Dali partiam para as investidas aos mouros que ocupavam o antigo castelo romano, que se situava junto à Ponte do Arco e, ainda hoje, é conhecido pelo nome dos seus ocupantes, castelo dos mouros.
         Nessa “carta” foi delimitado o território, atribuído o poder de nele interditar a entrada a funcionários régios e ficou isento de manter um exército ao dispor do rei. Apenas tinha a obrigação de contribuir com diminutas pensões à instituição conventual.
         O domínio das terras não só trazia riqueza, mas também poder. Naturalmente, a procura desse domínio gerou desavenças entre os poderes senhoriais, do clero e da nobreza, e entre estes e o rei. A Igreja reivindicava os  privilégios ligados ao seu poder temporal e o rei que, nessa altura, queria concentrar o seu poder, insistia no cumprimento da jurisdição régia que elaborava. Surgiram as inquirições (a partir de D. Afonso II) e, a partir delas, o rei promove desamortizações (lei que proibia os mosteiros e ordens religiosas de adquirirem bens fundiários, visando diminuir o seu poder)  e as confirmações régias, que tinham como objectivo ratificar as concessões e doações atribuídas.
Ponte do Arco sobre o Rio Ovelha

         É neste contexto que as terras da Folhada passaram a ser de Gonçalo Gil da Veiga, que viveu na quinta do Vinhal.  Mais tarde, vendeu-a aos Souzas Chichorros, mais propriamente a Fernando de Souza, descendente de Martim Afonso Chichorro, filho bastardo de D. Afonso III e de Dona Alonso (ou Dulce) Rodrigues de Sá -- uma senhora, na concepção do tempo, muito linda, natural de Gestaço e abadessa no Mosteiro de S. Cristóvão de Rio Tinto. Terá levado o rei a pensar, como a lenda diz que Adão pensou:” Onde Ela estiver, lá haverá o paraíso”.
         Os “Sousas”, entretanto, perderam influência nas cortes (assembleia de nobres e alto clero que se realizou pela primeira vez com D. Afonso II) pelos conflitos que travaram a propósito dos direitos senhoriais e um deles, um tal D. Gonçalo Mendes, foi mesmo obrigado a exilar-se para escapar à prisão e, possivelmente, à morte, como acabavam sempre estas contendas.
         A posse das terras da Folhada foi, assim, transitando da nobreza para o clero e deste para a nobreza, conforme as circunstâncias: heranças, doações pias, confiscações, etc. D. João II, por exemplo, entregou-as a D. Vasco Coutinho como recompensa pela denúncia que este fez da conspiração que contra si estava preparada pelo duque de Viseu.
         Em 22 de Novembro de 1513, D. Manuel I  concedeu foral ao Concelho de Gouveia de Ribatâmega, que tinha a sua sede no Covelo, Amarante, e S. João da Folhada, tal como acontecera a  Tabuado foi integrada nesse concelho, passando a pertencer, sob o ponto de vista administrativo, à comarca de Guimarães e, sob o ponto de vista eclesiástico, à diocese do Porto.
         Só por volta de 1542, no censual da Mitra (mitra- diz respeito ao que os cónegos colocam na cabeça e, por, antonomásia, significa o conjunto de documentos por eles produzidos),  surge a designação “Sam Joham da Folhada”.  Talvez o topónimo tenha a ver com a quantidade de folhas que apareciam caídas nesta terra. Anteriormente, é citado o nome Pousada. 
         A igreja paroquial, de início, situava-se junto à Ponte do Arco, uma ponte que terá sido reconstruída sobre as ruinas da ponte romana que aí existiria antes das invasões árabes, mantendo o mesmo estilo. Seria perto daqui que se situaria o castelo romano (de que já falamos) que ocupado pelos mouros ganhara a designação de castelo de mouros. Ali havia um povoado. confirmado pelas sepulturas cavadas em rocha, junto do que deveria ser uma via romana servida pela respectiva ponte. É pena que as silvas escondam este património, que é sempre fonte de conhecimento da nossa história colectiva.

                                                                           Igreja da Folhada ( Fachada)
         Como sabemos, os templos foram sempre lugar não só de recolhimento, mas também de encontros e afectos, desde tempos imemoriais. Quem não se lembra dos convívios nos adros das igrejas? E é pena que, hoje, num tempo marcado pelo individualismo e  pela falta de vínculos nas relações afectivas, se tenha perdido esse hábito. Também era no adro da igreja, ao ar livre, geralmente junto a uma árvore frondosa, que se reuniam as assembleias dirigidas por anciãos prestigiados, geralmente chefes de família (patriarcas) ou, então, por aqueles que dispunham de poder económico e prestígio angariado pela capacidade de defender os servos contra os que não eram seus senhores directos. Discutiam-se os problemas morais, políticos e sociais que precisavam de ser resolvidos. A força das decisões apoiava-se na coesão da comunidade que, orientada por uma lógica de fidelidade ao que melhor sabia gerir conflitos e persuadir, sabia ouvi-lo e respeitava o que fosse aprovado nas assembleias. Só muito mais tarde é que estas assembleias passaram a ser  feitas em edifícios próprios.
         O local da igreja obtinha, assim, uma carga simbólica muito grande. Mudar de local teria de ter, para o inconsciente colectivo dos paroquianos, uma justificação muito forte. Isto explica a lenda que, através dos tempos, foi sendo construída, segundo a qual o sino da antiga igreja era arguto e, durante as invasões árabes, fugia pela noite para o local onde os paroquianos  encontravam refúgio. Era aí, no alto da freguesia, na pousada, que precisavam da igreja e o sino fez essa sinalização.
         Temos, assim, a razão do centro da Folhada ser levado para meio das encostas da Serra da Aboboreira. É um lugar de pouso aprazível, quase sempre soalheiro, onde o corpo sente o descanso e os olhos, voltados a poente, desfrutam duma deslumbrante panorâmica, onde se incrustam povoações, como Penafiel, Felgueiras, Marco de Canaveses e Amarante.
                                                                                 Nicho na Igreja da Folhada
         Até ao século XIX, o pároco dispunha de um poder de protecção e jurisdição das pessoas que viviam na sua área de influência, ou seja, na paróquia. Nela havia irmandades e confrarias que, nessa altura, estavam muito longe de se constituírem feiras de vaidades com preocupações de distinção social. Essas irmandades e confrarias elegiam os seus juízes ou oficiais que ajudavam o pároco na devoção ao oráculo da freguesia, na administração dos bens que pertenciam ao património da Igreja, no diminuir o sofrimento dos mais pobres e até no cuidar da manutenção de pontes e caminhos, como um serviço aos viajantes e peregrinos, sobretudo os que iam para Santiago de Compostela.
         Nesta altura, a Freguesia transitou para a circunscrição municipal de Soalhães que, pelos Decretos de 31 de Março e 28 de Dezembro de 1852 e 31 de Dezembro de 1853, foi extinto, bem como o de Benviver. Estas autarquias passaram a ser freguesias e todas elas, inclusivamente S. João da Folhada, passaram a integrar a comarca do Marco de Canaveses.
Presentemente, para questões administrativas, S. João da Folhada está ligada à Freguesia de Várzea de Ovelha.
         Por já ser longo este post, em próximos falaremos da importância dos ferreiros nesta freguesia, do milagroso Gonçalo Dias da Folhada e, ainda, da aparição de Nossa Senhora a três pastorinhas em 1758 e das eventuais razões que terão provocado o esquecimento deste facto.

João Batista Magalhães


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