segunda-feira, março 27, 2017

 

Segundo encontro


Na antiga China, havia a tradição do Imperador, no primeiro dia da Primavera, abrir o primeiro sulco da terra. Essa cerimónia simbolizava a reconciliação do mundo profano com as forças do espírito. Assim acontece com a amizade. Não há a possibilidade de encontrar um sentido para a amizade, sem reconciliarmos os sulcos que o mundo da vida da adolescência cavou com a vida do espírito que alimentou esse mundo.

A nossa amizade está presa a essas raízes. Podemos ter mudado de convicções, podemo-nos ter separado pelos modos de ver o mundo e a vida, mas o que nos liga emerge do mais profundo, dessa âncora onde ficam os sulcos que prenderam as nossas raízes.

Dizia  Wittgenstein, um filósofo do século passado:  “Os aspectos para nós mais importantes das coisas estão ocultos, devido à sua simplicidade e familiaridade. (…)”. Precisamos destes encontros para desocultar o mais importante, o que na saudade esconde “esse sonho que vive de trás da vidraça” como diria Pessoa. Um sonho, vivido na adolescência, que faz da memória a sua âncora.

Por alguma razão na antiguidade clássica, a memória era personificada por uma deusa: a Mnemosyne, mãe das musas e responsável pela inspiração dos poetas.

Não há melhor poesia do que o sol que cresce num encontro de amigos, recuperando o nome num abraço, partilhando sorrisos, fazendo de nós os outros que éramos.

Este encontro foi na planície alentejana. Por aí andamos dois dias, passamos pela Vidigueira, ouvimos os cantares alentejanos, fomos a Moura, onde a saudade do meu amigo José Cunha me perseguiu (por onde andará ele?) e regressamos a Alcochete.
 


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