terça-feira, fevereiro 21, 2017

 

Tabuado

Tabuado

Igreja Românica de Tabuado


É talvez a mais interessante freguesia do Concelho do Marco de Canaveses. Por ali passou uma via romana e uma das rotas que levava os peregrinos até Santiago de Compostela.
Sabemos que foi vila e, possivelmente, desenvolvida sobre os alicerces de uma antiga citânia. As vilas surgiam geralmente assim. Com a reconquista cristã, feita por aqueles que colocavam o hábito sobre uma armadura e, confiantes de que “Cristo velava pelos seus”, correram com os mouros, Tabuado foi entregue aos cavaleiros monásticos da Ordem dos Templários.
O local deveria ter sido estratégico, porque o seu topónimo sugere ter recebido o nome da armação de tábuas, o “tabulato”, que era aí colocado para servir de alvo no treino militar. E pode ser que o “Heremita de Tabulato”, a que se refere Alexandre Herculano,  seja o cruzado zelador desse centro de treino.
Os Templários terão seguido o modelo de organização da nação como era discutido nas cortes. Nessas reuniões, tinham assento nobres, bispos, abades de mosteiros e de outras ordens. As primeiras terão sido celebradas, entre 1095 e 1108, no tempo do Conde D. Henrique.
Naturalmente, a construção de um mosteiro não visava apenas a dilatação da vida espiritual, mas também significava estender um braço do poder, que se manifestava nas cortes, às terras conquistadas aos mouros.
Os Templários, ao construírem um mosteiro em Tabuado que, em seguida entregaram aos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, terão aproveitado a jurisprudência tradicional da Vila para a integrar no modelo administrativo que os abades e os bispos conheciam  na corte.


 Torre da Pena

Assim se explica que em frente ao Mosteiro, onde hoje é a igreja, tivesse havido uma mesa e bancos de pedra, onde os homens bons, a quem tinha sido delegado o poder, se reuniam para  discutir as questões da comunidade e tomar decisões. Além disso, dotaram a vila de um juiz ordinário do cível e dos órfãos, que terá exercido o seu poder na torre da Pena. Mas, no âmbito do crime, tinham de responder no concelho de Gouveia-Ribatâmega, ao qual Tabuado pertencia. A torre da Pena sinaliza esse poder,  como acontecia com as torres das casas grandes, como era a de Nevões.
Os conflitos, na disputa de terras entre a ordem religiosa e os fidalgos, obrigou D. Afonso Henriques a confirmar, por carta de couto, a posse pelo convento das terras de Tabuado.
Mas a disputa de terras não terá terminado. D. Afonso III, em 1258, empreendeu inquirições por todo o reino para que os seus enviados verificassem “in loco” quais as terras que se encontravam em posse indevida do Clero ou da Nobreza.
As melhores informações sobre a história destas terras, vêm, por isso, das inquirições reais, que foram em 2014 compiladas em dezenas de volumes com a designação de memórias paroquiais. 


 Torre de Nevões

Tabuado foi Vila e Couto. Segundo Pinho Leal (“Portugal Antigo e Moderno”), o primeiro senhor de Tabuado foi Diogo de Barros. Pelo casamento de uma das suas netas, a sétima, com Sebastião Pereira Correia Montenegro este tornou-se no primeiro morgado de Tabuado, residindo no Solar da Torre de Novões.
No séc. XII, terá havido em Tabuado dois templos: um dedicado a Santa Maria e outro ao Salvador, uma referência a Jesus Cristo, muito invocado pelos cruzados. Só este chegou até ao nosso tempo e é o orago da Igreja românica que actualmente existe.
A igreja possui uma monumentalidade que a torna num dos melhores exemplos da época românica. Dispõe de uma pintura mural da imagem de Cristo Salvador que é exemplar único.
No séc. XV, a pedido do bispo do Porto, o papa Sisto IV, que foi responsável pela instituição da terrível inquisição em Espanha, terá sido chamado a resolver uma querela de disputa de interesses ligados às terras de Tabuado entre clero e fidalgos. Resolveu a questão, reduzindo o couto a uma abadia secular e entregou-a ao bispo do Porto, mantendo, por outro lado, o direito de padroado ao morgadio dos Montenegros.
Tabuado passou, então,  sob o ponto de vista eclesiástico a pertencer ao concelho de Canaveses e à diocese do Porto, mas sob o ponto de vista administrativo, em 1736, ainda pertencia à comarca de Guimarães e ao concelho de Gouveia-Ribatâmega. Depois fez parte do concelho de Soalhães e com a reforma liberal do século XIX foi integrado, com a designação de freguesia, no concelho do Marco de Canaveses.
As muitas capelas que se localizam em Tabuado sinalizam que a freguesia recebeu importante influência de ordens religiosas e teve destaque no apoio a peregrinos.
As personalidades ilustres de Tabuado foram muitas e muitas são as narrativas em que estão envolvidas. Convém, no entanto, lembrar que em boa verdade, todos os escritos que se conhecem anteriores à fundação da Academia Real de História, no séc. XVIII, têm carácter proselitista, estão mais próximos das lendas do que da história. E mesmo, quando D. João V, a pedido de D. António Caetano de Sousa e de D. Francisco Xavier de Meneses, criou a academia, em 1720, foi para fazer biografia fantasiada de reis e fidalgos e não para narrar factos objectivos. A história foi sempre uma das perspectivas possíveis  do que aconteceu e há sempre muita dificuldade em encontrar a história do passado, desprovida de fantasias.
Entre as personalidades do século passado que mais prestigiaram Tabuado, conhece-se Fernando de Miranda Monterroso, médico e herói das campanhas de pacificação em África e herói da Grande Guerra; Costa Santos, notável Médico; Borges Araújo, notário e advogado; Amadeu Marramaque, presidente da Câmara do Marco; Ramiro Afonso Pontes, advogado e conservador do Registo Civil, um dos fundadores da PROMARCO, a quem se deve a estrada que liga duas aldeias da Serra da Aboboreira,  e um dos últimos social-democratas que o Concelho conheceu; António Joaquim Monteiro, jornalista e poeta, etc.
Não pretendemos esgotar o muito que há a dizer sobre Tabuado, mas apenas despertar a memória desta Terra, cientes de que quanto melhor a conhecermos, melhor nos sentimos identificados com as nossas raízes.


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