quinta-feira, fevereiro 02, 2017

 
Escrevi este texto para o blog da Associação dos Amigos do Concelho do Marco. Espero que ajude a conhecer melhor a minha terra

Soalhães terá já existido como povoado muito antes da formação da nacionalidade. E a sua toponímia recebeu-a de sunilanis ou suylanes, palavra que deve ter a ver com o facto de ser um local soalheiro, de terras muito férteis e irrigadas. Foi uma vila romana e, por certo, mais tarde ocupada  pelas invasões dos muçulmanos e reconquistada pelos cruzados.  Não é por acaso que um documento de 865 refere a existência em Suylanes de um mosteiro de freiras e frades da ordem de S. Bento.  O seu fundador parece ter sido um tal Sancho Ortíz ou Ortiga que tudo indica ser um importante cruzado que por aqui andasse a defender os cristãos contra os mouros.  Foi buscar ao bispo de Tour, S. Martinho, o patrocínio do Mosteiro, precisamente porque este alto clérigo, que viveu no séc. IV, era filho de um comandante romano e converteu-se ao cristianismo. Muito venerado pelos seus milagres (quem não se lembra do dia de S. Martinho!) e por ter fundado o mais antigo mosteiro conhecido na Europa. E Ortiz terá querido divulgar o exemplo do Bispo e manifestar a devoção que lhe prestava ou pagar-lhe alguma promessa com a construção do mosteiro e a doação, para a sua subsistência, da sua quinta de Ortiz, entre outros bens.
         Seria estranho construir-se um Mosteiro, se por ali perto não houvesse um povoado relevante. Os mosteiros construíam-se sempre fora dos povoados para que os monges não fossem perturbados na sua meditação, mas precisavam sempre que bem perto ficasse um povoado para exercerem testemunho da sua vida espiritual e suprirem as carências necessárias à vida do dia a dia. É até muito possível que esse povoado tivesse derivado da muito remota ocupação da Aboboreira iniciada por povos da pré-história, que as dezenas de mamoas e dolmens dão testemunho.
         Por volta do séc. IX,  na altura em que se julgou terem sido descobertos os restos mortais do Apóstolo Santiago, que deu o nome a Santiago de Compostela, este lugar rapidamente se tornou numa alternativa às grandes peregrinações a Roma e a Jerusalém e ganhou jurisdição religiosa sobre as dioceses da  Galiza.
         Por Soalhães, fizeram caminho muitos dos peregrinos que vinham de diferentes partes, seguindo antigas vias romanas que levavam nomeadamente a Braga, principal entroncamento de peregrinações, da qual se dizia: “ Braga reza… e os céus enchem-se de cânticos e louvores ao apóstolo Santiago”. A capela de Santiago testemunha esse  itinerário de peregrinos.
         O Mosteiro de S. Martinho ganhou muito prestígio e dispunha de rendas abundantes. Só isso justifica que no ano 1029 os frades do Mosteiro tivessem ido a Castela queixar-se ao Rei, Fernando Magno, da apropriação do direito de padroado que lhes queria fazer o cavaleiro secular Garcia Moniz, neto (só no séc. XVI, com o concílio de Trento, apareceu o celibato na Igreja) do bispo Gonçalo Moniz que conquistou o Porto aos Mouros e se achava senhor das terras que iam até Riba Douro.
         Os conflitos de jurisdição de padroados eram frequentes nos séculos XI, XII e XIII. A maioria das terras pertenciam à Igreja e o bispo era uma autoridade não apenas religiosa, mas também politica. Podia decidir a entrega de terras a seu bel-prazer e isso gerava por vezes conflitos. E quando isso acontecia, recorria-se ao Rei e depois ao Papa. Talvez, por isso, em 1103, o papa Paschoal II, numa bula enviada ao arcebispo de Santiago, D. Diogo Gelmires, que tinha jurisdição sobre as dioceses de Braga e do Porto, extinguiu o mosteiro de Soalhães.
         Entregou o padroado do Mosteiro à família Moniz, da qual haveria de fazer parte Gonçalo Viegas de Porto Carreiro, um nobre cavaleiro, que instituiria o morgadio de Soalhães. No ano 1238 já não se fala do Mosteiro, mas de uma igreja diocesana, a Igreja de S. Martinho de Soalhães, que nessa altura dispunha de uma arquitectura diferente da que é hoje: possuía espaços majestosos e uma elegante torre para sinos e relógio, separada do corpo da igreja e com um espaço que servia de aljube. O seu prior, pela importância que tinha a igreja, era Abade com cruz peitoral e isso significava que tinha ascendência sobre outras freguesias. Nesse ano, D. Sancho II retirou o padroado a Porto Carreiro e entregou-o ao Bispo do Porto, D. Pedro Salvador, que, por querer paz, o trocou com D. João Martins de Soalhães, bispo de Lisboa, familiar de Moniz e Porto Carreiro. Por sua vez, este Bispo, que tinha vários filhos, entregou estas terras a Vasco Annes de Soalhães, que foi legitimado filho de D. João Martins, pelo rei D. Dinis, a 18 de Janeiro de 1308. Ficou sepultado na capela-mor da igreja. 
 Igreja de Soalhães

         À medida que o poder real se foi concentrando, os reis promoveram inquirições para conhecer as terras, os seus proprietários e tomarem decisões de entregar terras a nobres da sua confiança. Para afirmar o seu poder D. Afonso III empreendeu as inquirições de 1258 que geraram muitos conflitos entre a nobreza e o clero. D. Fernando, por carta de Julho de 1373 pôs termo a esses conflitos, decidindo doar as terras de Soalhães a Gonçalo Mendes de Vasconcelos, que ali construiu um apalaçado edifício que veio dar lugar ao Solar de Quintã, concluído, tal como o temos hoje, em 1742,  ainda no tempo de D. João V.
         D. Manuel I, por carta do dia 15 de Julho de 1514, concede o foral de Concelho a Soalhães, que passou a abranger as seguintes freguesias: Folhada, Fornos, Mesquinhata, Soalhães, Tabuado e Várzea de Ovelha (Aliviada). Dispõe de um pelourinho e de uma administração da Justiça idêntica á do Concelho de Canaveses. Será talvez interessante saber que foram capitães-mor de Soalhães António Vieira de Magalhães, capitão da companhia do couto de Soalhães em 5 de Maio de 1781, António de Vasconcelos Corte-Real, capitão-mor em 2 de Março de 1795 e Inácio de Moura Coutinho da Silva Montenegro, em 11 de Setembro de 1830, último  a desempenhar este cargo.
         Soalhães é uma das maiores freguesias do Concelho. Ficou célebre por um crime, cometido em 1934, instigado por um bruxo de Ermesinde. Uma jovem epiléptica, que pertencia a uma família pobre do lugar de Oliveira, por “receita” do bruxo foi queimada por familiares na presunção de que ressuscitaria sem os ataques de epilepsia. No julgamento, o advogado de defesa, nas suas alegações, bem implorou aos magistrados que no banco do réu estivesse o verdadeiro autor do crime e não aquela gente humilde que só queria a saúde da sua familiar, mas não foi isso que aconteceu. Os réus foram condenados a pena maior. Por se tratar de gente honrada, o  peso do sofrimento, da revolta e da vergonha fez com que toda a família dessa jovem  desventurada desaparecesse de Soalhães, desconhecendo-se, ainda hoje, o seu paradeiro.
Casa de Quintã - Soalhães
 
        Bernardo de Santareno, pseudónimo do médico de Santarém, Dr. António Martinho do Rosário, era um homem de esquerda, que se preocupava com a sorte dos desfavorecidos. Foi médico junto da frota bacalhoeira portuguesa e conhecia bem os problemas sociais do seu País. O seu interesse por estas questões estimulava-o a escrever sobre as condições de existência da gente mais humilde . Sensibilizado com esta tragédia escreveu o livro “O Crime da Aldeia Velha”, que mais tarde, Cunha Telles, o grande promotor do cinema novo, transformou num projecto  para o cinema e Manuel Guimarães concretizou-o.
         Não é uma “peça” que apouque Soalhães ou o Marco de Canaveses, mas um trabalho de denúncia do regime salazarista, da exploração da ignorância e das crenças. Só por má-fé, numa construção sofistica, se pode tomar esta tragédia pela maldade de uma terra. O que aconteceu em Soalhães poderia ter acontecido numa outra terra qualquer, onde as circunstâncias fossem as mesmas. Soalhães e Marco de Canaveses foram sempre, na sua história, terra de gente boa e de honra e quem dela tem dado má imagem ou nunca teve nela raízes ou foram pervertidos por vigaristas que no Marco estenderam arraiais!

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