segunda-feira, outubro 24, 2016

 

Sem amigos ninguém escolheria viver


Não nos víamos há mais de 50 anos! É muito tempo, tempo de mais de meio século. Muitos já partiram sem dizer adeus. Fizémo-los viver com o coração a soluçar por dentro e sem demora para não sangrar a alma do nosso encontro.
São as feridas da saudade, quando levada de encontro ao peito, é a dor de querer colocar no presente tudo o que a memória de bom traz do passado.
Suponho que foi Hesíodo, na sua Teogonia, que identificou o reino do ser com o reino da memória e a negação do ser com o esquecimento.
A memória na antiguidade era uma deusa: Mnemosyne. Instituiu a identidade e guardou os melhores bens, como é a amizade.
Tem razão Aristóteles, quando na Ética a Nicómaco, garantia: “ Sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que houvesse outros bens”. E Epicuro, considerado o filósofo da amizade, assegurou: “De todos as coisas que a sabedoria nos oferece para a felicidade da vida, a maior é a amizade”.
A amizade é uma dádiva que flui sem avisar, resiste ao egoísmo, faz da vida um fraternizar e quando a tristeza aparece transforma-a em canto de esperança.
Wittgenstein sublinhou que “os aspectos mais importantes da vida estão ocultos” e é isso que acontece com a amizade. Desoculta-se nos afetos que são os seus sinais no mundo da vida.
Foi isso que senti no encontro dos Olivais, com antigos companheiros perdidos, como gaivotas que foram dispersando no mar revolto da vida. Agora, voltamo-nos a reencontrar, sem a espuma do arrepio entre os rochedos do mar. Fez-se no abraço o nome de primo, como eu era conhecido.
Se eu tivesse engenho e arte fazia deste reencontro na minha terra um poema da amizade. Foi festivo o abraço entre sorrisos, que demos no Restaurante Magalhães, o local de encontro,  com o João Vinagre, o Sereno, o Eugénio, o Cabral, o Manel Mourão e quase todo trouxeram as suas esposas.
Se deus existe, e eu desconfio que pode existir, chamar-se-á amizade. Pois veio do divino este encontro, esteve connosco na igreja do Siza, em Tongobriga, na minha casa, na Casa da Quintã da Folhada e permaneceu até ao almoço do outro dia na Enoteca da quinta de Avessada, em Favaios, do meu amigo Barros.
Depois, partiram e deixaram a saudade de um próximo encontro da primalhada, como passamos a designarmo-nos.




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