domingo, outubro 23, 2016

 

GENTE QUE FAZ UMA TERRA DECENTE




ADRIANO JOSÉ DE CARVALHO E MELO

O Marco de Canaveses tem muita gente que fez da sua Terra uma terra decente. Basta conhecer a sua história, conhecer a postura  dos seus melhores filhos, para que nos entristeça ouvir falar do Marco de Canaveses como a terra do “mata e queima”, do Zé do Telhado ou, ainda, de algumas figuras grotescas.
Não é possível dar a conhecer todas as personalidades que nos honram como nossos conterrâneos. Mas é pena que não se faça! E não me refiro a Carmem Miranda que só se tornou notável, porque o seu pai a tirou do Marco e a levou, em tenra idade, para o Brasil. Se continuasse na terra onde nasceu (que nunca adoptou!) pertenceria hoje ao imenso número de gente desconhecida, a que ninguém  ligaria absolutamente nada.
Lá aonde estiver, a Carmem Miranda só pode agradecer aos brasileiros a notabilidade que granjeou e há-de rir-se dos marcoenses, quando se servem do seu nome para o colocar em ruas e museus e esquecem o abandono a que a votaram em menina. Podia ser uma autocrítica a relevância que lhe dão, mas parece uma festa semelhante à dos  cucos que põem os ovos nos ninhos dos outros para criarem os seus filhos.
Merecia muito mais relevância, por exemplo, José Monteiro da Rocha, Reitor da Universidade de Coimbra, criador do observatório astronómico e chefe da missão que teve como objectivo estabelecer os acordos de paz com as tropas napoleónicas. Nasceu e cresceu em Canaveses e nunca esqueceu a sua Terra. Ou, então, os criadores do Concelho, os Homens que estiveram na origem na Misericórdia do Marco, dos Bombeiros (e que nesta missão morreram) os que se distinguiram nas artes, na ciência, etc.
É este tipo de gente que me interessa! Nela poderemos configurar o sentido de ser marcoense, incapaz de renunciar à sua Terra, mas sempre empenhado em dignificá-la, sem esperar qualquer recompensa.
Precisamos de referências exemplares que estimulem a ligação à nossa Terra, façam a coesão social e cimentem os laços de confiança que promovam o gosto de ser marcoense, de investir no seu Concelho e sentir como seu sucesso, o sucesso da sua autarquia.
Aliás, não é  este sentimento que dá sentido à ideia de autarquia e de cidadania, “governo dos próprios pelos próprios”?!....
Não se constrói o espírito autárquico, sentindo-nos náufragos, numa ilha entregue a um só homem, deixando-nos à sorte dos nossos próprios recursos. Ou então, ficando como um bando de cucos, sempre à espera de ninhos onde possam colocar os seus ovos.
A  origem do concelho do Marco  não é muito longínqua. Surgiu em meados do séc. XIX. A sua criação deveu-se ao deputado da Nação, Adriano José de Carvalho e Mello, nascido no lugar da Picota, em Tuas, e por isso conhecido por sr. Adriano da Picota. E teve uma justificação forte para que a Assembleia e o Governo do reino aderissem á sua ideia.
Nessa altura, campeavam pelas diferentes comarcas grupos de pobres diabos, que, durante a noite, com armas de carregar pela boca, intimidavam viajantes para os roubar e assaltavam casas nobres para sacar o ouro e a prata que trocavam por poucas patacas nos receptores que, com isso, tal como hoje, ficavam mais ricos do que os que roubavam pela acção directa. Um desses chefes foi Zé do Telhado, um antigo combatente da pacificação de Africa galardoado com a medalha de Torre e Espada.
Abandonado pela pátria que serviu, fez aquilo que sabia fazer: comandar um pequeno grupo para defender o pão que faltava à sua família. Tornou-se, nessa matéria, um empreendedor, tão esmerado que até se dizia que “roubava aos ricos para dar aos pobres”. Se fosse hoje, e quisesse inverter a causa “roubar aos pobres para dar aos ricos”  poderia muito bem ter chegado a banqueiro.
Assaltou a Casa de Carrapatelo e matou um criado. Foi uma péssima referência para a Região. Ficando sem castigo,  manchava a própria dignidade do povo desta terra. Assim o percebeu o Sr. Adriano da Picota,  quando jurou que o prenderia.
Prendê-lo e à sua quadrilha, estivessem onde estivessem, obrigava a uma reforma administrativa que desenvencilhasse as autoridades dos empecilhos burocráticos. Não era permitido à polícia entrar numa comarca sem autorização do seu administrador. 
O deputado Adriano José de Carvalho e Mello não ficou pela retórica das boas intenções. Não separou o Zé do Telhado do seu grupo, como muitos costumam fazer, e para alargar o âmbito das investigações da sua polícia, propôs à Assembleia e ao Governo do reino que fosse unida a comarca de Soalhães à grande comarca de Benviver, que compreendia uma grande extensão, indo de Gouveia até S. Lourenço do Douro, tendo em Sande a sua sede.
Apresentou essa ideia na Assembleia e ao governo da  Coroa e lutou, sem o alardear que hoje é costume, para que  o concelho de Soalhães e de Benviver se tornassem numa única comarca, sugerindo  que o novo concelho se denominasse Marco de Canaveses.
Pelo Decreto de 31 de Março, em 1852 foi, então, criado o Concelho do Marco de Canaveses. No artº 1º estabelecia: “São reunidos num só concelho, os concelhos de Soalhães e de Benviver”.  E no artº 2º dizia-se:  “O novo concelho passa a ser denominado Marco de Canaveses” e os seus habitantes marcoenses (do Marco, escrito com “o”  não com “u”).
A esta distância, a reforma administrativa que o sr. Adriano da Picota promoveu levanta uma questão:  por que se lembrou Adriano José de Carvalho e Mello de denominar  Marco de Canaveses o novo concelho, se não há nas comarcas aglutinadas algo que deixe antever essa  designação?!...
Adriano José de Carvalho e Mello, para além de deputado, fora administrador do concelho de Soalhães, com Casa Municipal no “lugar do Marco”. Ali, antes de ser construída a casa municipal, havia um marco de pedra que limitava dois coutos que vieram a dar origem às freguesias de Fornos, S. Nicolau e Tuias. Situava-se na planura onde se levantou a Casa Municipal e, hoje, está o  edifício da Câmara Municipal.
Canaveses era uma Beetria; isto é, uma importante povoação rural que desde a alta Idade Média tinha o privilégio de escolher livremente os senhores que reunissem as melhores qualidade para defender o bem-estar do povo da localidade. Isso era a maior exigência duma povoação que tivesse  grande desenvolvimento económico e era o que lhe dava mais prestígio.
A toponímia Canaveses terá a ver com três circunstâncias: o lugar situado junto ao Rio Tâmega proporcionava a cultura do linho “cânave”. Os que o produziam eram os “canaveses”, como se dizia no português antigo. Por outro lado, por ali terá passado a estrada romana Tamacana-Via e os que ali habitavam “tamacanavienses” que se foi simplificando até canavienses e, logo depois, canaveses. Acresce, ainda, que nesse lugar também havia as “Aquae Tamacanae” conhecidas, hoje, por Caldas de Canaveses.
A simplificação fonética foi determinando que o local se fixasse em Canaveses e, como podemos inferir, com o grande prestígio que lhe vinha de ter sido uma Beetria, o sr. Adriano da Picota não teve dificuldades em convencer a Assembleia e o Governo da coroa de que o novo concelho fosse designado por  Marco (a que pertencia a  “Casa municipal”) de Canaveses, fixando a sua centralidade nesta região.
Com as condições criadas, a polícia que estava às ordens do administrador Adriano José de Carvalho e Mello foi prendendo os quadrilheiros, só escapando o Zé do Telhado. Entretanto, José de Carvalho e Mello deixou o cargo de primeiro administrador do concelho do Marco de Canaveses e foi ocupando outros cargos, como o de governador-civil de Bragança, de Braga e, por fim, Comissário da Polícia do Porto. Nunca esqueceu a sua promessa e com  estas novas competências a expensas suas (nessa altura, com o fontismo, Portugal entrou na bancarrota) mandou fardar, armar e preparar um corpo da polícia que apenas tinha como objectivo prender para ser levado à Justiça o Zé do Telhado. E conseguiu-o: descobriu-o na Ribeira do Porto, escondido debaixo de um lote de caixas de bolachas que, no barco “Oliveira” se preparava para levantar âncoras em direcção ao Brasil.
Não sabemos o que faria, hoje, o sr. Adriano da Picota, se os ladrões e seus cúmplices fossem os de colarinho branco!  Se procedesse como procedeu em relação ao Zé do Telhado, teríamos de concluir que não separava o chefe da quadrilha dos acompanhantes, os de colarinho branco dos maltrapilhos, e, por isso, sabia defender as virtudes da honra  e da dignidade que constituem o valor fundamental da democracia e da cidadania numa Terra de gente decente.
João Baptista Magalhães

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