
Lembro-me tanto de ti, amigo Luís de Camões!... Não sei onde
te poderia encontrar, mas gostava desabafar contigo o seguinte: admiro o teu
patriotismo, gosto de espevitar a minha velhinha alma com as delicias vividas entre
ninfas no canto nono, o tal que Cavaco desconhecia! Tu lutaste por Portugal até
perderes um olho, andaste perdido no mar infinito, sentiste as tormenta da
natureza e da vida entre os homens e
mesmo assim foste tu quem melhor soube interpretar a epopeia dos
descobrimentos, melhor soube exprimir o dom de amar mulheres bonitas; tu que
muito aprendestes com os gregos e os latinos, deixaste uma obra de valor incomensurável,
mas aconteceu-te o mesmo que hoje acontece
ao 25 de Abril: a falar de ti muitos e muitos vão enchendo os bolsos, enquanto tu
morreste na miséria; a falar de Abril muitos e muitos papers de governantes,
políticos de renome, advogados e outros mixordeiros foram para o Panamã, muito
aldrabão ficou rico e Portugal de Abril
pagou com uma austeridade imerecida a miséria, o suicídio, a emigrações, a falta
de proteção na doença, no emprego e na escola para os seus filhos o que foi
desviado, ou melhor, roubado nos bancos. Tudo aconteceu como se declarasse
guerra aos mais pobres, aos que apenas têm o trabalho para sobreviver.
Luís de Camões sinto o mesmo que tu sentes lá no Olimpo
entre as ninfas. Por cá, onde não há ninfas, proliferam os filhos da puta que
enchem o bolso a falar de ti ou de Abril, mas atiraram-nos para o sofrimento e a
miséria.
Será que o povo, que arde na mesma volúpia dos filhos da
puta, vai perceber que é preciso retomar o caminho de Abril?
# posted by Primo de Amarante @ 12:34 da tarde
