quinta-feira, janeiro 08, 2015

 

Não estou nesse paradigma

Não sei o que dizer neste dia de Reis! Pertenci ao tempo republicano em que ao escorrer da noite se cantavam os Reis. Vivi, sofri as arduras das paixões  num tempo em que amar era ficar debruçado à janela da alma, esperando que a tardinha trouxesse os sorrisos da amada. Foi este o meu paradigma.
Só muito tarde ouvi falar das uniões sentimentais, coisas passageiras, onde o entardecer se faz sem nostalgia e o cantar de Reis não é relevante e o amor é uma espécie de ginástica do corpo sem fazer soluçar a alma!
Sou um dinossauro do matrimónio, virado para as raízes. Permanece em mim a  ideia de que a roda do tempo deve girar sempre em torno do que nos faz amar e ser amado, procurar um mundo feliz e ver nesse horizonte o direito fundamental do sentido da existência.
De vez em quando, deparo-me, reflectido nas águas onde me vejo a anoitecer, a configuração de um outro paradigma. E isso aconteceu ontem: enquanto o autocarro que me levava de Alcochete para a Gare do Oriente, ouço (e não podia deixar de ouvir, tal era a intensidade do timbre) uma conversa de uma jovem, sentada ao meu lado, que  dizia em voz alta, ao telemóvel, a uma sua interlocutora: “ela (alguém que desconheço) quer ir para a cama com ele só para dizer que tem um filho  de…” (e deu o nome de um jovem que pertencia a um grupo rock musical que não fixei).
Voltei a pensar no meu paradigma, o que guardava retratos antigos, cantares de dia de Reis e sempre pensou a existência no  consolo de gente amada. Já o autocarro saía do longo braço da Vasco da Gama, quando passaram na minha memória gente de outra finura, outras companheiras de viagem. Pensei nas senhoras das ruas paralelas à rua onde moro no Porto e vi nelas (em contraponto com a companheira da viagem) uma enorme grandeza de alma: são os hospícios das horas de amargura, com valsas de seduções, sempre em  interpelações generosas. De vez em quando, dizem-me: “Avozinho, leva á carcela desapertada!” Ao que eu sempre respondo: “Muito obrigado, minha senhora”. E outras vezes, talvez porque o dia não esteja a ser afortunado, me desafiam: “Meu anjo, vamos brincar um bocadinho?!...” E, no receio de ficar mal, lhe replico o agradecimento habitual: “Muito obrigado, minha senhora!”
E depois de me lembrar dos Reis que procuraram o menino de uma nova infância, onde a ternura é convicta e o amor é o local onde a poesia pode repousar, senti que na puta desta vida, o único paradigma em que me consigo abrigar é o de Gabriel Garcia Marquez, nas “Memórias das Minha Putas”.

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