quinta-feira, janeiro 26, 2012

 

O meu abraço

Já há muitos anos que nos encontramos. Primeiro, era mensalmente e, depois, de vez em quando.

Une-nos a amizade. Nunca precisamos de discutir o que ela é. Reconhecemo-nos iguais e livres, mas isso não basta para sermos amigos. É certo que a amizade é a única relação que não precisa de ser justificada. E quando o é, já transbordou para o interesse: se eu preciso de demonstrar que sou amigo é porque há uma falha na amizade que o interesse quer resolver. Não somos amigos de quem queremos e não é certo que os amigos se escolham.

Seguindo as pisadas da fenomenologia, não é a amizade que existe, mas o modo como a sentimos.

Talvez, por isso, o cimento da amizade não é objectivo, não há razões para a fundamentar. Sou amigo dos meus amigos, porque os meus amigos me consideram assim. Mas a amizade não se fica por aqui. Entre amigos há coisas que não se podem tolerar. Não há um direito especial dos amigos ao erro, ao vício, à corrupção, à desonra. E, por muito que se diga que a compaixão é uma virtude da amizade, o verdadeiro amigo não gosta de ser alvo dela. É certo que gera conforto, mas o compadecimento é, de certa forma, padecer por eles e isso pode ter uma conotação com uma protecção que os infantiliza.

A tolerância, a compaixão e a solidariedade só cimentam a amizade se forem confundidas com a generosidade.

Muitas vezes, associamos a generosidade à virtude da dádiva. Mas dar coisas sem postular reciprocidade não significa ser amigo. A generosidade entre amigos é magnânima, nada espera receber, nada quer em troca: alimenta-se duma reciprocidade cúmplice.

A magnanimidade faz com que, na amizade, se associe a generosidade à liberdade. É o afivelar de um sorriso sem uma causa.

Em quase todos os nossos encontros há uma manifestação de magnanimidade: surpreendemo-nos, uns aos outros, repartindo uns desenhos, umas pinturas, uns versos, uns postais ou mesmo umas fotos.

Neste nosso último encontro, o Roldão trouxe um opúsculo, a “Sépia Azul I”. Cada exemplar referenciava a década a que cada um de nós pertencia: 60,50 e 40. Vinha com memórias que recortavam pedaços de vida e, como escreve o Roldão, eram “para a fauna que gosta de começar a noite a conversar”.

Precisei de fazer esta reflexão, sobre o nosso encontro de HOJE, para ter presente que, quando a desilusão resistir, a utopia falhar e até sentir que Deus se afastou em silêncio, ainda há uma saída: convocar a vida da memória num encontro entre amigos: Roldão, Maia, Domingues e os outros que desta vez falharam.

O meu abraço.

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