sábado, outubro 24, 2009
Os paradoxos de Saramago

São muitas as expressões que no dia-a-dia dizemos e não queremos que sejam interpretadas literalmente. Por que não haveria de acontecer isso com a Bíblia?!....
Estou a ler o livro”Caim”. Penso que, paradoxalmente, Saramago faz uma interpretação de Caim que também não é literal. Aproveita-se desta personagem bíblica para tocar em muitos pontos da sociedade actual. E já, hoje, também o ouvi dizer que não é para interpretar á letra a sua frase: “A Bíblia é um manual de maus costumes”. Pois, até encontra na Bíblia passagens de grande elevação e humanismo.
Vivemos um tempo parecido com as contradições vividas no séc. XIX. Tudo o que não é científico é mistificação. E é interessante lembrarmo-nos que foi nesse tempo que se criaram igrejas racionais: uma forma de resolver o conflito do ateísmo, elevando a divindade a crença na razão. Este tema é desenvolvido pela associação ateísta de índole carbonária.
Mas a própria ciência, como diria Damásio, já precisa de validadores afectivos e nenhum cientista aceita que a razão seja unívoca, de tipo lógico-matemático. Há razões e não A RAZÃO. A razão funciona no interior de um paradigma e não é soberanamente autosuficiente.
Daí as nossas contradições, tal como os paradoxos em que rapidamente caiu Saramago.
Como não se pode provar racionalmente ou cientificamente a existência de deus, da mesma forma não se pode demonstrar a sua inexistência.
Este é o drama da nossa condição humana, sempre recorrente na história das ideias e na história da humanidade.