sexta-feira, setembro 11, 2009
Em que ficamos, Dr. Rangel?!...

Não percebi o pensamento de Paulo Rangel sobre ética e política, a propósito da polémica sobre a inclusão do arguido António Preto nas listas do PSD.
Num estilo sofístico, separa planos: plano político, plano ético e plano jurídico. No seu entender, a política situa-se no plano do conhecimento e, por isso, nada tem a ver com a ética, que pertence ao plano da acção. E cita, em favor dos seus argumentos, Aristóteles e Platão.
Esqueceu-se do seguinte: para estes filósofos, a ética é inseparável da política. O homem (livre) é um ser da Polis. E é precisamente no seio da Polis que desenvolve as disposições para a virtude ou excelência (aretê, em grego), traduzida no viver de harmonia com a honradez, a justiça, a prudência, o bem e o digno. Por isso, Atenas lançava ao ostracismo ou à expatriação os políticos corruptos, demagogos e perigosos.
É que para os gregos, em democracia, é essencial a consciência da responsabilidade e quem não harmonizasse a sua acção com o que era considerado justo e correcto ou não tinha respostas credíveis para as críticas que lhe faziam, devia afastar-se da política.
Paulo Rangel vai, curiosamente, buscar, depois, Maquiavel, para justificar a separação da esfera política da esfera ética ou jurídica. Mas parece que desconhece que Maquiavel ocupou o cargo de Secretário do Governo de Lourenço de Médicis, cinco dias depois de Savonarola ser executado por acusar de corruptos, nepotistas e criminosos os Médicis. E é neste contexto, que Maquiavel separa a esfera ética da esfera política, propondo que os fins justifiquem todos os meios.
O nosso Deputado europeu também não tirou ainda conclusões dos crimes que sempre houve, quando a esfera política é subtraída a qualquer avaliação moral, como aconteceu, por exemplo, com o nazismo e o fascismo.
Paulo Rangel conseguiu angariar, com as suas intervenções na Assembleia da República, muito prestígio. E todas essas intervenções se baseavam no paradigma que dá sentido à democracia: a política não é uma mera técnica do poder, nem o Estado pode estar divorciado da sociedade. Por certo, esse modo de ver contribuiu para a vitória do PSD e não apenas o desencanto político que o PS semeou na sociedade portuguesa.
As separações cartesianisticas do recém-eleito Deputado europeu estão em contradição com o paradigma holístico, onde tudo está ligado a tudo, que parecia anteriormente defender.
Será que o jovem Deputado ficou deslumbrado com a vitória das europeias e, agora, já pensa que a política é instrumental, só diz respeito à esfera da argúcia intelectual, sem nada ter a ver com a ética, com o mundo da vida, com o sentido público da responsabilidade, com a ideia de que “à mulher de César não basta ser séria, mas também é necessário que o pareça”?!...
Será que enveredou pelo pensamento de conveniência, como qualquer sofista despreocupado com a ética?!...
Preocupa-nos não saber em que ficamos!