quinta-feira, março 08, 2007

 

Meu Amor:


Considera, meu amor, a que ponto chegou a tua imprevidência. Desgraçado!, foste enga­nado e enganaste-me com falsas esperanças.

Uma paixão de que esperaste tanto prazer não é agora mais que desespero mortal, só compa­rável à crueldade da ausência que o causa.

Há-de então este afastamento, para o qual a minha dor, por mais subtil que seja, não en­controu nome bastante lamentável, privar-me para sempre de me debruçar nuns olhos onde já vai tanto amor, que despertavam em mim emoções que me enchiam de alegria, que bas­tavam para meu contentamento e valiam, en­fim, tudo quanto há? Ai!, os meus estão pri­vados da única luz que os alumiava, só lágri­mas lhes restam, e chorar é o único uso que faço deles, desde que soube que te havias deci­dido a um afastamento tão insuportável que me matará em pouco tempo.

Parece-me, no entanto, que até ao sofri­mento, de que és a única causa, já vou tendo afeição.


Mal te vi a minha vida foi tua, e chego a ter prazer em sacrificar-ta. Mil vezes ao dia os meus suspiros vão ao teu encontro, procuram-te por toda a parte e, em troca de tanto desassossego, só me trazem sinais da minha má fortuna, que cruelmente não me consente qualquer engano e me diz a todo o momento: Cessa, pobre Mariana, cessa de te mortificar em vão, e de procurar um amante que não voltarás a ver, que atravessou mares para te fugir, que está em França rodeado de prazeres, que não pensa um só instante nas tuas mágoas, que dispensa todo este arrebata­mento e nem sequer sabe agradecer-to. Mas não, não me resolvo a pensar tão mal de ti e estou por de mais empenhada em te justificar. Nem quero imaginar que me esqueceste.

Não sou já bem desgraçada sem o tormento de fal­sas suspeitas? E porque hei-de eu procurar esquecer todo o desvelo com que me manifes­tavas o teu amor? Tão deslumbrada fiquei com os teus cuidados que bem ingrata seria se não te quisesse com desvario igual ao que me leva­va a minha paixão quando me davas provas da tua.

Como é possível que a lembrança de mo­mentos tão belos se tenha tornado tão cruel? E que, contra a sua natureza, sirva agora só para me torturar o coração? Ai!, a tua última carta reduziu-o a um estado bem singular: bateu de tal forma que parecia querer fugir-me para te ir procurar. Fiquei tão prostrada de comoção que durante mais de três horas todos os meus sentidos me abandonaram: recusava uma vida que tenho de perder por ti, já que para ti a não posso guardar.


Enfim, voltei, contra vontade, a ver a luz: agradava-me sentir que morria de amor, e, além do mais, era um alívio não voltar a ser posta em frente do meu coração despedaçado pela dor da tua ausência.

Depois deste acidente tenho padecido muito; mas como poderei deixar de sofrer enquanto não te vir? Suporto confudo o meu mal sem me queixar, porque me vem de ti. É então isto que me dás em troca de tanto amor? Mas não importa, estou resolvida a adorar-te toda a vida e a não ver seja quem for, e asseguro-te que seria melhor para ti não amares mais ninguém. Poderias contentar-te com uma paixão menos ardente que a minha?

Talvez encontrasses mais beleza (houve um tempo, no entanto, em que me dizias que eu era muito bonita), mas não encontrarias nunca tanto amor, e tudo o mais não é nada.

Não enchas as tuas cartas de coisas inú­teis, nem me voltes a pedir que me lembre de ti. Eu não te posso esquecer, e não esqueço também a esperança que me deste de vires passar algum tempo comigo.

Ai!, porque não queres passar a vida inteira ao pé de mim? Se me fosse possível sair deste malfadado con­vento, não esperaria em Portugal pelo cumpri­mento da tua promessa: iria eu, sem guardar nenhuma conveniência, procurar-te, e seguir­-te, e amar-te em toda a parte. Não me atrevo a acreditar que isso possa acontecer; tal espe­rança por certo me daria algum consolo, mas não quero alimentá-la, pois só à minha dor me devo entregar.

Porém, quando meu irmão me permitiu que te escrevesse, confesso que surpreendi em mim um alvoroço de alegria, que suspendeu por momentos o desespero em que vivo. Suplico-te que me digas porque tei­maste em me desvairar assim, sabendo, como sabias, que acabavas por me abandonar? Por­que te empenhaste tanto em me desgraçar? Porque não me deixaste em sossego no meu convento? Em que é que te ofendi?

Mas perdoa-me; não te culpo de nada. Não me encontro em estado de pensar em vingança, e acuso somente o rigor do meu destino. Ao separar-nos, julgo que nos fez o mais temí­vel dos males, embora não possa afastar o meu coração do teu; o amor, bem mais forte, uniu-nos para toda a vida. E tu, se tens algum interesse por mim, escreve-me amiúde. Bem mereço o cuidado de me falares do teu coração e da tua vida; e sobretudo vem ver-me.


Adeus. Não posso separar-me deste papel que irá ter às tuas mãos. Quem me dera a mesma sorte!

Ai, que loucura a minha! Sei bem que isso não é possível! Adeus; não posso mais. Adeus. Ama-me sempre, e faz-me sofrer mais ainda.

CARTAS PORTUGUESAS


( carta atribuída a Soror Mariana Alcoforado

–trad. de Eugénio de Andrade)

Comments:
Uma carta fantástica, sem dúvida. Como, de resto, também o são as outras quatro. Invejo quem assim brinca com as palavras. E, brincando, nos dá notáveis momentos de leitura na arte de comunicar.
 
E não só!...

Um bom fim de semna com óptima disposição.
 
Não será um fim-de-semana com telefonemas inesperados e coincidências felizes, mas tentarei que seja com boa disposição.

Um bom fim-de-semana também para si e família. Desta vez, com destaque especial para uma DT que, durante dois bons e saudosos anos, virou anjo da guarda do Pedro e a quem serei grata a vida toda. Um beijinho para ela se nos ler.
 
Com triteza minha, não lê blogs.

um abraço para si.
 
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