terça-feira, janeiro 02, 2007

 

Bento XVI e a questão da interrupção voluntária da gravidez

O Papa Bento XVI comparou o aborto e as pesquisas em embriões ao terrorismo.

Afirmou, ontem, na homilia do Dia Mundial da Paz, que «junto com as vítimas dos conflitos armados, do terrorismo e das mais diversas formas de violência, temos as mortes silenciosas provocadas pela fome, pelo aborto, pelas pesquisas sobre os embriões e pela eutanásia».

Já referimos, num outro post, que a Igreja Católica pode ter a sua própria interpretação da vida humana baseada numa concepção bíblica do homem. Pode defender que no momento da fecundação já há um ser humano completo, com alma humana e corpo humano.Mas esta interpretação é polémica e não se harmoniza com uma visão científica.


A junção de dois gâmetas potencializa a vida humana, mas não é, para a ciência, vida humana. Só com a formação do sistema nervoso central se pode falar, sob o ponto de vista ontológico, em vida humana. E, sabendo a Igreja que esta concepção é geralmente aceite pela comunidade científica, associar a interrupção voluntária da gravidez ao terrorismo é, não só um exagero chocante, como traduz uma impiedade escandalosa relativamente ao drama vivido pelas mulheres que interrompem a gravidez.

Por outro lado, se o ser humano, como defende a Igreja, foi feito á imagem de Deus, como compreender “fazer” crianças (sem condições económicas, afectivas e sociais) para as deixar à sorte da vida, muitas vezes empurradas para a droga ou para o crime?!...

A necessidade que sente uma mulher de interromper a sua gravidez nada terá a ver com uma sociedade que nega o direito ao trabalho estável, à habitação, à educação, que valoriza mais o lucro que os direitos naturais?!... E porque nada diz o Papa sobre este nexo que está, na maioria dos casos, na origem do que chama “aborto”?!..

Este Papa, com as suas declarações em relação à interrupção voluntária do aborto, parece repetir a mesma imprudência que teve, quando referiu que um imperador bizantino do séc. XIV terá dito que Maomé trouxe ao mundo coisas “más e desumanas, como o direito a defender pela espada a fé que ele persegue”.

Nessa altura, a extrema direita agradeceu, mas as consequências dessa imprudência não foram boas para a sua imagem e da Religião Católica. Hoje, naturalmente, essa mesma direita preocupada com a “vida” interrompida com os “abortos”, mas despreocupada com a exclusão social, o desemprego, a fome e a miséria, também agradecerá.

A descriminalização é uma questão política, a interrupção uma questão de consciência. As razões da fé não são razões da polícia. Os direitos de consciência não são do foro da legalidade civil. Não se pode apelar a uma “boa consciência” com o “terror” da ameaça policial.


Tal como aconteceu com a condenação de Galileu, a Igreja, com este Papa, parece querer voltar a transformar as decisões políticas (como foi o caso da citação do imperador bizantino e, presentemente, o da descriminalização da interrupção voluntária da gravidez) numa questão religiosa.

Associar a mulher que faz a interrupção da sua gravidez a uma criminosa e a quem defenda esse direito a um terrorista é, para além de impiedosmente desumano, intolerável e só pode conduzir ao descrédito da imagem de um Papa como pastor (e não policia) de almas e, consequentemente, da própria Igreja.

É com muita tristeza que digo isto.

Comments:
Como a história nos tem ensinado a Igreja Católica tem uma interpretação muito própria sobre a vida humana. Essa interpretação tem fluído através dos tempos, o que significa que a própria concepção bíblica que a Igreja Católica tem do homem também não é estável e flúi consoante os tempos.

Concordo, em absoluto, com a ideia de que a descriminalização é uma questão política, a interrupção da gravidez é uma questão de consciência.

Assim sendo, a Igreja deveria ocupar-se da boa consciência dos crentes seus seguidores e não pretender, pela via da intervenção do poder temporal, impor as práticas que apenas devem resultar da fé ou da pregação aos fiéis.

A campanha política em que a Igreja se está a envolver aproxima-a de uma organização política, partidária, e afasta-a das questões ininteligíveis à luz da razão, próprias do sagrado. Contudo, também é verdade que o poder de Igreja tem mais a ver com a sua ligação e influência sobre o mundo da política, do que da imanência divina. O que mostra que, neste particular, a Igreja se mantém fiel ao poder político que a sustenta e vice-versa.

Assim foi e assim será.
 
Estou de acordo. Quem não se lembra da forma como a Igreja entendia o uso do preservativo. Também nessa altura, defendia que a relação sexual só se legitimava pela vontade de fazer filhos. Hoje, a Igreja já não está nessa onda. A realidade do mundo da vida puxa por ela.
 
Sabe uma coisa Primo? Sobre este assunto não consigo dizer mais nada. Ando cansada de ler e ouvir falaciosos argumentos que mais não são do que a defesa teórica e abstracta duma concepção utópica, arredada das verdadeiras causas que sustentam uma decisão pessoal de interrupção voluntária da gravidez.
Muitos dos que se pronunciam sobre o assunto ignoram do que falam, por nunca terem liderado de perto com o drama ou problema que leva as mulheres a fazerem-no, e outros preconizam, intransigentemente, a punição da mulher que aborta se e desde que não seja uma das mulheres lá de casa ou da família.
Portanto, nem sempre os emissores das teses que defendem o Não são pessoas avalizadas na matéria ou estão nessa defesa de forma honesta e genuína. É essa hipocrisia uníssona que me angustia. (Talvez fosse oportuno recomendar a leitura da “carta sobre a tolerância”). Respeito, todavia, quem, por questões de consciência, educação, fé, ou outras genuinamente interiorizadas, em que acredita, defende o Não.
Lamento sinceramente a posição do Papa e acho que, daquele modo, a Igreja vai regredir não conseguindo acompanhar os sinais dos tempos. Quando se precisava duma Igreja tolerante, solidária, que avoque a defesa das minorias, dos desfavorecidos, verifico que é a primeira a apedrejar quem no momento precisa que, em seu nome e defesa, levante a voz. Há coisa que eu não consigo entender e talvez nem sejam para eu entender.
A propósito, a vigora a fórmula matrimonial de que é para a vida toda e se aceitam os filhos que Deus der?
O seu texto está, como sempre, assertivo, objectivo e, acima de tudo, reflecte uma visão realista, prática e actual como eu gosto. Os problemas resolvem-se, na minha óptica, concretizando, executando, fazendo a partir do cenário prático, real com que todos os dias nos deparamos. Se investíssemos mais na saúde, no planeamento familiar, na educação, nas condições de trabalho, etc, talvez conseguissemos resolver muitos problemas que são colaterais daqueles.
ln
 
Pois é essa posição pedagógica que eu esperava da Igreja. "Não julgueis para não seres julgado"-é uma das frases do Evangelho que eu esperava que orientasse as intervenções do Papa sobre questões tão dramáticas e do foro tão intimo, como é a questão de desejar ou não ter um filho. E ainda por cima é dos livros que uma criança só terá condições para crescer de forma feliz, se for fruto de um desejo amoroso profundo.
 
Com o máximo rspeito por todos os catolicos, (tal como todas, quase, outras crenças...)e não esquecendo que toda a esperança é legitima, apetece-me dizer que este papa não ficara na História e que dele se esperará é que o seu pontificado seja curto!!!( por resignação)
Um abraço e bom ano.
 
Outro para si. O Papa talvez fique na história, mas por ter contrariado a abertura que fora desencadeada pelo Papa que lhe antecedeu.
 
Penso que as pessoas entendem que a Igreja (e a Igreja somos todos nós, crentes...) deveria constituir um "respaldo" para as nossas opiniões e vontades...mas a Igreja, enquanto Instituição terrena, tributária de Jesus Cristo, não está aqui na Terra para satisfazer caprichos ou as "vontadinhas" das gentes, mas para interpretar a vontade de Deus...mas, se quem comenta não é crente, como verifico pelos comentários acima, que lhes importa a posição da Igreja? Não será um sinal de contradição?!
 
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